Slow Horses: River e Sid, o casal improvável que desafia o MI5

Slow Horses nunca foi uma série sobre romances, embora seus personagens estejam sempre tentando sobreviver a perdas, traições e relacionamentos que raramente terminam bem. No universo de Mick Herron, encontrar alguém em quem confiar já é suficientemente difícil, quanto mais se apaixonar. Mas, desde a primeira temporada, existe uma ligação especial entre River Cartwright (Jack Lowden) e Sid Baker (Olivia Cooke), dois agentes que demonstraram interesse mútuo antes mesmo de terem oportunidade de descobrir o que poderia acontecer entre eles. O problema é que, direta ou indiretamente, Diana Taverner (Kristin Scott Thomas) parece determinada a impedir qualquer possibilidade de felicidade. E, em Slow Horses, quando Diana se envolve na vida de alguém, as chances de uma tragédia aumentam consideravelmente.

River e Sid são um casal improvável, mas não por falta de química. Desde o início, os dois se provocavam, competiam e disfarçavam a atração por trás da convivência profissional. Sid era a mais competente e observadora, enquanto River já demonstrava aquela combinação irresistível e irritante de inteligência, coragem, arrogância e impulsividade. Ele sempre quis ser um grande agente secreto, especialmente porque cresceu ouvindo as histórias do avô, David Cartwright (Jonathan Pryce), um dos homens mais importantes da história do MI5. Sid, por sua vez, parecia compreender muito melhor as regras do jogo e, principalmente, as consequências de ignorá-las.

A primeira grande ironia é que Sid nem deveria estar em Slough House. Ela havia sido colocada ali por Diana para vigiar River e sua ligação com o avô, mas a missão terminou desastrosamente quando foi baleada na cabeça. River acreditou que ela havia morrido, embora o desaparecimento dos registros oficiais sugerisse que havia algo muito mais complicado acontecendo. Na verdade, Sid sobreviveu, teve sua identidade apagada pelo Serviço e passou anos vivendo escondida, sob a proteção de uma mulher que, como descobriríamos, não hesitaria em sacrificá-la quando fosse conveniente.

Para River, entretanto, Sid estava morta. E talvez nunca tenhamos dimensionado completamente o quanto isso o afetou, até porque Slow Horses não costuma interromper sua trama de espionagem para explorar longamente os sentimentos de seus personagens. O luto existe, mas quase sempre é tratado com silêncio, sarcasmo ou alguma decisão particularmente desastrosa. River continuou tentando recuperar sua carreira, conquistar o respeito de Jackson Lamb (Gary Oldman) e provar que merecia estar em Regent’s Park, sem perceber que sua maior dificuldade talvez não fosse profissional, mas emocional.

Nesse intervalo, ele se aproximou de Louisa Guy (Rosalind Eleazar), que também conhecia muito bem a dor de perder alguém. Louisa havia se envolvido com Min Harper (Dustin Demri-Burns), morto na segunda temporada, e nunca conseguiu superar completamente a perda. Entre ela e River nasceu uma amizade baseada na confiança, na cumplicidade e na experiência de trabalhar em uma equipe que, apesar de todas as suas disfunções, acabou se transformando em uma espécie de família. Houve momentos em que parecia existir alguma possibilidade romântica, mas a série foi inteligente ao não forçar essa direção.

Na quinta temporada, quando Louisa decide abandonar Slough House para tentar reconstruir sua vida, River interpreta equivocadamente a conversa de despedida como uma abertura para um romance e a beija. O constrangimento é imediato. Louisa não estava declarando seu amor, estava tentando explicar que precisava se afastar, inclusive porque River continuava incapaz de reconhecer e elaborar suas próprias perdas. É uma cena que resume perfeitamente o personagem: River consegue enfrentar assassinos profissionais, mas tem enormes dificuldades para compreender o que uma mulher está tentando lhe dizer.

Com Sid, entretanto, a história sempre foi diferente. Talvez porque ela o conhecesse antes de tantas tragédias, talvez porque nunca tenha demonstrado qualquer disposição para alimentar seu ego. Sid sempre enxergou River com uma clareza que ele próprio ainda não conseguiu desenvolver. E, quando reaparece na sexta temporada, depois de anos escondida, é justamente a ele que recorre para pedir ajuda.

Não deixa de ser comovente pensar que, depois de tudo que sofreu, Sid escolhe confiar no homem que provavelmente menos respeita as regras do MI5. Ela sabe que River é impulsivo, que frequentemente toma decisões equivocadas e que sua necessidade de provar alguma coisa pode colocar todos em perigo. Mas também sabe que ele não a entregaria aos inimigos para proteger a própria carreira. Algo que não podemos dizer de Diana Taverner.

Diana Taverner e a decisão de sacrificar Sid

A sexta temporada explica a dimensão da traição. Diana autorizou uma operação clandestina em Kazan, na Rússia, para assassinar uma agente ligada a um ataque com substância neurotóxica em território britânico. Como a missão não poderia ser oficialmente reconhecida, o Serviço utilizou a identidade de Sid, uma mulher que, para todos os efeitos, já estava morta, para encobrir a verdadeira responsável pelo assassinato.

Quando os russos exigem a entrega da executora, Diana decide oferecer Sid. Ela sabe perfeitamente que sua antiga protegida não cometeu o crime e que entregá-la ao GRU significa, muito provavelmente, condená-la à morte. Mas admitir sua responsabilidade na operação colocaria em risco sua posição no MI5 e revelaria uma cadeia de decisões que envolve interesses políticos e financeiros muito maiores, incluindo Peter Judd e Damien Cantor.

É difícil encontrar demonstração mais clara da lógica de Diana Taverner. Ela não está simplesmente escolhendo entre proteger uma agente e sacrificar outra. Está preservando a própria autoridade, mesmo que isso signifique destruir alguém a quem prometeu segurança. Sid teve a identidade apagada para continuar viva e agora corre o risco de morrer justamente porque, administrativamente, deixou de existir. Para Diana, é uma solução quase perfeita. Para qualquer pessoa minimamente preocupada com lealdade, é uma monstruosidade. River, naturalmente, não aceita.

O quinto episódio da sexta temporada, Sayonara, finalmente oferece o reencontro emocional que aguardávamos desde o início da série. Depois de sobreviverem a uma perseguição brutal, que termina com a morte do assassino Jim, River e Sid são novamente separados pela determinação de Diana de concluir sua negociação com os russos. Os dois flertam em uma situação absolutamente absurda, recorrendo até a referências a James Bond, antes de Sid confessar que não quer morrer. E River faz aquilo que River sempre faz: quebra as regras, ignora as ordens e age antes de calcular as consequências.

Ele impede a entrega, toma um caminhão e foge com Sid, desafiando Diana, o MI5 e os russos. Não há um plano brilhante, nenhuma estratégia elaborada ou garantia de sucesso. River simplesmente se recusa a permitir que a mulher que acreditou ter perdido uma vez seja novamente sacrificada por pessoas que deveriam protegê-la.

E há algo de libertador nessa decisão. River passou a vida tentando provar que merece ser um agente importante, mas, naquele momento, parece entender que a aprovação de Diana não vale absolutamente nada. O pior castigo profissional que imagina já aconteceu: ele está em Slough House. E, embora desobedecer à chefe do Serviço possa produzir consequências muito mais graves, salvar Sid importa mais do que qualquer possibilidade de reabilitação.

Quando percebe que não conseguirão escapar juntos, manda Sid fugir enquanto permanece para distrair os perseguidores. Antes de se separarem, finalmente se beijam. Um beijo que, curiosamente, nem estava previsto no roteiro e foi sugerido pelos próprios Olivia Cooke e Jack Lowden durante as filmagens. Uma decisão acertadíssima, porque seria quase cruel fazer o público esperar seis temporadas para que os dois reconhecessem seus sentimentos e, mesmo assim, negar esse momento.

River termina cercado pelos agentes do MI5, mas Sid consegue escapar. E, desta vez, ele não parece arrependido. Para alguém que sempre quis ser reconhecido como um herói, talvez tenha sido sua atitude mais genuinamente heroica.

O que acontece com River e Sid nos livros?

Aqui entramos no território dos grandes spoilers, inclusive do final da sexta temporada, caso a adaptação siga os acontecimentos de Slough House, o sétimo romance de Mick Herron.

Depois de sobreviverem aos assassinos russos, River e Sid parecem finalmente ter alguma chance de ficar juntos. Entretanto, no final do romance, uma substância neurotóxica é colocada na maçaneta da casa de David Cartwright, e River acaba contaminado. Sid o encontra caído, agonizando, e tenta mantê-lo vivo enquanto chama ajuda. O livro termina sem revelar se ele sobrevive, deixando os leitores diante da possibilidade de perder um dos personagens mais importantes da saga.

Sabemos que a série já modificou parte dos acontecimentos envolvendo os assassinos Jim e Jane, portanto não existe garantia de que o último episódio reproduzirá exatamente essa sequência. Mas seria um encerramento particularmente cruel, sobretudo depois de acompanhar River arriscando tudo para salvar Sid. Ele consegue impedir que Diana a entregue aos russos, apenas para se tornar a próxima vítima de uma conspiração que continua produzindo mortes.

A boa notícia é que River sobrevive. Os romances posteriores revelam que o envenenamento não foi fatal, embora tenha provocado consequências graves e uma recuperação prolongada. Em Bad Actors, o oitavo livro, sua participação na ação é bastante reduzida. Em Clown Town, no romance, ele continua enfrentando as consequências físicas e profissionais do ataque, tentando provar que está recuperado e merece voltar ao Serviço.

River continua ligado ao universo de Slough House, mas não está simplesmente de volta à rotina de antes. Sua condição médica e sua situação profissional tornam-se parte da história, enquanto ele permanece incapaz de abandonar o desejo de trabalhar novamente como agente. Mesmo afastado, acaba investigando o desaparecimento de um livro da biblioteca do avô, uma descoberta aparentemente insignificante que se conecta a acontecimentos muito maiores.

E Sid? Ela não apenas sobrevive como finalmente se torna companheira de River. Em Clown Town, os dois vivem juntos, embora ela tenha decidido deixar o Serviço e construir uma vida longe do MI5. É uma escolha bastante compreensível para alguém que foi baleada, teve a identidade apagada, passou anos escondida e quase foi entregue aos russos para responder por um assassinato que não cometeu.

O contraste entre os dois é fascinante. Sid conhece os horrores do MI5 e deseja distância. River também conhece esses horrores, mas continua querendo pertencer à instituição. Ela compreendeu que sobreviver pode ser mais importante do que ser reconhecida como uma boa agente. Ele ainda acredita que precisa provar seu valor profissional para justificar a própria existência.

Diana, evidentemente, continua interferindo. Em Clown Town, utiliza justamente a situação profissional de River para pressionar Sid a participar de uma nova operação envolvendo antigos agentes e segredos comprometedores do Serviço. A missão acaba colocando Sid novamente em perigo, demonstrando que abandonar o MI5 não significa necessariamente escapar de sua influência.

É quase uma relação triangular, embora de natureza muito diferente da romântica. River quer Sid, Sid quer River, mas ambos continuam, de alguma maneira, presos a Diana Taverner. A mulher que os separou no passado permanece capaz de manipular o presente e ameaçar o futuro dos dois.

Jack Lowden vai aparecer menos? E Olivia Cooke?

Se a sétima temporada seguir Bad Actors, é perfeitamente possível que Jack Lowden tenha menos cenas do que estamos acostumados. Afinal, River passa boa parte do romance afastado da ação, e isso poderia inclusive permitir que o ator se dedicasse a outros projetos cinematográficos e televisivos sem deixar de fazer parte de Slow Horses.

Mas reduzir sua participação não significa excluí-lo da série. Estamos falando de uma produção com elenco coral, na qual os personagens continuam existindo mesmo quando não estão participando diretamente de uma missão. A recuperação de River, sua relação com Sid e a frustração de permanecer afastado do trabalho oferecem material dramático suficiente para mantê-lo presente, ainda que com menos destaque.

A perspectiva para Olivia Cooke é igualmente interessante. Sua volta à sexta temporada já demonstrou que Sid continua importante para a história, e os romances seguintes oferecem motivos concretos para que a personagem permaneça. Afinal, ela não apenas se transforma na companheira de River como volta a participar das conspirações envolvendo


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