Antes de se tornarem dois nomes incontornáveis da música, Miles Davis e Juliette Gréco se apaixonaram em Paris. Parece uma dessas combinações que o cinema inventaria: um jovem trompetista americano, uma francesa que começava a encontrar seu espaço e a cidade que, no pós-guerra, reunia artistas e intelectuais nos mesmos cafés. Mas o romance existiu. E agora será levado às telas em Miles & Juliette, com Damson Idris e Anamaria Vartolomei nos papéis principais.

A produção começou em Paris, e a primeira imagem foi divulgada em outubro. Bill Pohlad, que dirigiu Love & Mercy, sobre Brian Wilson, assume a direção, com roteiro de Zora Howard e Mick Jagger entre os produtores. O recorte é especialmente interessante porque acompanha o encontro de dois jovens que ainda não carregavam o peso das próprias lendas. Ainda não há data de estreia anunciada.
O encontro aconteceu em 1949, quando Miles viajou à França para participar do Festival Internacional de Jazz, na Salle Pleyel. Juliette foi levada aos bastidores por Michèle Vian, mulher de Boris Vian. Não tinha dinheiro para comprar uma entrada. Anos depois, lembraria a beleza do perfil do músico e a impressão causada pela combinação entre aquele homem, seu instrumento e o som que produzia. A paixão veio antes de qualquer facilidade de comunicação: ela mal falava inglês, ele não falava francês.
É um detalhe delicioso, mas o que torna essa história mais forte está no que aconteceu depois. O romance encontrou um limite que nenhum dos dois poderia resolver apenas com vontade: o racismo. Na lembrança de Juliette, Jean-Paul Sartre chegou a perguntar a Miles por que ele não se casava com ela. A resposta teria sido que a amava demais para fazê-la infeliz. O que poderia parecer uma desculpa romântica estava ligado ao que significaria viverem juntos nos Estados Unidos.
Juliette compreenderia essa diferença ao reencontrá-lo em Nova York. Em um jantar no Waldorf-Astoria, segundo seu relato à Europe 1, os pratos foram praticamente atirados à mesa. Mais tarde, Miles telefonou dizendo que não queria mais vê-la ali, para não prejudicá-la. A violência daquele tratamento revelou à francesa uma realidade que o encontro em Paris não lhe havia imposto da mesma maneira.

Há um risco evidente em transformar tudo isso apenas em um amor impossível, embalado por jazz e belas imagens de Paris. O interesse está justamente em perceber como uma estrutura social invade a intimidade e condiciona uma escolha que deveria pertencer ao casal. Será interessante acompanhar quanto espaço o filme dará à experiência de Juliette e à consciência de Miles sobre o mundo para o qual teria de voltar.
Eles nunca se casaram, mas tampouco desapareceram da vida um do outro. Juliette contou que continuaram se encontrando ao longo das turnês e que ele deixava pequenos recados nos lugares por onde ela passaria. Miles a visitou meses antes de morrer, em 1991. O romance parisiense foi breve; o vínculo atravessou décadas.
Robert Glasper assina a trilha e a produção musical, uma responsabilidade considerável quando um dos protagonistas é Miles Davis. Mas a promessa que mais me interessa está naquele momento anterior à consagração. A história já tem música, paixão e personagens extraordinários. Espero que o filme também preserve o desconforto de saber que o sentimento existia, mas a liberdade de vivê-lo não era a mesma para os dois.
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