Slow Horses: Sid Baker é sobrinha de Diana Taverner?

Contém spoilers da sexta temporada de Slow Horses, até o quarto episódio.

Em Slow Horses, poucas coisas são exatamente o que parecem, especialmente quando envolvem Diana Taverner (Kristin Scott Thomas). A atual chefe do MI5 é uma das personagens mais inteligentes, ambiciosas e implacáveis da série, capaz de manipular colegas, superiores e subordinados sem demonstrar qualquer constrangimento. Mas há uma relação que permanece curiosamente mal explicada desde a primeira temporada: sua ligação com Sidonie Baker (Olivia Cooke). E, depois dos acontecimentos do quarto episódio da sexta temporada, essa história ganhou uma dimensão muito mais sinistra. Afinal, Sid é apenas uma agente de confiança de Diana ou existe um parentesco que as duas preferem esconder?

Para entender a pergunta, precisamos voltar ao início da série, quando Sid e River Cartwright (Jack Lowden) dividiam uma sala na Slough House. Oficialmente, ambos eram agentes fracassados, condenados a trabalhar no departamento comandado por Jackson Lamb (Gary Oldman), onde o MI5 deposita os profissionais que deseja punir ou simplesmente esquecer. River havia sido responsabilizado por um exercício de treinamento desastroso, enquanto os motivos da transferência de Sid eram menos claros. Só que, ao contrário do colega, ela parecia muito mais competente, segura de si e pouco preocupada com o próprio futuro naquele lugar.

Não demorou para descobrirmos que Sid não estava ali por acaso. Ela havia sido colocada na Slough House para vigiar River, cumprindo ordens de Diana Taverner, que tinha seus próprios interesses nas atividades do neto de David Cartwright, uma das figuras mais importantes da história do serviço secreto britânico. E é justamente nesse ponto que a relação entre as duas começa a despertar perguntas. Sid respondia diretamente a uma das mulheres mais poderosas do MI5 e parecia ter uma liberdade de acesso e uma familiaridade que não combinavam inteiramente com sua posição oficial.

Mas existe outra possibilidade ainda mais interessante, especialmente quando lembramos da relação de rivalidade e desconfiança entre Diana Taverner e Jackson Lamb. Se Sid for realmente sobrinha de Diana, isso significa que Taverner conseguiu infiltrar alguém de sua própria família na equipe de Lamb sem que ele aparentemente percebesse a conexão. E estamos falando de um dos agentes mais experientes e inteligentes da história do MI5, um homem que passou décadas identificando mentiras, manipulando adversários e descobrindo segredos que deveriam permanecer enterrados. Ter conseguido colocar uma pessoa de sua absoluta confiança dentro da Slough House, sob o nariz de Lamb, seria uma vitória pessoal e profissional extraordinária para Diana.

O mais curioso é que, até agora, nada indica claramente que Lamb conhecesse a verdadeira relação entre as duas, ou mesmo que tivesse compreendido inteiramente o papel que Sid desempenhava em sua equipe. E, pelo que a série nos mostrou, ele tampouco sabe que ela sobreviveu ao atentado da primeira temporada. Se isso estiver correto, Diana não apenas conseguiu enganá-lo uma vez, mas manteve uma informação crucial longe de seu alcance durante anos. Para uma série construída sobre a ideia de que Jackson Lamb está quase sempre vários passos à frente dos demais, essa possibilidade é fascinante. E também nos obriga a considerar outra hipótese: será que Lamb realmente não sabe de nada ou simplesmente ainda não teve motivos para revelar o que sabe?

Enquanto não sabemos exatamente o que Lamb conhece dessa história, existe uma pista deixada ainda na primeira temporada que pode ajudar a compreender a verdadeira natureza da relação entre Sid e Diana. No telefone de Sid, Taverner aparecia identificada como “Aunt Zadie”, ou “tia Zadie”. É possível que fosse apenas um codinome, uma forma de disfarçar a identidade de sua superior caso alguém examinasse o telefone. Aliás, seria um procedimento perfeitamente compatível com o trabalho de uma espiã. Mas Slow Horses é uma série em que detalhes aparentemente insignificantes frequentemente ganham importância muito tempo depois, e o uso da palavra “tia” deixa aberta uma possibilidade bastante interessante: e se a relação entre as duas não fosse apenas profissional?

A hipótese se torna ainda mais curiosa quando lembramos como Sid tratava River. Ela adorava provocá-lo, especialmente por sua posição como neto de David Cartwright, um homem cujo nome ainda tinha enorme peso dentro do MI5. River era, aos olhos dela, uma espécie de nepo baby da espionagem, alguém que podia fracassar repetidamente sem jamais se livrar completamente da proteção representada pelo sobrenome. Só que, se Sid também contava com uma relação familiar privilegiada dentro do serviço, suas provocações ganham uma ironia deliciosa. Ela estaria fazendo exatamente aquilo que criticava no colega, com a diferença de que sabia esconder muito melhor suas vantagens.

O que aconteceu depois também merece ser reexaminado. Na primeira temporada, Sid foi baleada na cabeça durante uma operação e todos, inclusive River, passaram a acreditar que ela havia morrido. Seus registros desapareceram e sua existência foi praticamente apagada dos sistemas do MI5. Para uma organização especializada em esconder verdades inconvenientes, nada disso é particularmente surpreendente. Mas a sexta temporada revela que Sid sobreviveu e continuou ligada a atividades clandestinas, enquanto Diana tinha conhecimento de sua situação. A suposta morte foi, na prática, o começo de outra vida, construída longe dos antigos colegas.

O reencontro com River trouxe de volta algo que já havia chamado a atenção na primeira temporada: a química entre os dois. Sid continua provocadora, inteligente e mais experiente do que ele em certos aspectos, mas agora suas atitudes também revelam uma vulnerabilidade que antes parecia inexistente. River, por sua vez, continua oscilando entre a irritação e a admiração por uma mulher que nunca deixa de desafiá-lo. A dinâmica funciona porque existe afeto por trás das implicâncias, embora nenhum dos dois pareça particularmente interessado em admitir isso.

Mas é a confiança de Sid em Diana que transforma a história. Quando os assassinos russos começam a perseguir os agentes ligados à Slough House, Sid acredita que Taverner poderá ajudá-los. A confiança não parece nascer apenas do respeito à hierarquia ou de uma relação profissional construída ao longo dos anos. Existe uma familiaridade quase filial na maneira como Sid recorre a ela, como se Diana fosse a pessoa capaz de resolver qualquer situação, por mais desesperadora que pareça.

E então vem a traição. Pressionada pelas consequências de uma operação clandestina em Kazan, na Rússia, Diana negocia com os russos uma solução que considera conveniente para sua própria sobrevivência política. Em troca da promessa de interromperem os ataques, aceita entregar Sid Baker. A jovem que havia trabalhado para ela, que confiava nela e que talvez fosse muito mais do que uma subordinada torna-se uma peça sacrificável. No final do quarto episódio, quando Sid cai nas mãos dos assassinos, a dimensão daquela decisão se torna devastadora.

A ironia é ainda mais cruel quando colocamos Diana ao lado de Jackson Lamb. O homem é grosseiro, ofensivo, aparentemente preguiçoso e faz questão de tratar seus subordinados como fracassados irrecuperáveis. Mas, sempre que um deles está em perigo, demonstra uma ferocidade protetora que contrasta com sua indiferença habitual. Lamb pode insultar os seus pangarés durante o dia inteiro, mas é capaz de desafiar o MI5, antigos inimigos e até seus superiores para impedir que sejam mortos. Diana, ao contrário, cultiva uma imagem de eficiência, sofisticação e profissionalismo, mas, quando precisa escolher entre uma agente leal e a preservação do próprio poder, não hesita em sacrificar a primeira.

É claro que nada disso prova que Sid seja realmente sobrinha de Diana. O apelido no telefone pode ser apenas uma cobertura, e a confiança entre as duas pode resultar de anos de trabalho em operações secretas. Também não podemos ignorar que, no universo de Slow Horses, relações pessoais são frequentemente instrumentalizadas por aqueles que detêm o poder. Diana não precisa ser parente de Sid para explorar a lealdade dela, e talvez seja justamente essa a explicação mais perturbadora.

Ainda assim, a possibilidade de parentesco acrescenta uma camada especialmente cruel à história. Se forem tia e sobrinha, a decisão de Diana deixa de ser apenas mais uma traição institucional e se aproxima de uma forma de abandono familiar. E, mesmo que não exista qualquer ligação de sangue, a intimidade sugerida entre elas torna a escolha moralmente terrível. Sid acreditava conhecer Diana suficientemente bem para confiar sua vida a ela. Descobriu, da pior maneira possível, que a confiança não era recíproca.

Talvez a pergunta mais importante já não seja se Diana Taverner é realmente tia de Sid Baker, embora eu continue querendo muito saber a resposta. A questão é o que essa relação revela sobre as duas mulheres. Sid, tão rápida em identificar os privilégios de River Cartwright, pode ter cometido o erro de acreditar que sua própria proximidade com o poder também lhe garantiria proteção. Diana, por sua vez, acaba de demonstrar que, em seu universo, nem a lealdade nem o afeto são suficientes para impedir uma traição.

E é impossível não pensar que a verdadeira diferença entre Diana Taverner e Jackson Lamb está justamente aí. Lamb faz de tudo para convencer seus agentes de que não se importa com eles, mas suas atitudes provam o contrário. Diana faz seus subordinados acreditarem que podem contar com ela, até o momento em que deixam de ser úteis. Se Sid for realmente sua sobrinha, a revelação poderá tornar essa diferença ainda mais monstruosa. Se não for, o que aconteceu já é suficientemente cruel.


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