Depois de uma temporada marcada por atentados, mortes, chantagens, crises conjugais e decisões políticas cada vez mais absurdas, A Diplomata finalmente encontra aquilo que parecia ter esquecido: a diplomacia. E, curiosamente, para defendê-la, Kate Wyler (Keri Russell) precisa abandonar o cargo de embaixadora. É um desfecho poderoso, teatral e, convenhamos, bastante satisfatório. A série de Debora Cahn continua abusando das situações extremas, mas, desta vez, consegue transformar o exagero em uma discussão interessante sobre os limites do poder, a responsabilidade de quem governa e a obrigação de dizer não quando a obediência deixa de ser uma virtude.
A presidente Grace Penn (Allison Janney), traumatizada pelo atentado que quase lhe custou a vida, está cada vez mais autoritária, impulsiva e incapaz de aceitar qualquer discordância. O centro do conflito continua sendo o Poseidon, a arma nuclear russa que os americanos retiraram clandestinamente de um submarino naufragado próximo à costa britânica. Uma operação comandada nas sombras por Grace e Hal Wyler (Rufus Sewell), sem o conhecimento ou a autorização do governo britânico. Agora, com Bethan Vaughn (Jodie Whittaker) no comando do Reino Unido, a situação torna-se ainda mais delicada. A nova primeira-ministra não é Nicol Trowbridge. É inteligente, equilibrada e sabe perfeitamente o que está fazendo, inclusive quando decide permitir a presença russa em águas britânicas. Grace, no entanto, interpreta qualquer resistência como uma afronta pessoal.

A presidente exige que Kate transmita um ultimato: ou os britânicos impedem a aproximação russa, ou os Estados Unidos enviarão seus próprios navios de guerra para resolver a questão. Kate tenta suavizar o recado. Afinal, estamos falando de dois aliados históricos, membros da OTAN, que podem acabar apontando armas uns contra os outros. Mas Grace não quer negociação. Quer obediência. E é justamente aí que a temporada começa a fazer sentido.
Uma das histórias mais interessantes desta quarta temporada foi a de Todd Penn (Bradley Whitford). O marido da presidente, que se sente cada vez mais excluído do universo político da mulher, procura desesperadamente recuperar algum espaço em sua vida. Quer ser ouvido, participar das decisões e conquistar a admiração que percebe entre Grace e Hal. Em vez disso, é enviado a Londres como representante especial, numa missão para a qual não tem preparo. O resultado é desastroso. Ao conversar com a secretária britânica das Relações Exteriores, Robyn Palmer, Todd praticamente sugere que os americanos poderiam usar força contra cidadãos britânicos que se colocassem no caminho de sua operação militar. É o tipo de declaração capaz de transformar uma crise diplomática em um confronto armado entre aliados.
Bradley Whitford interpreta muito bem essa figura deslocada, que tenta preservar alguma dignidade num ambiente em que praticamente todos o consideram irrelevante. E o paralelo com o papel tradicional das primeiras-damas é impossível de ignorar. Todd é um homem que deseja ser reconhecido pela mulher poderosa com quem se casou, mas também não compreende inteiramente as regras do mundo ao qual quer pertencer. Grace, por sua vez, parece incapaz de oferecer ao marido aquilo que oferece a Hal: cumplicidade intelectual, confiança e participação. Há uma inversão de papéis bastante interessante, mas também uma história conhecida sobre o quanto o poder interfere na intimidade de um casamento.
Enquanto Grace continua acumulando decisões perigosas, Kate percebe que sua capacidade de administrar a situação chegou ao limite. O confronto entre as duas, durante um jantar na Itália, é revelador. Kate tem coragem de verbalizar aquilo que todos estão pensando: depois de levar um tiro, Grace mudou. Sua maneira de governar tornou-se mais agressiva, seu julgamento mais instável. Por alguns instantes, a presidente parece reconhecer a possibilidade de que algo esteja errado. Mas admitir uma fragilidade significaria, para ela, abrir mão de uma autoridade que acredita precisar demonstrar continuamente. E Grace escolhe demonstrá-la da pior maneira possível.
A tensão também atinge Stuart Hayford (Ato Essandoh), que recorre ao canal formal de dissidência do Departamento de Estado para registrar suas objeções. A reação presidencial é afastá-lo de Londres, deixando claro que nem mesmo os instrumentos institucionais de contestação serão respeitados. O episódio estabelece, assim, uma questão fundamental: quando um governo transforma discordância em deslealdade, quem ainda terá coragem de contrariá-lo?
O grande momento acontece durante a reunião do G7, na Itália. Diante dos líderes internacionais, Grace Penn decide abandonar qualquer tentativa de negociação. Assume publicamente uma postura de confronto e deixa claro que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar força militar contra quem tentar impedir sua operação. Não importa que os possíveis adversários sejam seus próprios aliados. É uma ameaça extraordinária, que coloca em risco não apenas as relações entre americanos e britânicos, mas a própria lógica de cooperação sobre a qual a OTAN foi construída.

Kate observa tudo e entende que não existe mais espaço para conciliação. Então se levanta. Antes de sair, beija Hal, retira sua credencial, aproxima-se da presidente e apresenta sua renúncia. É uma cena construída para provocar impacto emocional, e consegue. Porque Kate, depois de tantas concessões, finalmente estabelece um limite. Mas a surpresa maior vem em seguida. Billie Appiah (Nana Mensah), chefe de gabinete da Casa Branca, também abandona a reunião. O secretário de Estado Miguel Ganon (Miguel Sandoval) faz o mesmo. Não se trata mais de uma embaixadora insatisfeita. É uma ruptura dentro do próprio núcleo de poder americano.
E então surge Hal. O vice-presidente, que durante toda a temporada parecia comprometido com seus próprios planos e manobras, também decide romper com Grace. É uma reviravolta importante, especialmente porque o relacionamento entre Hal e Kate foi construído sobre uma mistura constante de cumplicidade, rivalidade, admiração e desconfiança. Kate nunca sabe inteiramente o que o marido está planejando. E nós também não. Por isso, sua decisão tem um peso emocional evidente. Hal escolhe o lado da mulher, mas também o lado de uma resistência política à qual ele próprio ajudou a dar origem. Entretanto, seria ingênuo imaginar que esse gesto é exclusivamente altruísta. Pouco antes, Grace havia humilhado Hal diante dos demais líderes ao impedir que ele se manifestasse. E conhecemos suficientemente bem esse personagem para desconfiar que sua vaidade ferida também participa da decisão.
Rufus Sewell consegue fazer de Hal alguém irritante, fascinante e difícil de decifrar. Mesmo quando parece agir corretamente, resta sempre a dúvida sobre suas verdadeiras motivações. A última cena resume perfeitamente essa ambiguidade. Diante da imprensa, Kate anuncia que o vice-presidente tem algo a dizer. Hal se aproxima dos microfones e a tela escurece. Não ouvimos uma única palavra. A série termina exatamente onde deveria começar outra história.
E o que significa tudo isso? O gesto de Kate tem uma importância que vai além da renúncia. Durante quatro temporadas, acompanhamos uma diplomata brilhante, mas frequentemente atropelada pela própria personalidade, pelo marido e pelas circunstâncias. Uma profissional que prefere resolver problemas a fazer discursos, embora nem sempre consiga controlar suas explosões. Agora, finalmente, Kate compreende que existe uma diferença entre servir a um governo e servir a um país. É uma escolha ética, mas também política. Ao abandonar publicamente Grace Penn, ela deixa de tentar modificar o sistema por dentro e passa a confrontá-lo abertamente.
A decisão de Hal torna tudo ainda mais significativo. O casal que passou anos disputando espaço, influência e poder encontra uma causa comum. Não significa que os problemas conjugais tenham desaparecido. Mas, naquele momento, os dois se reconhecem novamente. E existe algo especialmente interessante nessa reconciliação política: Hal sempre foi o homem das grandes manobras, enquanto Kate representava, pelo menos em teoria, a negociação e a construção de consensos. Pela primeira vez, os dois parecem compreender que nenhuma dessas estratégias funciona quando quem ocupa o poder simplesmente se recusa a ouvir.
O encerramento deixa muitas perguntas. O que Hal vai revelar à imprensa? Pretende denunciar Grace, expor a operação Poseidon ou anunciar uma oposição institucional à presidente? E Grace Penn conseguirá permanecer no cargo depois de perder publicamente integrantes tão importantes de seu governo, incluindo o próprio vice-presidente? A situação da OTAN também permanece delicadíssima, especialmente diante da possibilidade de um confronto militar entre aliados. Mas talvez a maior incógnita seja o futuro de Kate. Sem o posto de embaixadora, ela poderá exercer influência de outra maneira? E, principalmente, conseguirá preservar seus princípios quando estiver fora da estrutura institucional que, até agora, definia sua identidade profissional?

Há também Todd Penn, que me parece um dos personagens com maior potencial para uma continuação. Seu casamento com Grace chegou a um ponto em que a admiração foi substituída pelo ressentimento, pela exclusão e pelo ciúme. Todd quer participar da vida da mulher, mas ela encontra em Hal a parceria intelectual que já não parece existir dentro de casa. É uma dinâmica que lembra House of Cards, embora com os papéis invertidos, e que Debora Cahn ainda pode explorar com muito mais profundidade. O primeiro-cavalheiro terá de decidir se continuará aceitando a posição decorativa que tanto despreza ou se finalmente confrontará a mulher que ama.
Uma eventual quinta temporada teria, portanto, material suficiente para mudar completamente a dinâmica da série. Kate já não precisaria administrar apenas as crises diplomáticas em Londres. Poderia se tornar uma figura central na oposição a Grace, enquanto Hal enfrentaria as consequências de desafiar publicamente a presidente que o colocou na vice-presidência. E Grace, naturalmente, não pode ser reduzida a uma vilã enlouquecida. Seu comportamento depois do atentado levanta questões sobre trauma, medo, paranoia e a dificuldade de distinguir convicção de onipotência. Allison Janney tem material suficiente para construir uma personagem ainda mais complexa, desde que os roteiros não optem simplesmente por transformá-la em caricatura.
No fundo, entretanto, a principal expectativa continua sendo Kate Wyler. Keri Russell encontrou nessa personagem uma combinação maravilhosa de inteligência, humor, vulnerabilidade e impaciência. Kate é brilhante justamente porque não consegue ser impecável. Comete erros, fala demais, explode quando deveria ouvir e, às vezes, transforma uma conversa delicada em um campo de batalha. Mas, quando finalmente precisa escolher entre sua carreira e aquilo em que acredita, não hesita.
E é por isso que, apesar de todos os exageros, considero esse um dos finais mais eficientes de A Diplomata. A temporada começou eliminando Austin Dennison, um dos personagens que melhor representavam a possibilidade de negociação, e terminou colocando sua protagonista diante de uma escolha que ele provavelmente compreenderia. Depois de tantas explosões, conspirações e ameaças, Kate finalmente faz aquilo que o título da série sempre prometeu: defende a diplomacia. Ainda que, para isso, precise deixar de ser diplomata.
E, conhecendo Hal Wyler, desconfio que aquele microfone ainda vai provocar muito mais problemas do que soluções.
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