Era uma vez uma mulher linda, poderosa e obcecada pela própria beleza. Ela tinha um espelho mágico, um reino inteiro aos seus pés e um único problema: uma menina mais jovem e mais bonita. Quando Branca de Neve e os Sete Anões estreou, em 1937, a Disney apresentou ao mundo sua primeira grande vilã e estabeleceu um modelo que atravessaria décadas. A bruxa era uma mulher que não aceitava envelhecer, perder a beleza ou dividir seu poder. Quase 90 anos depois, continuamos fascinados por ela. Mas talvez o mais interessante seja perceber que, nesse intervalo, as bruxas mudaram. E nós também.

O curioso é que a Disney, responsável por algumas das princesas mais famosas da história do cinema, também criou vilãs muito mais interessantes do que várias de suas heroínas. Afinal, enquanto as princesas sonhavam com o amor verdadeiro, as bruxas queriam poder, juventude, reconhecimento, vingança ou simplesmente fazer o que bem entendessem. Eram vaidosas, cruéis, inteligentes, engraçadas e absolutamente inesquecíveis. Tinham personalidade, figurinos fabulosos e, frequentemente, as melhores falas.
A Rainha Má e o terror de envelhecer
A Rainha Má de Branca de Neve não é apenas uma mulher invejosa. É a representação de um medo que a sociedade continua alimentando: o envelhecimento feminino. Sua identidade depende da confirmação de que é a mais bela de todas. Quando o espelho deixa de lhe oferecer essa garantia, a jovem Branca de Neve deixa de ser uma enteada e passa a representar uma ameaça intolerável.
Há algo profundamente psicológico nessa relação. A Rainha não deseja apenas eliminar a rival. Ela precisa destruir aquilo que denuncia sua própria vulnerabilidade. O espelho, afinal, não é somente um objeto mágico. É a instância que determina seu valor. E quando ela se transforma numa velha horrenda para oferecer a maçã envenenada, a Disney cria uma ironia cruel: para preservar a juventude, a personagem assume justamente a aparência que mais teme.
Também é impossível ignorar a força visual dessa transformação. Para uma geração de crianças, a velhinha com a maçã foi mais assustadora do que muitos monstros do cinema de terror. A Disney compreendeu muito cedo que o medo não depende necessariamente de violência explícita. Às vezes basta um sorriso, uma voz e uma maçã vermelha.


Malévola: o poder de uma mulher rejeitada
Em 1959, A Bela Adormecida apresentou uma feiticeira ainda mais sofisticada. Malévola não precisava perguntar ao espelho se era bonita. Sabia perfeitamente quem era, conhecia seu poder e não aceitava ser ignorada. Sua vingança começa porque não foi convidada para uma festa. Parece desproporcional? Evidentemente. Mas existe uma questão simbólica nessa exclusão. Malévola não suporta ser desconsiderada.
Com seus chifres, capa negra, postura aristocrática e voz ameaçadora, ela é uma das maiores criações visuais da animação. Ao contrário da Rainha Má, não precisa se disfarçar de velha para assustar. Seu poder está na própria presença. E ainda pode se transformar em dragão, numa demonstração de força que nenhuma princesa da época seria autorizada a possuir.
Décadas depois, a Disney decidiu revisitar essa personagem. Em Malévola (2014), Angelina Jolie interpreta uma mulher cuja crueldade passa a ser compreendida a partir da traição e da violência que sofreu. A vilã ganha uma história, uma dor e, sobretudo, uma perspectiva própria.
É uma mudança fundamental. Aquela que havia sido apresentada como a encarnação do mal passa a ser protagonista. E o amor capaz de quebrar a maldição deixa de depender exclusivamente do príncipe. A Disney não estava apenas recontando um conto de fadas. Estava reconhecendo que suas antigas vilãs talvez merecessem ser ouvidas.


Madame Mim e o prazer de ser uma bruxa
Mas nem todas as feiticeiras da Disney carregam tragédias. Em A Espada Era a Lei (1963), Madame Mim representa algo completamente diferente: o prazer de ser má, excêntrica e absurdamente divertida.
Desarrumada, trapaceira, temperamental e orgulhosa de suas habilidades, Mim não pretende conquistar um reino ou recuperar a juventude. Quer demonstrar que é mais poderosa do que Merlin. Sua batalha de transformações com o mago permanece entre as sequências mais criativas da animação clássica.
Ela representa uma categoria especial de vilã: aquela que se diverte tanto com a própria maldade que nos obriga a rir junto. Não exige compreensão psicológica nem redenção. E talvez seja justamente por isso que continua tão irresistível.

Úrsula: a mulher que negocia desejos
Em 1989, A Pequena Sereia apresentou outra feiticeira extraordinária. Úrsula não é uma mulher convencional, tampouco deseja parecer uma. Extravagante, teatral, voluptuosa e dona de uma presença monumental, ela ocupa praticamente toda a tela quando aparece.
Inspirada visualmente na drag queen Divine, Úrsula tornou-se um ícone que ultrapassou o universo infantil. Mas sua característica mais interessante não está apenas na aparência. Está na maneira como compreende o desejo dos outros.
Úrsula não obriga Ariel a procurá-la. A jovem sereia chega voluntariamente, movida pela vontade de viver uma vida diferente. A bruxa identifica esse desejo, oferece uma solução e cobra um preço terrível: sua voz.
É uma das metáforas mais poderosas da Disney. Para conquistar o amor e transformar sua identidade, Ariel aceita abrir mão da própria capacidade de expressão. Úrsula não cria o desejo da princesa, mas sabe explorá-lo. Seu poder está na manipulação das faltas e fantasias alheias.
E, convenhamos, poucas vilãs foram tão divertidas ao fazer isso.

Mamãe Gothel: quando o amor é uma forma de controle
Embora não seja uma bruxa no sentido tradicional, Mamãe Gothel, de Enrolados (2010), pertence claramente à mesma linhagem das feiticeiras clássicas. Sua obsessão pela juventude recupera o tema da Rainha Má, mas acrescenta uma dimensão psicológica ainda mais perturbadora.
Gothel não precisa envenenar Rapunzel. Basta convencê-la de que o mundo é perigoso, de que ninguém poderá protegê-la e de que sua sobrevivência depende da obediência à mãe.
A violência, aqui, não está num feitiço, mas na manipulação emocional. Gothel se apropria da identidade materna para controlar a jovem e preservar o poder rejuvenescedor de seus cabelos. O amor é apresentado como proteção, quando na verdade funciona como aprisionamento.
É uma vilã assustadoramente contemporânea. Afinal, não existe nada de sobrenatural na culpa utilizada como instrumento de controle.

As irmãs Sanderson e a transformação das bruxas em estrelas
Em Abracadabra (1993), a Disney encontrou outra maneira de explorar o imaginário das feiticeiras. Winifred, Sarah e Mary Sanderson são perigosas, cruéis e interessadas em recuperar a juventude. Mas são também três mulheres extraordinariamente engraçadas.
Bette Midler, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy transformaram as irmãs num espetáculo de exagero, humor e personalidade. O filme não foi um grande sucesso nos cinemas, mas ganhou uma segunda vida na televisão e no vídeo doméstico, até se tornar uma tradição de Halloween.
É interessante observar como personagens originalmente construídas para assustar passaram a ser celebradas. Hoje, as irmãs Sanderson despertam muito mais afeto do que medo. O público sabe que elas são vilãs, mas deseja revê-las, repetir suas falas e acompanhar suas confusões.
A Disney havia descoberto algo que suas animações clássicas já sugeriam: às vezes, o público se diverte mais com as bruxas do que com os heróis.

Wanda e Agatha: as bruxas finalmente assumem o protagonismo
Com a Marvel integrada ao universo Disney, a transformação das feiticeiras ganhou outra dimensão. Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, não cabe facilmente na divisão entre heroína e vilã. Seu poder é imenso, mas sua trajetória também é marcada pelo luto, pela perda e pela dificuldade de aceitar a realidade.
Em WandaVision, o desejo de reconstruir uma família transforma-se numa prisão para outras pessoas. Wanda quer recuperar aquilo que perdeu, mas acaba impondo sua fantasia a uma cidade inteira. A magia funciona como expressão de uma dor que ela não consegue elaborar.
Agatha Harkness, por sua vez, representa uma evolução ainda mais curiosa. Inicialmente apresentada como antagonista, ganhou sua própria série, Agatha Desde Sempre, em 2024. Interpretada por Kathryn Hahn, é sarcástica, ambiciosa, manipuladora e suficientemente carismática para conquistar o público sem precisar se transformar numa mulher exemplar.
Aqui está uma diferença importante em relação às antigas animações. Agatha não precisa abandonar todas as suas características negativas para merecer protagonismo. Continua moralmente ambígua, divertida e perigosa. Sua trajetória também permite explorar temas como maternidade, perda, desejo e pertencimento.
E talvez seja essa a grande conquista das bruxas contemporâneas: a possibilidade de existir sem a obrigação de representar apenas o bem ou o mal.

Afinal, as bruxas mudaram ou fomos nós?
Durante décadas, os contos de fadas ensinaram que mulheres ambiciosas, independentes, vaidosas ou poderosas eram ameaçadoras. As princesas eram jovens, belas, bondosas e frequentemente passivas. As bruxas tinham planos, desejos e iniciativa. Uma precisava ser salva; a outra movimentava toda a história.
Claro que essa oposição nunca foi tão simples quanto parece. Malévola continua sendo cruel na animação original, Úrsula manipula Ariel e a Rainha Má tenta assassinar uma adolescente. Não há necessidade de absolver essas personagens para reconhecer sua força.
Mas o olhar contemporâneo mudou. Hoje, conseguimos enxergar nas antigas vilãs questões que ultrapassam a maldade: o medo do envelhecimento, a necessidade de reconhecimento, o ressentimento, a rejeição, a maternidade possessiva, o desejo de autonomia e a dificuldade de lidar com a perda.
Isso não significa que todas as bruxas sejam vítimas incompreendidas. Algumas são simplesmente perversas. E tudo bem. A ficção também precisa de mulheres que possam ser terríveis sem que uma explicação traumática seja obrigatória.

O mais interessante é perceber como a Disney, que ajudou a construir o arquétipo da feiticeira monstruosa, acabou participando de sua transformação em símbolo de fascínio, complexidade e, em alguns casos, identificação.
Quase 90 anos depois de Branca de Neve, talvez as princesas continuem vendendo o sonho do final feliz. Mas são as bruxas que nos fazem perguntas mais interessantes.
E, cá entre nós, quem nunca achou a Malévola muito mais fascinante do que a Bela Adormecida?
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