Rudolf Nureyev precisou deixar a União Soviética para decidir como queria viver e dançar. Décadas depois de sua morte, um balé sobre sua trajetória também precisou encontrar outro país para continuar existindo nos palcos. A ironia seria quase perfeita se não revelasse algo tão persistente: ainda há quem queira celebrar o artista enquanto tenta controlar aquilo que podemos conhecer do homem.
É nesse contexto que Nureyev, criado pelo coreógrafo Yuri Possokhov, pelo diretor Kirill Serebrennikov e pelo compositor Ilya Demutsky, ganha uma nova etapa de circulação. A gravação da montagem do Staatsballett Berlin, dirigida para as telas por Myriam Hoyer, abre o San Francisco Dance Film Festival em 23 de outubro. O espetáculo que nasceu no Bolshoi, em Moscou, e foi retirado de seu repertório reaparece diante de outro público, agora preservado também pelo cinema.
Para nós, há ainda uma ligação especialmente importante: o Nureyev dessa produção é o brasileiro David Soares. Não estamos falando de uma cinebiografia convencional, com um ator reproduzindo passos ou alternando cenas dramáticas com imagens de um dublê. É um bailarino interpretando outro bailarino por meio da própria linguagem que fez daquele homem uma figura histórica. E isso exige muito mais do que conseguir saltar alto ou reproduzir uma silhueta reconhecível.
Nureyev foi um artista cuja presença ultrapassava a técnica, embora esta fosse extraordinária. Havia uma urgência no modo como ocupava o palco, uma sensualidade que não dependia apenas da beleza e uma vontade de participar de tudo o que a dança pudesse oferecer. Sua parceria com Margot Fonteyn transformou a história do Royal Ballet; sua curiosidade o levou a coreógrafos e linguagens diferentes. Para interpretar esse homem, é preciso encontrar o impulso que o fazia dançar, sem reduzir sua personalidade a uma coleção de gestos famosos.

Uma vida colocada em leilão
A estrutura de Nureyev parte de uma ideia particularmente sugestiva: um leilão de seus objetos pessoais depois da morte. As peças colocadas à venda conduzem a episódios de sua trajetória, aproximando a carreira soviética, a deserção para o Ocidente, os relacionamentos e a construção da celebridade. O espetáculo combina dança, canto e texto, recusando a ideia de que uma vida tão excessiva devesse caber exclusivamente no vocabulário de um balé narrativo tradicional.
O leilão permite uma leitura que vai além da solução dramatúrgica. Depois que o corpo desaparece, o que resta de um bailarino? Fotografias, figurinos, cartas, objetos, registros e lembranças passam a representar algo que nenhum deles consegue recuperar inteiramente. Podemos comprar uma peça que pertenceu a Nureyev, mas não a presença que fazia aquela peça parecer parte de sua personalidade.
Existe também uma tensão entre possuir e conhecer. Nureyev tornou-se uma imagem desejada pelo público, pelos fotógrafos e pelas instituições. Uma biografia em dança precisa atravessar essa superfície para encontrar alguém que também sentia medo, precisava de afeto e pagava pelas decisões que tomava. Mostrar o homem não diminui a lenda; impede que ela se torne uma maneira elegante de apagá-lo.
É nesse percurso que aparecem duas relações fundamentais, diferentes entre si e igualmente impossíveis de retirar da história. Margot Fonteyn representa uma parceria artística que ajudou a redefinir o lugar de ambos no balé. Erik Bruhn, o grande bailarino dinamarquês, reúne amor, admiração e uma rivalidade criativa que também alimentou Nureyev. Na gravação de Berlim, Iana Salenko interpreta Margot, enquanto Martin ten Kortenaar assume Erik. Polina Semionova aparece como a Diva, Marina Duarte como a Bailarina e Anthony Tette como o Aluno.
Fonteyn e Bruhn não deveriam ser organizados numa disputa por importância. O problema começa justamente quando se aceita celebrar uma ligação e se considera a outra inconveniente. A parceria com uma bailarina pode integrar confortavelmente a história oficial de um gênio; o amor por outro homem passa a ser tratado como informação dispensável. Em Nureyev, essa separação não funciona porque a vida afetiva participa da história que está sendo dançada.
O espetáculo que nasceu sob suspeita
A trajetória da produção é quase uma segunda narrativa sobre liberdade artística. Sua estreia estava marcada para julho de 2017, mas foi suspensa poucos dias antes. A justificativa oficial do Bolshoi era que o espetáculo ainda não estava pronto. Circularam suspeitas de interferência política e desconforto com a representação da homossexualidade de Nureyev, mas é importante distinguir essas interpretações da explicação apresentada pelo teatro naquele momento.
O balé finalmente estreou em dezembro de 2017. Serebrennikov, porém, não pôde acompanhar a apresentação: estava em prisão domiciliar num processo envolvendo acusações de desvio de recursos públicos, considerado politicamente motivado por seus apoiadores. A obra chegava ao palco enquanto seu diretor permanecia impedido de estar ali.
A retirada definitiva seria anunciada publicamente em abril de 2023. Vladimir Urin, então diretor-geral do Bolshoi, vinculou a decisão à ampliação da legislação russa contra a chamada “propaganda de relações sexuais não tradicionais”, aprovada em dezembro de 2022. Segundo ele, a produção havia sido retirada assim que a mudança legal entrou em vigor. Portanto, há duas datas na história: o endurecimento da lei em 2022 e a confirmação pública da exclusão do repertório em 2023.
Nesse ponto, já não se tratava apenas de interpretar o motivo de um adiamento. A ligação entre o conteúdo da obra e a legislação havia sido declarada pela própria direção do teatro. Um dos maiores nomes da dança podia permanecer na memória cultural, mas uma montagem que mostrava abertamente sua homossexualidade se tornara incompatível com as regras para representá-lo.
É uma contradição especialmente dolorosa numa arte que depende tanto da transmissão de sua história. O patrimônio não se preserva apenas guardando passos e partituras. Também exige reconhecer quem foram as pessoas que os transformaram. Quando a celebração depende de amputar uma biografia, aquilo que se conserva já começa a ser outra coisa.

Um brasileiro devolve corpo à história
A montagem do Staatsballett Berlin estreou em 21 de março de 2026, na Deutsche Oper Berlin, marcando a primeira apresentação da obra fora da Rússia. David Soares traz para o papel uma ligação concreta com sua origem: formado em Moscou, ele participou da produção original no Bolshoi e passou a integrar a companhia berlinense em 2022.
A recepção alemã destacou justamente sua capacidade de construir uma interpretação sem se limitar à imitação. A crítica da rádio pública RBB ressaltou tanto os encontros com Fonteyn e Bruhn quanto a passagem da exuberância para a fragilidade do artista. É uma avaliação da montagem de palco, importante para situar o trabalho, sem confundi-la com uma análise da realização cinematográfica.
O desafio faz sentido. Interpretar Nureyev exige compreender que a bravura e a vulnerabilidade não pertenciam a pessoas diferentes. O mesmo homem que parecia dominar qualquer espaço também carregava a perda da convivência familiar e o custo do exílio. A liberdade não eliminou essas feridas, assim como a fama não resolveu sua necessidade de ser amado.
Para Soares, o interesse do papel está também nessa possibilidade de atravessar uma vida. O bailarino não precisa convencer o espectador de que Nureyev voltou. Precisa construir uma presença que torne compreensíveis suas contradições, inclusive para quem nunca viu um registro dele dançando.
O cinema como outro palco
A gravação dirigida por Myriam Hoyer foi realizada em março, com produção da Bel Air Media e participação de emissoras internacionais, além do apoio da Rudolf Nureyev Foundation. A realização amplia a vida de uma montagem que já chegou a ser considerada inconveniente demais para permanecer no teatro onde nasceu.
Filmar um balé nunca é apenas colocar uma câmera diante do palco. O enquadramento escolhe o que veremos, o corte modifica nossa atenção e a proximidade pode revelar uma expressão que desapareceria para quem está sentado longe. Ao mesmo tempo, aproximar demais significa correr o risco de perder a relação entre os corpos e o espaço. Sem assistir à gravação, não cabe atribuir a Hoyer soluções específicas; o que já podemos reconhecer é a importância de existir um registro que permita à obra ultrapassar sua geografia.
A sessão de 23 de outubro, no Lucasfilm Premier Theater, em São Francisco, oferece uma nova ocasião para esse encontro. Não há, por enquanto, exibição brasileira confirmada. O espetáculo foi transmitido pela ARTE, mas a página francesa consultada informa que o programa completo já não está disponível; a circulação internacional do filme não deve ser confundida com acesso irrestrito pela internet.
O mais interessante é que a história da produção acabou adquirindo uma relação inesperada com a história de seu protagonista. Nureyev encontrou fora da União Soviética a possibilidade de ampliar sua vida artística. O balé que leva seu nome encontrou em Berlim uma maneira de continuar sendo apresentado com aquilo que o tornara indesejável em Moscou.
Não é preciso transformar essa coincidência numa metáfora perfeita para perceber seu peso. Um artista não pertence inteiramente ao país onde nasceu, ao teatro em que dançou ou à instituição que conserva seus objetos. E sua memória não deveria depender de uma autorização para mostrar quem ele amou. Nureyev passou a vida recusando limites impostos ao próprio corpo. Que um balé sobre ele continue atravessando fronteiras parece uma forma bastante coerente de mantê-lo em movimento.
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