Há uma pergunta que não sai da minha cabeça desde que Diana Taverner (Kristin Scott Thomas) decidiu entregar Sid Baker (Olivia Cooke) aos russos na sexta temporada de Slow Horses: quem é a agente que ela está tão desesperada para proteger? Porque, convenhamos, precisa ser alguém extraordinariamente importante para justificar o sacrifício de uma mulher por quem Diana parece ter uma ligação muito mais profunda do que uma simples relação profissional. E quanto mais penso no assunto, mais me convenço de que talvez estejamos procurando a pessoa errada. A agente que Diana deseja proteger a qualquer custo pode ser, simplesmente, ela mesma.
Já analisamos diversas vezes a personalidade de Diana, sua ambição, sua relação com Jackson Lamb (Gary Oldman) e até a possibilidade de que Sid seja sua sobrinha. Não precisamos voltar a discutir sua capacidade de manipular pessoas ou sua convicção de que os interesses do MI5 justificam praticamente qualquer decisão. O que interessa agora é compreender a lógica de uma escolha que, mesmo para alguém com seus antecedentes, parece particularmente cruel.

A operação clandestina em Kazan foi autorizada por Diana como retaliação a um ataque russo com substância neurotóxica em território britânico. A vítima do assassinato era uma agente do GRU envolvida na operação anterior, e Diana decidiu responder com a mesma violência, embora não tivesse autorização oficial do governo britânico. Para financiar a missão, recorreu a Peter Judd, que conseguiu dinheiro por meio de investidores privados ligados a Damien Cantor. Ou seja, não estamos falando de uma operação regular do MI5, mas de um assassinato organizado clandestinamente, utilizando recursos cuja origem Diana não controlava completamente.
A vítima foi assassinada em Kazan, mas sua execução precisaria permanecer desvinculada do governo britânico. Foi aí que a identidade de Sid entrou na história. Oficialmente morta desde os acontecimentos da primeira temporada, ela oferecia uma cobertura conveniente para alguém que precisava atuar sem deixar rastros. O problema é que os russos conseguiram identificar o nome utilizado na operação e passaram a exigir a entrega da suposta responsável.
Sid nunca esteve em Kazan. Não matou a agente russa, não sabia que sua identidade havia sido utilizada e, principalmente, confiava na mulher que havia organizado sua sobrevivência depois de receber um tiro na cabeça. Ainda assim, Diana aceitou entregá-la para uma morte praticamente certa. É aqui que a história deixa de ser apenas mais uma operação clandestina que saiu do controle.
No quinto episódio, Diana insiste que não pode abrir mão da verdadeira agente envolvida na execução. Mas quem seria tão indispensável? Estamos falando de alguém com informações extraordinariamente sensíveis? De uma profissional cuja identidade comprometeria outras operações? Ou simplesmente de uma executora que poderia revelar quem realmente ordenou o assassinato?
Porque existe uma diferença entre ser responsável pela execução material de um crime e ser responsável por sua realização. Diana não segurou a arma que matou a agente russa, mas foi ela quem decidiu que aquela mulher deveria morrer, autorizou a operação e providenciou os recursos para executá-la. A assassina cumpriu uma ordem. Diana deu a ordem. E, politicamente, essa diferença pode ser irrelevante.

Se a verdadeira executora fosse entregue aos russos, poderia revelar toda a cadeia de comando. A investigação deixaria de envolver apenas uma agente operando sob identidade falsa e alcançaria a própria chefe do MI5, expondo uma missão não autorizada, financiada com dinheiro privado e realizada em território estrangeiro. Não seria apenas um escândalo diplomático. Poderia significar o fim da carreira de Diana e uma crise institucional de proporções imprevisíveis.
Portanto, quando ela afirma que precisa proteger a verdadeira agente, talvez esteja dizendo algo bastante diferente daquilo que parece. Diana precisa impedir que a executora seja identificada porque essa mulher é o elo entre o assassinato e a pessoa que realmente tomou a decisão. Ela própria.
Mas por que sacrificar justamente Sid?
Essa continua sendo a parte mais perturbadora da história, especialmente porque a relação entre Diana e Sid nunca foi suficientemente explicada.
Sabemos que Sid não chegou a Slough House pelas mesmas razões que os demais pangarés. Ela havia sido colocada ali por Diana para observar River Cartwright (Jack Lowden), sobretudo por causa de sua ligação com David Cartwright (Jonathan Pryce). Também sabemos que, quando Sid foi baleada, Diana participou do processo que permitiu que sobrevivesse e desaparecesse dos registros oficiais. E há aquela intrigante referência a Diana como tia, que alimenta a possibilidade de uma ligação familiar entre as duas.
Não temos confirmação desse parentesco, mas a hipótese continua interessante, principalmente porque Sid demonstra uma confiança quase absoluta em Diana. Quando precisa de ajuda, insiste em procurá-la, mesmo depois de River alertá-la de que recorrer ao Serviço pode significar entregar sua localização aos inimigos. Sid acredita que Diana irá protegê-la porque, em algum momento, recebeu motivos para acreditar nisso. E Diana sabe.
É possível que exista uma ligação afetiva verdadeira entre as duas, mesmo que não sejam parentes. Talvez Diana tenha acompanhado a carreira de Sid desde o início, talvez tenha assumido uma responsabilidade especial depois do atentado que quase a matou. A questão é que nada disso parece suficiente para impedir que a utilize como moeda de troca quando sua própria posição está ameaçada.

Se nossa hipótese de parentesco estiver correta, a decisão se torna ainda mais cruel. Diana não estaria sacrificando apenas uma subordinada de confiança, mas alguém de sua própria família. E, se não estiver, a traição continua sendo profundamente pessoal, porque Sid confiou justamente na mulher que tinha todos os motivos para desconfiar.
O detalhe mais perverso é que Diana não precisou inventar uma identidade para incriminar Sid. Utilizou a identidade de uma mulher que ela mesma havia ajudado a apagar dos registros. A proteção oferecida no passado se transformou no mecanismo que permitiria sacrificá-la no presente.
O que Mick Herron revela nos livros?
No romance Slough House, Mick Herron começa a história justamente com o assassinato da agente russa. A vítima é abordada por duas pessoas, e uma mulher a esfaqueia em uma emboscada cuidadosamente preparada. Pouco depois, Diana recebe a notícia da execução e demonstra satisfação com o resultado.
O livro deixa clara sua responsabilidade pela operação. A execução foi autorizada por ela, sem aprovação governamental, e financiada por meio dos recursos obtidos com Judd. A identidade da executora, entretanto, não se transforma em uma revelação pessoal capaz de explicar uma ligação secreta com Diana. O essencial para a trama é a responsabilidade política da chefe do MI5 e a cadeia de interesses que sua decisão colocou em movimento.
A televisão acrescentou um elemento particularmente dramático ao utilizar Sid como identidade de cobertura e desenvolver sua relação com Diana. Isso permite que a adaptação transforme um conflito político em uma traição pessoal, acrescentando uma dimensão emocional que torna as escolhas de Diana ainda mais difíceis de aceitar.

Também precisamos lembrar que a conspiração não termina com a entrega de Sid. O envolvimento de Judd e Cantor coloca Diana em uma posição de vulnerabilidade crescente. O dinheiro utilizado na operação acaba oferecendo aos envolvidos meios de pressioná-la, enquanto informações sobre Slough House chegam aos russos e provocam uma sequência de assassinatos.
Portanto, a mulher que imaginava poder controlar uma operação clandestina sem responder a ninguém descobre que criou uma rede de dependências e chantagens capaz de comprometer tudo que conquistou.
Afinal, quem Diana está tentando salvar?
Há pelo menos duas respostas possíveis. A primeira é aquela que a própria Diana oferece: existe uma agente cuja identidade precisa permanecer protegida, seja por seu valor operacional, seja pelo risco de comprometer outras atividades do Serviço. Não podemos descartar essa explicação, até porque ainda não conhecemos todos os detalhes da operação na versão televisiva.
Mas a segunda resposta me parece muito mais interessante. Diana está protegendo a pessoa que ordenou o assassinato, utilizou recursos privados para financiá-lo, permitiu que uma identidade inocente fosse comprometida e agora precisa impedir que toda a operação seja exposta. Ela mesma.
Isso não significa que Diana tenha executado pessoalmente a agente russa. Significa que, se a verdade vier à tona, descobrir quem segurou a arma talvez seja a parte menos importante do escândalo. O que realmente interessa é quem decidiu matar e quem tinha autoridade para impedir que isso acontecesse. E essa pessoa é Diana Taverner.

O quinto episódio ainda não encerrou o mistério, mas tornou a pergunta inevitável: que tipo de ligação Diana pode ter com Sid para demonstrar tamanha proximidade e, mesmo assim, aceitar entregá-la aos russos? E o que poderia ser mais importante do que a vida de alguém por quem ela aparentemente se importa?
Talvez a resposta seja mais simples e mais terrível do que esperamos. Diana não precisa amar a verdadeira assassina para protegê-la. Precisa apenas saber que, se ela falar, tudo poderá desmoronar. E, no universo de Slow Horses, poucas coisas parecem assustar Diana Taverner mais do que perder o poder que passou a vida inteira tentando conquistar.
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