Bloodaxe: Michael Hirst conseguirá repetir o sucesso de Vikings?

Quando Vikings estreou, em 2013, poucas pessoas poderiam imaginar o fenômeno em que se transformaria. A produção do History Channel recuperava um período histórico já explorado inúmeras vezes pelo cinema e pela televisão, mas encontrava uma maneira diferente de contar aquelas histórias, misturando política, religião, disputas familiares, violência e personagens fascinantes. Michael Hirst, que já havia demonstrado sua habilidade para os dramas históricos em The Tudors, criou uma das melhores séries daquela década. Mais de dez anos depois, volta ao universo nórdico com Bloodaxe, agora ao lado do filho, Horatio Hirst, em uma produção do Prime Video que estreia em 20 de janeiro de 2027.

Eu deveria estar empolgada. Afinal, acompanhei Vikings desde o início e continuo considerando suas primeiras temporadas extraordinárias. Entretanto, as primeiras fotografias e o teaser de Bloodaxe, apresentados em outubro, provocaram uma reação muito diferente da que eu esperava. Em vez da curiosidade diante de uma nova saga, tive a desagradável impressão de já conhecer aqueles personagens, aqueles conflitos e até aqueles cenários, embora estivesse vendo um elenco inteiramente novo.

A história acompanha Erik Bloodaxe, interpretado por Xavier Molyneux, um dos personagens mais conhecidos das sagas nórdicas, e sua esposa Gunnhild, a Mãe dos Reis, interpretada por Jessica Madsen, de Bridgerton. A disputa pelo trono da Noruega envolve irmãos rivais, alianças instáveis, traições, guerras e interferências de outros reinos escandinavos e ingleses. Entre os personagens estão Haakon, o Bom, meio-irmão de Erik, interpretado por Levi Miller; o rei inglês Athelstan, interpretado por Rod Hallett; e Harald Fairhair, interpretado por Jesper Christensen.

A premissa parece familiar? É praticamente impossível não reconhecer os principais ingredientes de Vikings, incluindo um dos conflitos mais explorados por Hirst: irmãos que se amam, se odeiam, se traem e se enfrentam pelo poder. Foi assim com Ragnar e Rollo, depois com os filhos de Ragnar, especialmente Bjorn e Ivar, e novamente em Vikings: Valhalla, com as disputas entre Harald Sigurdsson e Olaf. Evidentemente, as sucessões escandinavas foram marcadas por conflitos familiares, mas a fidelidade ao contexto histórico não elimina a sensação de repetição dramática.

Também me incomodou a familiaridade visual. Os figurinos, as peles, os cabelos, as barbas, os rostos cobertos de sangue, a fotografia fria e os guerreiros que parecem estar permanentemente prestes a entrar em combate reproduzem a linguagem que conhecemos tão bem. Não é necessariamente uma deficiência de produção, pelo contrário. Há cuidado evidente na reconstrução de época, mas falta, pelo menos nessas primeiras imagens, alguma coisa que anuncie uma identidade própria.

E chegamos à questão mais delicada: o carisma.

Travis Fimmel não foi apenas o protagonista de Vikings. Sua interpretação de Ragnar Lothbrok ajudou a transformar uma produção histórica em um fenômeno cultural. Ragnar podia ser brutal, manipulador, cruel, amoroso, curioso e profundamente contraditório, às vezes em uma mesma cena. Fimmel possuía uma presença que não dependia de grandes discursos, trabalhando com o olhar, com os movimentos imprevisíveis e com um humor frequentemente desconcertante. Havia algo nele que tornava impossível desviar a atenção. Katheryn Winnick, como Lagertha, também construiu uma personagem de força impressionante, enquanto Gustaf Skarsgård, como Floki, acrescentava à história uma dimensão religiosa, emocional e quase sobrenatural.

Mais tarde, mesmo quando a série começou a perder parte de sua força, Alex Høgh Andersen conseguiu criar um Ivar, o Sem-Ossos, fascinante e detestável na mesma proporção. O que sustentava Vikings não eram apenas as batalhas, mas os personagens e, principalmente, os atores capazes de torná-los inesquecíveis.

É injusto exigir que Xavier Molyneux seja outro Travis Fimmel antes mesmo de assistirmos a um episódio. Também seria precipitado concluir que Jessica Madsen não conseguirá transformar Gunnhild em uma personagem de grande presença. Entretanto, o material promocional ainda não me apresentou ninguém que provoque a curiosidade imediata despertada pelo elenco original. E isso importa quando se pretende recuperar uma fórmula que depende tanto do magnetismo de seus protagonistas.

Há ainda uma questão histórica que considero particularmente interessante, porque foi criada pelo próprio Michael Hirst.

Quem acompanhou Vikings lembra que Harald Finehair, interpretado por Peter Franzén, morreu na sexta e última temporada, durante a campanha contra os saxões na Inglaterra. A cena tinha até uma dimensão emocional, com a aparição do irmão Halfdan, que vinha conduzi-lo a Valhalla. Historicamente, porém, Harald viveu até aproximadamente 933 e teve numerosos filhos, entre eles Erik Bloodaxe, que acabaria assumindo o poder na Noruega. Em Bloodaxe, Harald estará novamente vivo, agora interpretado por Jesper Christensen.

Não se trata de um erro que Hirst tenha cometido por desconhecimento. Ele sempre tomou enormes liberdades com os acontecimentos, a cronologia e as relações familiares das figuras históricas que utilizou. A diferença é que, durante Vikings, essas adaptações faziam parte de um universo dramático relativamente autônomo, dentro do qual o público aceitava as regras estabelecidas. Ao revisitar personagens históricos já utilizados na produção anterior, porém, ele cria uma contradição curiosa: o espectador conhece aquele Harald, lembra de sua morte e agora encontrará outro Harald, vivo, em uma história sobre o filho que nunca conhecemos na série original.

É verdade que Bloodaxe não foi anunciada como uma continuação direta de Vikings. Mesmo assim, a divulgação insiste, compreensivelmente, na ligação com seu criador e com o sucesso que o consagrou. A série deseja recuperar a memória afetiva do público, mas não poderá preservar integralmente a continuidade daquela narrativa. Para quem assistiu à produção original, essa diferença pode causar um estranhamento inevitável.

O desgaste do universo também merece atenção. Vikings: Valhalla, produzida para a Netflix e ambientada cerca de um século depois da história original, tentou reproduzir a combinação de grandes personagens históricos, conflitos religiosos, guerras e romances que havia conquistado o público. Teve três temporadas e encontrou sua audiência, mas, para mim, nunca alcançou a mesma força dramática de Vikings. Mais do que ampliar um universo, acabou demonstrando como uma fórmula bem-sucedida pode perder parte de seu encanto quando reproduzida com novos personagens.

Agora, o desafio se repete em uma terceira etapa comercial. Vikings nasceu no History Channel, teve sua distribuição ampliada pelo streaming e encontrou novos públicos na Netflix e no Prime Video, dependendo do território. Valhalla foi uma produção original da Netflix, enquanto Bloodaxe chega como uma nova aposta do Prime Video. São projetos com vínculos criativos e temáticos, mas com diferentes modelos de distribuição e, sobretudo, com a mesma promessa de espetáculo histórico.

A pergunta, portanto, não é apenas se ainda há histórias vikings que merecem ser contadas. Evidentemente, há muitas. A trajetória de Erik Bloodaxe, suas disputas com os irmãos, sua relação com Gunnhild e sua posterior ligação com a Inglaterra oferecem material dramático suficiente para várias temporadas. O problema é descobrir o que Michael Hirst tem de novo a dizer sobre personagens que parecem enfrentar os mesmos dilemas, nas mesmas paisagens e com as mesmas soluções narrativas.

Existe ainda uma diferença importante entre Vikings e as produções que procuram recuperar seu sucesso. Na origem, a série não dependia da nostalgia. Ragnar Lothbrok era praticamente desconhecido do grande público, e sua história podia surpreender a cada episódio. Bloodaxe, ao contrário, chega carregando expectativas e comparações que já fazem parte de sua identidade antes mesmo da estreia. A presença de Hirst é uma vantagem, mas também aumenta a cobrança.

O Prime Video demonstra confiança ao garantir uma segunda temporada antes de lançar a primeira. Talvez a decisão seja justificada e estejamos diante de uma produção que recupere a qualidade dos melhores momentos de Vikings. As fotografias, afinal, não revelam a complexidade dos roteiros, e um teaser dificilmente permite avaliar o desenvolvimento dos personagens.

Ainda assim, fiquei cética. Eu esperava sentir aquela curiosidade que uma vez me fez acompanhar Ragnar, Lagertha, Floki e seus filhos durante anos, mesmo quando já discordava de muitas das decisões de Michael Hirst. Em vez disso, reconheci uma coleção de imagens, situações e conflitos que parecem pertencer a histórias que já conheço.

Talvez Bloodaxe consiga provar que ainda existe vida nova nesse universo. Mas, para isso, precisará de muito mais do que espadas, traições entre irmãos e belas paisagens cobertas de névoa. Precisará nos apresentar pessoas pelas quais valha a pena voltar a esse mundo. Porque o que tornou Vikings extraordinária nunca foi simplesmente o fato de seus personagens serem vikings.


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