Contém spoilers dos dois primeiros episódios.
Ainda posso mudar de opinião, mas os dois primeiros episódios de VisionQuest me deixaram uma impressão mediana. Há ideias inteligentes, um personagem que merece esse espaço e uma discussão interessante sobre o que nos torna quem somos. O texto, entretanto, é fraco justamente onde precisaria dar vida a tudo isso. A necessidade de explicar uma trajetória complicada é compreensível, mas o didatismo transforma-se em repetição, a repetição diminui o ritmo e a série acaba falando demais sobre sentimentos sem conseguir despertá-los na mesma proporção. Se não fosse James Spader, faltaria alma.

A sombra da genialidade narrativa de WandaVision pesa sobre essa continuação, assim como o sucesso de Agatha All Along. São comparações inevitáveis para uma produção apresentada como o encerramento dessa trilogia, sobretudo porque as anteriores encontraram maneiras muito particulares de contar suas histórias. Em WandaVision, a linguagem das sitcoms fazia parte do mecanismo de defesa de Wanda: a forma nos permitia compreender o sofrimento antes mesmo de termos todas as explicações. VisionQuest também procura uma representação visual para a vida interior de seu protagonista, mas, até aqui, parece confiar menos naquilo que mostra do que nas explicações que oferece depois.
O problema não está em retomar informações. Entre mortes, reconstruções, filhos criados por magia e consciências que sobrevivem em outros corpos, há bastante coisa para organizar. O problema é que a série continua esclarecendo sua premissa quando já a compreendemos, como se precisasse garantir a cada conversa que ninguém perdeu uma etapa. Essa dificuldade também aparece nas primeiras avaliações: a crítica da The Rolling Tape, dedicada aos dois episódios iniciais, destaca o excesso de exposição, enquanto a Variety, que avaliou a temporada completa, aponta a distância entre as ideias da série e sua capacidade de produzir uma conexão emocional. Minha impressão, por enquanto, limita-se à estreia.
Lembrar não é sentir
O Visão que acompanhamos faz questão de nos lembrar, repetidamente, que é outro Visão. Ele possui as memórias do anterior, mas não os sentimentos associados a elas. Sabe que amou Wanda, reconhece acontecimentos de uma vida compartilhada e pode acessar essas experiências, embora não consiga experimentá-las como o homem que as viveu. É uma premissa bastante inteligente, porque separa duas coisas que costumamos tratar como inseparáveis: conhecer nossa história e conseguir dar a ela um sentido afetivo.
Nessa perspectiva, podemos fazer uma leitura psicanalítica da série, sem precisar supor que ela reproduza literalmente um processo de análise. Saber contar o que aconteceu não significa que elaboramos aquela experiência. Podemos descrever uma perda, identificar suas circunstâncias e até compreender racionalmente seus efeitos, enquanto continuamos afastados dos afetos envolvidos. A informação, sozinha, não dá conta desse trabalho. Visão conhece os fatos, mas permanece preso à tentativa de compreender por que eles deveriam importar para ele.

A casa construída dentro de sua mente oferece uma imagem interessante dessa organização. Ali convivem outras inteligências artificiais, com funções e personalidades diferentes, que o ajudam a interpretar o mundo. Podemos ler aquele espaço como uma encenação de sua vida psíquica, com lembranças às quais ele retorna, assuntos que evita e uma convivência que está longe de ser inteiramente harmoniosa. O inconsciente não funciona como um arquivo perfeitamente organizado, mas a distância entre o que Visão consegue acessar e aquilo com que consegue entrar em contato emocionalmente oferece uma aproximação produtiva.
Também é curioso acompanhar um herói artificial em um momento no qual a inteligência artificial aparece com tanta frequência como ameaça. A Marvel tem uma história mais ambivalente com isso, e a série recupera essa tradição ao reunir J.A.R.V.I.S., F.R.I.D.A.Y., E.D.I.T.H. e outros programas associados ao universo de Tony Stark. Ultron está nessa mesma equação, evidentemente, mas não representa sozinho aquilo que essas inteligências podem ser.
É justamente por isso que sinto falta de Tony como presença afetiva mais forte. Seu legado está por toda parte, mas lembrar a procedência daqueles programas não equivale a explorar o que seu criador significou para eles. Em uma história tão interessada em origem, identidade e paternidade, Stark poderia pesar mais do que pesa nesses primeiros episódios. Não por nostalgia ou pela necessidade de mais uma participação especial, mas porque sua relação com essas criações ajudaria a dar densidade à discussão.
Os filhos colocam a história em movimento
A tentativa de isolamento de Visão termina quando Ultron denuncia seu esconderijo e Paladin, um caçador de recompensas a serviço de um contratante ainda desconhecido, entra em cena. O ataque ao pub atinge Fiona e obriga o protagonista a fugir. Depois, a captura de Thomas Shepherd oferece ao perseguidor uma maneira de atraí-lo: o jovem pode ser Tommy, o filho que Visão acreditava ter desaparecido com a realidade de Westview.
É pelos filhos que essa história volta a avançar. Agatha All Along já havia mostrado Billy sobrevivendo no corpo de William Kaplan e participando da busca por um corpo para a alma do irmão. Agora conhecemos Thomas, que relata uma experiência de quase afogamento após a qual passou a sentir que havia outra pessoa dentro de sua cabeça. Ele carrega lembranças de Wanda, de Visão e de uma vida que não consegue conciliar com a sua. Lisa, sua companheira nos golpes de rua, entrou em sua história quando os dois escaparam de um transporte para Saint Mabyn’s, a instituição à qual Paladin o leva novamente.

Pai e filho enfrentam, portanto, questões próximas, embora não idênticas. Ambos precisam lidar com experiências que reconhecem sem conseguir integrá-las plenamente à própria identidade. A possibilidade de uma relação entre eles poderia transformar essa discussão em algo muito comovente, porque nenhum dos dois chega ao encontro inteiramente seguro de quem é.
Ultron contribui para que Visão deixe de tratar isso apenas como um problema filosófico. Ao retomar o navio de Teseu, desloca a atenção para o próprio herói que enfrentou o Minotauro para salvar os jovens. A provocação é eficaz: há um filho em perigo, e a decisão de ajudá-lo não pode esperar por uma resposta definitiva sobre qual versão de Visão está tomando essa decisão.
O resgate, porém, conduz a uma armadilha. Preso em uma cela eletromagnética e atingido pelas munições de adamantium de Paladin, Visão fica gravemente debilitado. A crise permite que Ultron saia de seu confinamento no sótão, ampliando sua liberdade dentro daquele espaço mental. Com os sistemas entrando em colapso, J.A.R.V.I.S. sacrifica seu código para preservar os demais, enquanto Tommy retorna com um carro e salva o pai.
Há consequências importantes nesse movimento, mas ainda sinto mais o esforço para construir emoção do que a emoção propriamente dita. A perda de J.A.R.V.I.S. deveria carregar todo o peso de sua história, e talvez seja justamente aí que faça falta uma ligação mais desenvolvida com o legado de Stark.
O peso de uma frase que já conhecemos
A repetição da frase sobre o luto também contribui para essa sensação. “O que é o luto, senão o amor que persevera?” foi uma das formulações mais bonitas de WandaVision porque surgiu de um encontro, em um momento no qual Visão tentava compreender a dor de Wanda. Havia delicadeza naquela descoberta, e sua força vinha tanto das palavras quanto da relação que as tornava possíveis.
Entendo por que VisionQuest retorna a ela. A frase liga memória, amor e perda, além de oferecer um vestígio daquele Visão que aprendeu a sentir na relação com Wanda. Mas repeti-la ad nauseam não amplia necessariamente seu significado. Para mim, começa a sugerir uma dificuldade em encontrar novas palavras para continuar a conversa. Uma frase tão poderosa perde peso quando passa a funcionar como lembrete recorrente de uma emoção que outra série já conseguiu produzir.
A música e os cenários acrescentam mais uma camada de excesso. Há momentos em que tudo parece empenhado em destacar a estranheza, a importância ou a carga emocional de uma cena, deixando pouco espaço para que ela encontre sua própria medida. Spader consegue atravessar esse aparato porque traz ritmo, ironia e uma imprevisibilidade que o restante do texto ainda não sustenta. Seu Ultron desperta interesse mesmo quando apenas comenta o que está acontecendo, porque nunca sabemos exatamente quanto de lucidez, manipulação ou prazer em provocar existe naquela intervenção.
Continuarei assistindo, porque a premissa tem possibilidades e a relação com Tommy pode dar à série o centro afetivo que ainda me falta. Até agora, porém, VisionQuest descreve muito bem a dificuldade de lembrar sem sentir, mas acaba compartilhando um pouco demais dessa dificuldade com seu protagonista. Eu compreendo o que está tentando fazer. Ainda espero que consiga me fazer sentir.

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