Há uma espécie de solidão conjugal que não depende da ausência de amor. Ela aparece quando você conhece profundamente a pessoa com quem se casou, acompanha seus medos, absorve suas frustrações, mas percebe que é com outra pessoa que seus olhos brilham. Em A Diplomata, Todd Penn encontra esse outro homem na figura de Hal Wyler. E o que torna a situação interessante é que a intimidade que o ameaça se constrói em reuniões, decisões e disputas políticas.
Bradley Whitford transforma esse desconforto em uma das melhores contribuições recentes à série. Seu Todd quer participar, ser útil, conquistar a admiração de Grace, a mulher que agora ocupa a presidência dos Estados Unidos. Ele tem uma história com ela, conhece sua intimidade, mas assiste a Hal conquistar um espaço que o casamento não lhe garante. A crise é existencial e, muito literalmente, uma crise de papel: o que fazer quando sua principal função passa a ser acompanhar alguém?

Criada por Debora Cahn, A Diplomata coloca um homem em uma posição que as mulheres conhecem há muito tempo. A pessoa que acompanha, apoia, aceita os horários determinados pela carreira do cônjuge e precisa encontrar uma ocupação compatível com a importância de estar ao lado dele. Um lugar cercado de privilégios que pode produzir uma profunda sensação de inutilidade. Todd tem acesso ao centro do poder e pouquíssimo controle sobre o que acontece ali.
É preciso distinguir essa experiência da ideia de que primeiras-damas não têm utilidade ou influência. Muitas construíram atuações próprias. A questão está na expectativa de que sua existência pública seja organizada em função da trajetória do marido. Todd experimenta essa perda de autonomia e não a administra particularmente bem. Consegue reconhecer o absurdo da situação, inclusive com humor, mas continua querendo que alguém lhe ofereça uma função à altura da proximidade que tem com a presidente.
Quando entra em cena, na terceira temporada, ele já carrega o custo dessa posição: aceitou uma história de mau uso de uma verba de pesquisa para proteger Grace. Mais adiante, enquanto outros discutem como enfrentar uma crise, nada repetidamente na piscina. Há também afeto: os dois conseguem terminar um dia difícil de mãos dadas na cama. O casamento tem intimidade e sacrifícios reais.
Por isso, reduzir Todd ao marido ciumento empobrece o personagem. Na minha leitura, ele quer preservar algo que existia entre os dois, mas também conquistar uma forma de reconhecimento que talvez nunca tenha recebido exatamente como deseja. Ser o homem em quem Grace confia não equivale a ser aquele cuja inteligência ela procura para construir uma solução.

Hal oferece a ela essa parceria. Os dois compartilham uma energia profissional que deixa Todd desconfortável. A própria Cahn descreveu o sofrimento de vê-lo observar a mulher se entusiasmar com a possibilidade de mudar o mundo ao lado de outra pessoa. A relação entre Grace e Hal é política, mas o efeito sobre Todd é conjugal.
E a política ali é uma cachaça. Quem já presenciou uma discussão em que ninguém consegue abandonar o assunto reconhece essa excitação: a hipótese, o argumento, a vitória imaginada, o prazer de perceber antes dos outros como as peças podem se encaixar. Para certos personagens de A Diplomata, resolver uma crise é uma experiência de cumplicidade e sedução.
Kate e Hal vivem disso desde o início. Discutem, competem, interferem e se reencontram no exercício da própria habilidade. A política participa da intimidade e, muitas vezes, parece alimentar também o desejo sexual. Já discuti o casamento tóxico dos Wyler, mas esse aspecto ajuda a compreender Todd: ele observa uma química da qual quer fazer parte. Vê Hal compartilhar essa linguagem com Kate e depois com Grace. Ele também quer provocar aquele entusiasmo na própria mulher.
Sua aproximação com Kate nasce atravessada por essa exclusão. Entretanto, ela tem uma carreira própria, conhecimento do trabalho e meios de interferir. Todd tenta encontrar uma posição que ainda não sabe exercer. Seu desejo de participação pode ser compreensível; isso não torna suas intervenções adequadas.
É aí que Grace também precisa entrar na análise. Ela conhece a necessidade do marido e passa a tirar proveito dessa circulação informal. Minha leitura é que Todd funciona, em alguns momentos, como uma extensão doméstica de seus interesses: observa, pergunta, leva impressões, aproxima-se de pessoas. O que parece conversa de cônjuges pode servir à vigilância política. E o que chega como informação pode ter começado como fofoca.

A especulação sobre uma possível gravidez de Kate expõe bem essa mistura. Uma interpretação de Todd sobre o corpo da embaixadora chega à presidente e entra na conversa com Hal. Kate precisa negar a hipótese e explicar seus sintomas. A curiosidade pessoal atravessa o ambiente de trabalho, carregada pela posição de quem pergunta.
A confiança conjugal ganha, assim, uma dimensão incômoda. Grace pode confiar em Todd e ainda selecionar o que ele deve saber. Pode desejar sua proteção e rejeitar sua interferência. Ele pode acreditar que está cuidando da esposa enquanto participa de decisões cujas implicações não compreende. Há sentimento nessa dinâmica, mas também controle, dependência e conveniência.
Depois do atentado, o conhecimento íntimo que Todd tem de Grace poderia torná-lo uma voz especialmente importante. Ele percebe mudanças e demonstra preocupação. Ela reage à possibilidade de ser questionada. Quando o envia como representante especial, a nomeação também serve para afastar o marido que insiste em discutir seu estado. A função que ele desejava chega subordinada à necessidade dela de se livrar de um incômodo.
O resultado é uma das situações mais reveladoras da temporada: Todd assume uma conversa diplomática para a qual não está preparado e acaba sugerindo a possibilidade de violência americana contra britânicos. Kate precisa interromper o encontro. Grace entregou uma responsabilidade real ao marido; a vontade dele de provar seu valor ajudou a tornar a situação ainda mais perigosa.
É uma falta de profissionalismo que envolve os dois. Ela usa uma nomeação para administrar uma questão conjugal; ele recebe a oportunidade sem reconhecer os próprios limites. O casamento passa a determinar quem fala em nome do país. E a maturidade que se poderia esperar de uma relação longa não impede a infantilidade de querer atenção, afastar quem incomoda ou confundir obediência com competência.

Entre Kate e Hal, a diferença de idade pode entrar como mais um elemento da assimetria de experiência, embora não absolva os erros dela. Grace e Todd retiram até esse possível atalho da interpretação. São pessoas maduras, com uma longa história, demonstrando como a necessidade de aprovação sobrevive à idade — e como o poder oferece recursos extraordinários para lidar muito mal com ela.
Whitford está maravilhoso porque preserva tudo isso junto. Todd pode ser engraçado, carente, observador, inconveniente e afetuoso. Seu carisma permite compreender a dor do personagem sem transformar cada intromissão em um gesto justificável. A escalação foi uma grande virada para a série: o casamento dos Penn ganhou densidade suficiente para disputar nosso interesse com os Wyler.
É impossível escapar inteiramente de House of Cards, que também fez da intimidade conjugal um espaço de negociação do poder. Mas Todd acrescenta uma dificuldade própria: ele deseja entrar num jogo cuja linguagem ainda não domina. Frank e Claire ajudam a pensar o casamento político; Grace e Todd permitem observar a desigualdade entre quem exerce o poder e quem tenta encontrar significado ao lado dele.
Veep também colocou uma mulher na presidência e explorou o convívio entre vaidade, incompetência e autoridade pela comédia. Já The West Wing oferece uma ligação de bastidores particularmente curiosa: Cahn, Janney e Whitford trabalharam na série. A familiaridade entre os atores contribui para a impressão de uma vida compartilhada, anterior àquilo que vemos na tela.
Confesso que espero que A Diplomata preserve Grace na presidência. Allison Janney deu à série uma força que vai além de criar mais um obstáculo para Kate. Uma embaixadora caótica tendo de responder a uma presidente igualmente caótica é uma conveniência dramática bastante produtiva. A presença de Todd acrescenta o custo íntimo dessa autoridade.

O final deixa o futuro em aberto. Hal aparece entre os que deixam a reunião após a ruptura de Kate com o governo, mas seu pronunciamento não é ouvido. Uma eventual chegada dele à presidência permanece hipótese, e mudaria profundamente a posição de Kate, sobretudo depois de sua renúncia. Até 16 de outubro, a quinta temporada ainda não havia sido oficialmente anunciada.
A série já trabalha perto do limite dos exageros, e a necessidade de elevar continuamente as apostas merece uma discussão própria — outra em que House of Cards inevitavelmente apareceria. Mas Grace e Todd mostram que ainda existe muito a explorar numa escala menor que a de uma nova crise internacional.
Ele quer participar daquilo que a faz vibrar. Ela encontra maneiras de aproveitar essa vontade sem necessariamente oferecer o reconhecimento que ele procura. E quanto mais Todd tenta provar que merece estar dentro da sala, mais difícil fica saber quando Grace está abrindo espaço para o marido e quando está apenas encontrando uma nova utilidade para ele.
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