Carrie: os fatos reais que Mike Flanagan usou para reinventar Stephen King

O que uma família americana que manteve os próprios filhos em cativeiro, uma conta racista no Instagram, Joana d’Arc e uma mãe que conseguiu levantar um carro para salvar seu filho têm em comum? Aparentemente, nada. Mas Mike Flanagan encontrou conexões entre essas histórias para construir sua nova versão de Carrie, de Stephen King, que chegou ao Prime Video em outubro de 2026. O mais surpreendente é que alguns dos acontecimentos que parecem ter sido inventados para a série realmente aconteceram, enquanto outros pertencem ao universo das lendas urbanas que o diretor decidiu incorporar à mitologia da telecinese.

O romance de Stephen King, publicado em 1974 e imortalizado no cinema por Brian De Palma em 1976, sempre foi uma história sobre abuso, isolamento, fanatismo religioso e violência adolescente. O sobrenatural funciona como uma consequência extrema de tudo aquilo que Carrie White sofre nas mãos da mãe e dos colegas. Cinquenta anos depois do filme, Flanagan precisava encontrar uma maneira de atualizar essa tragédia sem simplesmente repetir o que já conhecemos. Para isso, partiu de uma pergunta bastante perturbadora: como seria crescer completamente isolada do mundo em uma sociedade na qual todos parecem estar permanentemente conectados?

A família Turpin e o horror de crescer em cativeiro

A resposta veio de um crime real que chocou os Estados Unidos em janeiro de 2018. Em Perris, na Califórnia, David e Louise Turpin mantinham seus 13 filhos sob condições terríveis de abuso, privação alimentar, violência e confinamento. Alguns eram mantidos acorrentados às camas. A descoberta aconteceu quando uma das filhas, de 17 anos, conseguiu escapar pela janela da casa e telefonar para a polícia, revelando uma realidade que permanecera praticamente invisível aos vizinhos.

O mais assustador era justamente a normalidade aparente daquela residência. Não se tratava de uma propriedade isolada em algum lugar remoto, mas de uma casa em uma cidade americana contemporânea, cercada por outras famílias. Como seria possível que tantas crianças e jovens crescessem privados de contato com o mundo sem que ninguém percebesse a extensão do que acontecia ali? Em 2019, os pais se declararam culpados de 14 acusações criminais cada um, referentes a 12 dos filhos. O mais novo não estava incluído nas acusações.

Flanagan confirmou que o caso Turpin foi uma inspiração direta para sua adaptação e que chega a ser mencionado no episódio piloto. A diferença mais importante em relação ao romance é que sua Carrie nunca frequentou a escola até chegar ao ensino médio. Ela cresceu sob o controle absoluto da mãe, Margaret White, sem experiências sociais que a preparassem para conviver com outras pessoas. Sua ignorância sobre o funcionamento do mundo não é apenas ingenuidade adolescente, mas a consequência de uma existência deliberadamente limitada.

Essa escolha torna o abuso de Margaret ainda mais assustador. Estamos acostumados a associar a violência doméstica a agressões físicas, mas o isolamento também é uma forma brutal de controle. Impedir que alguém conheça outras pessoas, tenha acesso a informações e desenvolva autonomia significa negar a essa pessoa os instrumentos necessários para reconhecer a própria situação. Carrie não sabe exatamente o que lhe foi tirado porque nunca teve a oportunidade de conhecer outra maneira de viver.

Albany, 2017: quando o bullying contaminou uma cidade inteira

Se o caso Turpin ajudou Flanagan a explicar o horror dentro da casa de Carrie, outro acontecimento real forneceu a inspiração para aquilo que ela encontra quando finalmente sai de casa.

Em 2017, na Albany High School, na Califórnia, a descoberta de uma conta privada no Instagram provocou uma crise que ultrapassou completamente o ambiente escolar. Criada por um estudante e acompanhada por pouco mais de uma dezena de colegas, a conta reunia publicações racistas e sexistas, imagens ofensivas e ataques direcionados a outros alunos, especialmente meninas negras. Muitos dos envolvidos se conheciam pessoalmente, e alguns mantinham relações de amizade.

Quando as publicações foram descobertas, a situação rapidamente se transformou em um conflito coletivo. Houve protestos, disputas sobre punições, processos judiciais e uma divisão profunda entre estudantes, pais e professores. A agressão inicialmente restrita a um pequeno grupo acabou envolvendo uma comunidade inteira, revelando como a violência digital pode continuar produzindo consequências muito depois da publicação de uma imagem.

A jornalista Dashka Slater investigou o episódio durante cinco anos e publicou, em 2023, o livro Accountable: The True Story of a Racist Social Media Account and the Teenagers Whose Lives It Changed. Seu trabalho recupera não apenas o sofrimento das vítimas, mas também o comportamento dos responsáveis pelas publicações, daqueles que as acompanhavam e dos adultos que tentaram administrar suas consequências. Não há confirmação de que Flanagan tenha utilizado especificamente o livro, mas ele identificou o caso de Albany como uma das referências centrais de sua série.

O diretor percebeu que ali estava a chave para atualizar o bullying de Carrie. A crueldade adolescente já era o centro do romance de King, mas a maneira como ela se organiza mudou profundamente. A humilhação que antes acontecia no vestiário ou nos corredores da escola agora pode ser registrada, compartilhada e transformada em espetáculo. A vítima deixa de enfrentar apenas aqueles que presenciaram a agressão e passa a conviver com a possibilidade de que sua imagem circule indefinidamente.

O caso também permite uma reflexão importante sobre a responsabilidade coletiva. Nem todos os envolvidos precisam criar uma publicação ofensiva para participar da violência. Há aqueles que incentivam, os que compartilham, os que acompanham em silêncio e os que aderem à perseguição por medo de se tornarem os próximos alvos. É exatamente essa dinâmica que Flanagan procura desenvolver entre os colegas de Carrie, oferecendo perspectivas diferentes sem necessariamente justificar suas escolhas.

Columbine e a geração que cresceu com medo dos tiroteios

A modernização também incorpora outro aspecto da experiência adolescente americana: o medo de ataques armados nas escolas. Em 20 de abril de 1999, o massacre de Columbine, no Colorado, deixou 12 estudantes e um professor mortos, além dos dois autores do ataque. O episódio se tornou um marco na discussão sobre segurança escolar nos Estados Unidos, embora infelizmente não tenha sido o último.

Nas décadas seguintes, especialmente depois do massacre de Sandy Hook, em 2012, exercícios de preparação para ataques armados se tornaram parte da rotina de muitos estudantes americanos. Crianças aprendem procedimentos para se esconder, trancar portas e reagir à possibilidade de que alguém entre armado em sua escola. É um tipo de experiência que as gerações anteriores simplesmente não enfrentavam com a mesma frequência.

Flanagan explicou que sua preocupação com essa realidade também é pessoal. Ao acompanhar a experiência escolar dos filhos, percebeu que os adolescentes de hoje convivem com medos e pressões diferentes daqueles que marcaram sua própria juventude. Para escrever Carrie, consultou jovens e procurou compreender melhor uma geração habituada tanto à exposição permanente nas redes sociais quanto à possibilidade de violência dentro da escola.

Columbine não foi apontado por ele como um acontecimento especificamente recriado na série, mas faz parte do contexto histórico que transformou a experiência escolar americana. E essa é uma diferença fundamental em relação a 1974. O terror de King continua reconhecível, mas o ambiente que cerca Carrie se tornou ainda mais ameaçador.

A mãe que levantou um carro e a história das mulheres extraordinárias

As referências reais, porém, não se limitam ao abuso e à violência escolar. Flanagan também pesquisou acontecimentos históricos e lendas urbanas que pudessem servir como possíveis manifestações de telecinese. Em entrevista à revista Letterboxd, explicou que a equipe de roteiristas procurou histórias que já existiam, acrescentando a elas uma interpretação sobrenatural.

Uma das mais conhecidas aconteceu na Geórgia, em 1982. Angela Cavallo teria conseguido erguer parte de um Chevrolet Impala quando o automóvel caiu sobre seu filho Tony, que trabalhava em um conserto. Segundo os relatos, ela sustentou o peso do veículo enquanto vizinhos ajudavam a libertar o rapaz.

O episódio passou a ser citado como exemplo da chamada força histérica, expressão usada para descrever demonstrações extraordinárias de força física durante situações de emergência. Existem relatos semelhantes em diferentes países, embora seja difícil verificar cientificamente suas circunstâncias e a quantidade exata de força empregada.

Para Flanagan, o interesse estava justamente na possibilidade de reinterpretar uma história conhecida. E se aquela mãe tivesse manifestado, por alguns instantes, uma capacidade que normalmente permanecia adormecida? E se outros acontecimentos aparentemente inexplicáveis também estivessem ligados a pessoas com habilidades semelhantes às de Carrie?

A série transforma essas perguntas em uma espécie de genealogia dos poderes telecinéticos, conectando diferentes mulheres ao longo do tempo. É uma expansão importante do universo de King, construída a partir da ideia de que a telecinese poderia ser hereditária.

O congestionamento de 12 dias na China

Outro episódio aproveitado por Flanagan aconteceu em agosto de 2010, quando um congestionamento monumental paralisou uma rodovia na China. O tráfego intenso, a circulação de caminhões e as obras na estrada contribuíram para formar uma fila que chegou a se estender por aproximadamente 100 quilômetros. A situação durou cerca de 12 dias e obrigou motoristas a enfrentar longos períodos praticamente imóveis.

A história parece absurda, mas o congestionamento realmente aconteceu. O que não aconteceu foi a manifestação sobrenatural acrescentada pela série: uma mulher que, tentando meditar para suportar aquela situação desesperadora, começa a levitar sobre seu automóvel.

Flanagan contou que preservou os elementos históricos do episódio e modificou apenas seu desfecho, imaginando o que aconteceria se uma pessoa submetida a tamanha pressão manifestasse uma capacidade telecinética. É uma maneira curiosa de transformar um acontecimento cotidiano, ainda que extremo, em parte de uma mitologia fantástica.

Os casos “reais” de telecinese citados em Carrie

Além das referências contemporâneas, Carrie recupera nomes que fazem parte da história das investigações sobre supostos fenômenos paranormais. As mulheres existiram e seus casos despertaram curiosidade, controvérsia e interesse de pesquisadores. Isso não significa que seus poderes tenham sido comprovados.

Na França, Angélique Cottin ficou conhecida como a “menina elétrica” em 1846, aos 14 anos. Segundo os relatos, móveis e objetos se movimentavam em sua presença. O caso chamou a atenção do cientista François Arago, mas as investigações não estabeleceram a existência de uma força paranormal. A possibilidade de movimentos produzidos pela própria adolescente esteve entre as explicações consideradas.

A italiana Eusapia Palladino tornou-se uma das médiuns mais famosas entre o final do século XIX e o início do XX. Nas sessões espíritas, eram atribuídos a ela movimentos e levitações de mesas e objetos. Foi investigada por pesquisadores, conquistou defensores e também foi flagrada usando truques — uma contradição que acompanhou sua fama.

A polonesa Stanisława Tomczyk, estudada pelo psicólogo Julian Ochorowicz a partir de 1908, ficou conhecida por demonstrações de suposta levitação de pequenos objetos, incluindo uma tesoura. A identificação de fios finos entre suas mãos alimentou as críticas e ofereceu uma explicação física para essas manifestações.

Já Annemarie Schaberl, funcionária de 19 anos de um escritório de advocacia alemão, foi associada ao chamado poltergeist de Rosenheim, em 1967. Perturbações elétricas e movimentações de objetos foram atribuídas pelo parapsicólogo Hans Bender a uma suposta psicocinese inconsciente da jovem, ligada às suas tensões emocionais. A interpretação e os métodos da investigação foram contestados.

Na União Soviética, Nina Kulagina, também conhecida como Ninel Kulagina, ganhou notoriedade a partir dos anos 1960 por demonstrações filmadas em que pequenos objetos pareciam se mover sem contato. Seu caso atraiu pesquisadores soviéticos e ocidentais, mas não estabeleceu uma comprovação científica confiável de telecinese.

A referência a Isabel Rodríguez acrescenta a perseguição religiosa a esse conjunto. Sua tortura pela Inquisição foi representada em uma gravura publicada em El Libro Rojo, em 1870. A imagem documenta uma representação histórica dessa violência; por si só, não comprova uma acusação de bruxaria nem qualquer ligação com poderes telecinéticos.

Em Carrie, essas referências aproximam a fantasia de um passado em que mulheres foram cercadas de suspeitas, examinadas ou perseguidas. Os registros históricos existem. O poder de transformar sofrimento e raiva em uma força capaz de mover objetos pertence à ficção.

Joana d’Arc e as mulheres perseguidas ao longo da história

Entre as referências históricas utilizadas está também Joana d’Arc, que viveu na França do século XV e afirmava receber orientações de vozes divinas. Sua participação na Guerra dos Cem Anos, seu julgamento por heresia e sua execução em 1431, aos 19 anos, fazem parte de uma trajetória documentada que atravessou os séculos e acabou transformada em símbolo religioso e político.

Flanagan não está sugerindo que Joana tivesse realmente poderes telecinéticos. Sua proposta é imaginá-la dentro de um universo fictício no qual mulheres capazes de realizar coisas extraordinárias poderiam ter sido interpretadas como santas, feiticeiras ou ameaças à ordem estabelecida.

A equipe também pesquisou histórias de mulheres acusadas de bruxaria, uma associação especialmente interessante quando pensamos no tratamento dispensado àquelas que desafiavam normas sociais ou eram consideradas diferentes. Os julgamentos de Salem, em 1692, nos quais 20 pessoas foram executadas em Massachusetts, são um dos exemplos mais conhecidos dessa perseguição, embora não haja confirmação de que Flanagan tenha usado especificamente esse episódio.

O diretor contou ainda que pesquisou a lenda do Mothman, criatura associada a supostos avistamentos em Point Pleasant, nos Estados Unidos, durante os anos 1960. A história não chegou a ser incorporada à temporada, mas demonstra a amplitude da pesquisa conduzida pelos roteiristas.

A proposta é imaginar que algumas das lendas que atravessaram gerações poderiam esconder mulheres com habilidades extraordinárias, cujas manifestações foram interpretadas de acordo com as crenças e os medos de cada época. A ligação com Carrie é evidente: Margaret White também procura explicar os poderes da filha por meio de suas convicções religiosas, tratando aquilo que não compreende como uma ameaça espiritual.

O verdadeiro horror continua sendo humano

É fascinante perceber que Flanagan construiu sua adaptação a partir de dois caminhos aparentemente diferentes. De um lado, pesquisou crimes reais e experiências contemporâneas para mostrar como o isolamento, a violência doméstica e o bullying continuam devastadores. De outro, recuperou acontecimentos históricos e lendas para sugerir que as habilidades de Carrie poderiam pertencer a uma história muito maior.

Mas existe uma conexão entre esses dois caminhos. Em todos eles, encontramos pessoas submetidas a circunstâncias extremas, vítimas de perseguição ou colocadas diante de situações que parecem impossíveis de suportar. A telecinese é a explicação fantástica que Flanagan acrescenta a algumas dessas histórias, mas a violência, o medo e o sofrimento que as cercam são perfeitamente reais.

Stephen King publicou Carrie em 1974, quando as redes sociais não existiam e o terror dos ataques armados ainda não fazia parte da rotina escolar americana da maneira como conhecemos hoje. Mesmo assim, a essência de sua história permanece extraordinariamente atual. Carrie White continua sendo uma menina que não compreende plenamente o próprio corpo, não sabe como se defender do mundo e descobre suas capacidades em meio à humilhação e ao abandono.

Cinquenta anos depois de Brian De Palma, Flanagan encontrou acontecimentos reais para demonstrar que essa tragédia continua possível, mesmo sem poderes sobrenaturais. Talvez seja justamente aí que sua atualização se torne mais perturbadora: podemos discutir se uma mulher seria capaz de levantar um automóvel com a força da mente, mas não precisamos imaginar o que acontece quando uma família mantém seus filhos em cativeiro ou quando adolescentes transformam a humilhação de colegas em entretenimento.

Essas histórias já aconteceram. E não precisaram de nenhum elemento sobrenatural para serem aterrorizantes.


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