Slow Horses: entenda a trama confusa da 6ª temporada

Slow Horses sempre foi uma série sobre espionagem, traições, incompetência institucional e decisões desastrosas tomadas por pessoas que acreditam estar acima das consequências. Mas a sexta temporada, disponível na Apple TV, talvez seja a mais confusa de todas. Não porque faltem informações, mas porque elas chegam de maneira tão fragmentada que é difícil estabelecer quem está trabalhando para quem, quem ordenou o quê e, principalmente, por que tantos agentes estão morrendo.

A adaptação combina acontecimentos de dois livros de Mick Herron, Joe Country e Slough House, desenvolvendo duas conspirações aparentemente paralelas, mas que acabam se encontrando. Como quase sempre acontece nesse universo, a ligação está em alguma decisão questionável de Diana Taverner (Kristin Scott Thomas). E o que poderia ser apenas mais uma operação clandestina que deu errado acaba revelando algo muito mais inquietante: até onde uma instituição de segurança nacional pode ser comprometida pelos interesses pessoais e financeiros de quem deveria protegê-la?

É preciso reconhecer que Slow Horses nunca fez questão de facilitar a vida do espectador. A diferença é que, desta vez, a violência está cada vez mais explícita, os personagens morrem antes que possamos compreender todas as circunstâncias e a explicação política chega quase como um detalhe. A operação em Kazan, na Rússia, funciona como uma espécie de MacGuffin, o acontecimento que coloca toda a história em movimento, embora saibamos surpreendentemente pouco sobre sua execução.

Kazan: a missão secreta que iniciou a tragédia

Tudo começa com uma operação clandestina autorizada por Diana Taverner em território russo. Depois de um ataque com Novichok em solo britânico, que provocou a morte de um inocente, Diana decidiu retaliar, ordenando a eliminação de uma agente ligada à inteligência russa. O problema é que não havia autorização oficial nem financiamento institucional para a missão. Para executá-la, Diana recorreu ao dinheiro de um investidor privado, criando uma relação de dependência que acabaria colocando sua própria carreira em risco.

Não sabemos exatamente quem realizou o assassinato, como a operação foi conduzida nem todas as suas consequências. A agente responsável utilizou a identidade de Sid Baker (Olivia Cooke), que havia sido considerada morta depois dos acontecimentos da primeira temporada. Era uma maneira de proteger a verdadeira executora, mas também um erro que abriria caminho para uma sucessão de mortes.

Os russos identificaram Sid como a responsável pelo atentado e exigiram vingança. Quando descobriram que seus registros haviam sido apagados, o rastro levou à Slough House, onde ela havia trabalhado. Os antigos colegas passaram a ser identificados como integrantes de uma possível unidade clandestina britânica responsável por assassinatos. A lista dos agentes se transformou, assim, numa lista de alvos.

É aqui que a temporada exige um esforço adicional do espectador. A exclusão dos registros eletrônicos e o desaparecimento dos arquivos físicos são acontecimentos distintos, mas conectados. A primeira decisão pretendia esconder a identidade de Sid e, por extensão, a operação de Diana. A segunda colocou nas mãos erradas informações sobre todos os agentes que passaram pela Slough House.

Por que os russos consideram justificável executar um grupo inteiro por uma operação da qual seus integrantes não participaram? A lógica da retaliação é apresentada, mas sua escalada permanece pouco desenvolvida. Na prática, os pangarés estão pagando por uma missão que desconheciam, autorizada por uma superior que não demonstra qualquer disposição de assumir publicamente a responsabilidade.

Peter Judd, Damien Cantor e o preço do dinheiro privado

A segunda conspiração começa com Peter Judd (Samuel West), político influente e antigo integrante do governo britânico. Judd participa da articulação de recursos privados para financiar operações do serviço secreto, funcionando como intermediário entre Diana e empresários que enxergam oportunidades nesse relacionamento.

É por meio dele que surge Damien Cantor (Harry Lloyd), magnata da comunicação e proprietário do canal de notícias Channel Go. Cantor é o verdadeiro financiador por trás do dinheiro utilizado na operação em Kazan. Diana insiste em tratar o acordo como um investimento necessário, não como a venda de sua independência. Mas a distinção é bastante conveniente para alguém que agora precisa atender às exigências de quem pagou a conta.

A entrevista desastrosa concedida por Diana ao canal de Cantor é um primeiro exemplo dessa dependência. Não se trata apenas de uma executiva poderosa submetida a perguntas constrangedoras. É uma demonstração de influência. Cantor consegue colocar a chefe do MI5 numa situação que ela jamais teria aceitado se estivesse realmente no controle.

E o empresário tem interesses que ultrapassam a política britânica. Por intermédio de Natasha Carrington, ele negocia um gigantesco acordo de distribuição de mídia na Rússia. A promessa de acesso a esse mercado coloca os interesses comerciais de Cantor perigosamente próximos daqueles que desejam retaliar a operação autorizada por Diana.

O que exatamente foi prometido em troca do negócio? Quanto Cantor sabia sobre a utilização dos arquivos roubados? E em que momento Diana percebeu que o financiamento da missão lhe havia custado muito mais do que sua autonomia? São perguntas que a temporada apresenta sem necessariamente oferecer respostas completas.

O resultado é uma situação absurda: uma operação supostamente realizada em defesa dos interesses britânicos acaba sendo financiada por um empresário que pretende lucrar com suas relações com a Rússia. O dinheiro destinado a proteger o país ajuda a construir uma rede de chantagens que compromete a própria segurança dos agentes.

Andrew Nesmith, Reece e o retorno de Frank Harkness

É nesse ponto que entra a segunda linha de assassinatos. Andrew Nesmith, antigo integrante dos Dogs, a unidade de segurança interna do MI5, rouba os arquivos físicos que identificam os agentes da Slough House. Os documentos, encomendados por Cantor por intermédio de Frank Harkness (Hugo Weaving), acabam alimentando a perseguição aos pangarés.

Nesmith, entretanto, torna-se um problema para quem o contratou. Depois de roubar os documentos, exige mais dinheiro, e Harkness é encarregado de eliminá-lo. O assassinato deveria encerrar a participação do agente no esquema, mas seu filho Reece presencia o crime e consegue escapar.

A partir daí, Harkness passa a perseguir o menino, que carrega informações capazes de estabelecer uma ligação entre a morte do pai, o roubo dos arquivos e Cantor. Reece deixa de ser apenas uma testemunha inconveniente. Torna-se alguém que pode comprometer toda a operação.

É importante compreender que Harkness não é o responsável direto pela campanha de assassinatos contra a Slough House. Ele trabalha para Cantor, eliminando as pontas soltas do roubo dos documentos. Já Jim (Kyle Soller) e Jane (MyAnna Buring) são os assassinos ligados à retaliação russa. As duas operações se cruzam porque o vazamento dos arquivos oferece aos russos a identificação dos agentes que passaram pela unidade de Lamb.

Essa distinção é fundamental e, ao mesmo tempo, uma das razões pelas quais a temporada parece tão complicada. Há diferentes grupos de assassinos, diferentes contratantes e diferentes interesses, mas todos acabam conduzindo ao mesmo conjunto de vítimas.

O retorno de Harkness acrescenta ainda outra dimensão à história. Pai biológico de River Cartwright (Jack Lowden), ele representa uma ameaça pessoal que ultrapassa o trabalho de mercenário. Sua relação com Lamb também carrega acontecimentos do passado, incluindo referências a Berlim e à verdadeira história do veterano do MI5. Nesse universo, nenhuma operação parece inteiramente encerrada. O passado sempre encontra uma maneira de voltar, geralmente armado.

Os russos, Sid e o sacrifício dos inocentes

A violência contra os agentes da Slough House começa com mortes que parecem desconectadas, incluindo antigos integrantes da unidade, até se tornar uma perseguição sistemática. Moira Tregorian sobrevive a uma tentativa de assassinato, mas J.K. Coe (Tom Brooke) não tem a mesma sorte. Sua morte pelas mãos de Jim é uma das mais brutais da temporada e reforça a sensação de que ninguém está realmente protegido.

Sid, por sua vez, descobre que está sendo procurada por um crime que não cometeu. Seu retorno deveria representar uma oportunidade de esclarecer os acontecimentos da primeira temporada, mas acaba expondo a facilidade com que uma agente pode ser apagada, reutilizada e finalmente descartada pela própria instituição.

Diana sabe que Sid não realizou a operação em Kazan. Sabe também que a verdadeira responsável foi protegida por uma decisão sua. Quando os russos exigem a entrega da assassina, a chefe do MI5 prefere oferecer Sid como substituta, prometendo que conseguirá recuperá-la depois. A promessa é particularmente difícil de acreditar quando fica claro que o avião seguirá para a Bulgária, onde a segurança da agente estará inteiramente comprometida.

A conversa de Diana com Sid no quinto episódio é reveladora. Ela praticamente admite que não pode abrir mão da verdadeira executora, mas considera aceitável sacrificar Sid. Há desconforto em sua decisão, talvez até algum sentimento de culpa, mas nada disso é suficiente para fazê-la recuar.

River, ao contrário, não aceita a entrega. Depois de ajudar Sid a sobreviver ao confronto com Jim e Jane, enfrenta os próprios agentes do MI5 para impedir que ela seja levada aos russos. A aproximação romântica dos dois, construída desde a primeira temporada e finalmente concretizada, ganha força justamente porque River se recusa a obedecer a uma ordem que considera moralmente indefensável.

A ironia é que os agentes britânicos, que deveriam protegê-los, tornam-se tão ameaçadores quanto aqueles que tentaram matá-los. River precisa escolher entre cumprir sua obrigação institucional e proteger alguém que ama. Escolhe Sid, ainda que precise colocar a própria liberdade em risco.

Jackson Lamb e Diana Taverner: duas maneiras de compreender a lealdade

É aqui que a temporada encontra seu conflito mais interessante. Jackson Lamb (Gary Oldman) e Diana Taverner conhecem profundamente o funcionamento do serviço secreto. Ambos sabem mentir, manipular, negociar e utilizar métodos pouco ortodoxos. Mas existe uma diferença fundamental entre eles.

Diana acredita, ou ao menos afirma acreditar, que está protegendo a instituição. Lamb sabe que essa justificativa frequentemente serve para proteger os interesses de quem ocupa os cargos mais altos.

Ele próprio foi vítima dessa lógica. Seu passado em Berlim, marcado pela traição, pela tortura e pela morte da mulher que amava, grávida, revela a violência que sustenta sua personalidade aparentemente insensível. Depois, ainda precisou executar um amigo traidor sob as ordens de David Cartwright (Jonathan Pryce). Lamb não foi apenas sacrificado pela máquina de inteligência. Também foi obrigado a funcionar como um de seus instrumentos.

Essa experiência ajuda a compreender seu cinismo e sua relação contraditória com os pangarés. Ele os humilha, insulta, despreza suas capacidades e parece considerar a Slough House um depósito de incompetentes. Mas existe um limite que não se admite ultrapassar: seus agentes são sua responsabilidade.

Isso não faz dele um homem moralmente irrepreensível. Lamb continua capaz de manipular pessoas, recorrer à violência e tomar decisões cruéis. Sua proteção tampouco precisa ser interpretada como uma redenção. Talvez seja justamente o contrário: uma tentativa de impedir que seus subordinados sejam obrigados a pagar o preço que ele próprio pagou.

Diana, entretanto, representa a lógica oposta. A segurança da instituição e a preservação de sua posição parecem justificar qualquer sacrifício, especialmente quando a vítima não pertence ao círculo dos que exercem o poder. Sid pode ser entregue. Os pangarés podem morrer. O importante é impedir que o escândalo alcance quem autorizou a operação.

A oposição também aparece visualmente. Lamb trabalha num edifício decadente, cercado por móveis velhos, sujeira e agentes relegados ao esquecimento. David Cartwright, antigo homem forte da inteligência britânica, terminou seus dias numa casa relativamente modesta, entre lembranças de um prestígio que desapareceu. Diana, ao contrário, vive cercada de conforto, elegância e privilégios.

Não há indicação de que esse luxo seja resultado de enriquecimento ilícito, mas o contraste é significativo. Diana desfruta das recompensas de um sistema que Lamb despreza e que Cartwright já não consegue controlar. Sua casa de campo, agora transformada em esconderijo dos pangarés, é a representação mais evidente dessa distância material.

E existe uma ironia quase perfeita na possibilidade de aquele refúgio privilegiado se transformar no cenário de uma nova tragédia. A violência que Diana administra de seus gabinetes pode finalmente alcançar sua própria propriedade.

Judgment Day: por que Lamb e Diana precisam unir forças?

O episódio final, intitulado Judgment Day, estreia em 21 de outubro, e sua sinopse oficial anuncia que o esconderijo deixará de ser seguro enquanto Lamb e Diana finalmente unem forças. Uma informação curta, mas particularmente intrigante depois de tudo o que acompanhamos.

Por que Lamb aceitaria colaborar com uma mulher que está disposta a entregar Sid aos russos? E por que Diana precisaria da ajuda de um agente que passou a temporada investigando justamente as decisões que ameaçam destruí-la?

A resposta mais provável está na necessidade, não na confiança.

Lamb precisa impedir que seus agentes continuem sendo assassinados. Diana precisa neutralizar uma crise que já ultrapassou sua capacidade de controle. O dinheiro de Cantor, os interesses russos, o roubo dos arquivos e a operação em Kazan formaram uma rede que nenhum deles consegue desfazer completamente sozinho.

Diana ainda dispõe da autoridade institucional necessária para negociar, encerrar operações e garantir proteção oficial. Lamb conhece as pessoas, as mentiras e os métodos utilizados por aqueles que tentam encobrir os crimes. Ele consegue chegar a lugares onde a autoridade formal de Diana já não funciona.

Nos livros de Herron, essa dinâmica entre os dois é construída a partir de negociações, ameaças e interesses convergentes. Mas a série alterou acontecimentos importantes e não podemos presumir que o desfecho será idêntico.

Há também o risco de mais uma morte. Depois de David Cartwright e Coe, os leitores dos romances conhecem outros destinos trágicos que podem ou não ser preservados na adaptação, incluindo o de Emma Flyte (Ruth Bradley), a agente rebaixada por Diana. E o livro Slough House contém um desfecho particularmente angustiante envolvendo River e Sid, que já discutimos anteriormente. Isso não confirma que a série escolherá o mesmo caminho, mas torna a expectativa pelo final ainda mais cruel.

O que sabemos é que Jane permanece uma ameaça, Harkness continua envolvido na tentativa de encobrir o crime de Nesmith e a relação entre Cantor e seus contatos russos ainda precisa ser resolvida. Há muitas pontas soltas para um único episódio, mesmo com sua duração ampliada.

Talvez Judgment Day consiga organizar as duas conspirações e explicar o que pareceu excessivamente complicado durante cinco semanas. Talvez prefira privilegiar a ação e deixar algumas perguntas sem resposta. De qualquer maneira, o encontro de Lamb e Diana será mais interessante se a série não esquecer a diferença entre eles.

Afinal, Diana é uma mulher poderosa que colocou vidas em risco para proteger a própria posição. Lamb é um homem destruído pela instituição que ainda encontra motivos para proteger aqueles que ela considera descartáveis.

E há uma pergunta que resume melhor do que qualquer outra o que está em jogo: quem realmente está defendendo o serviço secreto britânico? A mulher que ocupa seu cargo mais importante ou o homem que foi condenado a administrar seus fracassos?

A sexta temporada pode ter complicado demais uma história que precisava de maior clareza. Mas, ao aproximar Lamb e Diana, encontra uma oportunidade de recuperar aquilo que sempre fez de Slow Horses muito mais do que uma boa série de espionagem: a ideia de que lealdade não é obedecer cegamente a uma instituição, mas reconhecer a responsabilidade que temos pelas pessoas que colocamos em perigo.


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