The Gilded Age: o que o salto no tempo muda para os casais?

Amanhã teremos o trailer final da quarta temporada de The Gilded Age, portanto, a contagem regressiva para voltar àquela fase em que qualquer imagem merece atenção. A estreia em 1º de novembro e o trailer chegam como parte da reta final da campanha. Ainda temos dois domingos pela frente, mas já está bastante claro qual é a tensão que a HBO quer colocar no centro da conversa: Bertha Russell conquistou o espaço que desejava na sociedade, e agora precisa lidar com o que essa vitória fez com sua família.

Não espero que o trailer entregue as respostas. A HBO sabe muito bem sugerir uma crise sem revelar como ela será resolvida, e vamos, naturalmente, examinar cada segundo, cada olhar e cada personagem ao fundo de uma festa. Mas o enfoque da promoção é consistente. O casamento de Bertha e George continua sendo a grande preocupação, porque a relação que sustentou boa parte do prazer de acompanhar a série já não oferece a mesma segurança. E há uma questão que pode tornar tudo mais complicado: quanto tempo terá passado desde que os deixamos?

Dois anos não são pouca coisa

A terceira temporada se passou em 1884, e Donna Murphy, nossa Mrs. Astor, já indicou 1886 como o ano da quarta. Isso aponta para um avanço de aproximadamente dois anos na cronologia, embora seja importante distinguir a época em que a temporada se passa de um salto integral logo em seu primeiro episódio. Podemos chegar a 1886 ao longo da história. Podemos começar lá. As consequências dessas escolhas são bem diferentes.

A Estátua da Liberdade ajuda a situar essa discussão. Sua inauguração aconteceu em 28 de outubro de 1886, portanto, se a série incorporar a cerimônia, terá que alcançar essa data. Historicamente, faz sentido. Dramaticamente, porém, avançar o calendário exige mais do que trocar o ano: todos aqueles conflitos que acabamos de acompanhar também terão envelhecido, e dois anos são bastante tempo para manter certas questões exatamente onde estavam.

É aí que a passagem do tempo traz boas e más notícias. Por um lado, permite encontrar personagens em novas posições e acompanhar as consequências de suas escolhas. Por outro, pode nos tirar justamente aquilo que esperávamos ver. Afinal, há uma diferença entre descobrir que um casamento aconteceu e acompanhar as negociações, os obstáculos e a decisão de realizá-lo. Em The Gilded Age, essas etapas raramente são detalhes.

Bertha e George: quanto tempo dura uma ruptura?

A campanha recupera a cumplicidade dos Russells para colocá-la ao lado do que se perdeu. Não era apenas atração, embora ela ajudasse muito. George e Bertha funcionavam como parceiros, dois ambiciosos capazes de enfrentar o mundo porque contavam um com o outro. A questão nunca foi descobrir que ela queria subir socialmente. Ele sabia disso. O problema foi o que Bertha passou a considerar aceitável para chegar aonde queria, inclusive dentro da própria família.

O casamento de Gladys transformou essa tensão em algo que George já não conseguiu simplesmente absorver. E é por isso que um salto de dois anos muda a natureza do conflito. Uma separação recente ainda pode ser vivida como choque, raiva, uma reação cujo alcance nenhum dos dois compreendeu inteiramente. Dois anos depois, o afastamento já terá produzido hábitos, arranjos e uma forma de convivência. Mesmo que continuem casados, precisamos saber o que esse casamento passou a significar.

Estaremos diante de uma união de fachada? De duas pessoas tentando se reaproximar? De um casal que manteve as aparências enquanto reorganizou a vida em separado? São possibilidades, não respostas que as imagens promocionais permitam antecipar. Mas a duração da crise importa, porque não podemos reencontrá-los como se George tivesse acabado de sair de casa se uma parte considerável de suas vidas transcorreu desde então.

Há ainda a gravidez de Gladys, anunciada no final da terceira temporada. Se realmente avançarmos dois anos de uma vez, o bebê já deverá ter nascido. Como Bertha e George atravessaram a chegada de um neto ou de uma neta enquanto seu próprio casamento se desfazia? Bertha encontrou um novo lugar na vida da filha? George se aproximou dela? A passagem do tempo multiplica as perguntas, porque acontecimentos dessa dimensão não ficam suspensos à espera de nossa volta.

Peggy, William e os casamentos que queremos acompanhar

Com Peggy e William, minha expectativa é mais feliz, mas a dúvida cronológica permanece. Depois do pedido de casamento e diante de um possível avanço de dois anos, seria natural esperar que já estivessem casados. Ao mesmo tempo, a sinopse da temporada ainda fala da tentativa de Peggy de ser aceita pelos futuros sogros, o que mantém aberta a questão de quando exatamente vamos encontrá-los.

As imagens que sugerem um casamento alimentam a vontade de acompanhar essa celebração, mas também pedem contexto. Se Peggy continua noiva tanto tempo depois, o que impediu a união? Se virmos o casamento antes de um salto, o desenho da temporada será outro. Sua relação com a família de William tem conflitos suficientes para sustentar uma história, e espero que Peggy possa avançar sem ficar eternamente tentando provar que merece um lugar nela.

Já Oscar e Enid, a eterna Turner para quem acompanha a série desde o início, despertam uma curiosidade diferente. Estou entre os que adoraram a perspectiva dessa aliança. Há uma combinação deliciosamente conveniente entre o dinheiro dela, as conexões dele e o entendimento de que ambos têm interesses que um casamento convencional não atenderia. As imagens de celebração sugerem que a proposta poderá ganhar forma, e a festa mais ousada, com um ar de cabaré, combina perfeitamente com a disposição dos dois para provocar aquela sociedade.

É curioso que a união mais assumidamente estratégica possa parecer tão promissora. Oscar e Enid sabem o que estão negociando. Bertha e George, que tinham uma intimidade muito mais verdadeira, precisam descobrir se ainda compartilham alguma coisa além do sobrenome e de tudo o que construíram.

E Marian e Larry?

Minha maior preocupação, admito, continua sendo Marian e Larry. Eles terminaram a temporada reconciliados, dançando juntos, mas sem uma renovação clara do noivado. Isso deixava espaço para que retomassem a relação com mais maturidade. Se, porém, dois anos tiverem passado e ainda estivermos no mesmo território de sorrisos, aproximações e indefinições, será difícil não perguntar o que aconteceu durante todo esse intervalo.

Nas imagens de festa, os dois continuam oferecendo aquilo que sempre nos conquistou: a facilidade de estarem juntos, os olhares, a dança, a sensação de que existe uma afinidade que dispensa grandes explicações. Só que essas imagens não confirmam casamento, noivado nem o estado atual da relação. E justamente por gostar deles, eu gostaria de vê-los sair dessa promessa permanente.

Julian Fellowes conhece bem o efeito de adiar uma união. Quem acompanhou Downton Abbey reconhece a habilidade de transformar o “vai ou não vai” em combustível para várias temporadas. Funciona, até certo ponto. O problema é quando os obstáculos começam a ocupar mais espaço do que aquilo que nos fez torcer pelo casal. Marian e Larry eram empolgantes porque havia algo bonito e relativamente simples entre eles, em meio a um mundo que complica tudo. Não precisamos perder essa qualidade para que tenham uma história.

Um casal também pode produzir drama depois de se escolher. Há famílias, trabalho, dinheiro, projetos de vida e divergências suficientes naquele universo para testar uma relação sem precisar adiar indefinidamente sua existência. Se Marian e Larry não conseguiram reconstruir o compromisso ao longo de dois anos, a série precisará mostrar por quê. Um novo mal-entendido, sozinho, dificilmente terá o mesmo peso.

É isso que vou procurar no trailer: além das festas e dos figurinos, sinais de que o tempo realmente passou para essas pessoas. Bertha pode continuar pagando por sua ambição, mas esse pagamento terá uma história. Peggy pode estar construindo uma família, Oscar e Enid podem estar reinventando um casamento, Marian e Larry podem estar tentando entender o que querem. Quero voltar a todos eles. Só espero que os anos tenham servido para fazê-los viver, e não apenas para nos deixar esperando.


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