Nobody Wants This: o amor deu certo. E agora?

Como publicado no Caderno B+

Existe uma regra quase sagrada nas comédias românticas: o casal precisa enfrentar obstáculos para finalmente ficar junto. Podem ser famílias complicadas, diferenças culturais, desencontros, antigos namorados ou simplesmente a incapacidade de dizer o que sente. O importante é manter o público torcendo por um beijo, uma reconciliação ou uma declaração apaixonada. Mas o que acontece depois do final feliz? É justamente esse o desafio de Nobody Wants This, que acaba de estrear sua terceira temporada na Netflix.

Quando surgiu, em 2024, a série criada por Erin Foster conquistou o público com uma fórmula que parecia simples, mas andava cada vez mais rara na televisão: uma comédia romântica adulta, divertida, inteligente e com dois protagonistas que tinham uma química irresistível. Kristen Bell interpreta Joanne, uma apresentadora de podcast sobre sexo e relacionamentos, sem religião e com uma vida amorosa complicada. Adam Brody é Noah, um rabino recém-solteiro, charmoso, compreensivo e praticamente perfeito demais para existir fora da ficção.

O encontro dos dois parecia condenado desde o início. Afinal, Noah precisava conciliar sua religião, a família e as expectativas de sua comunidade com uma mulher que não era judia e não demonstrava qualquer interesse em se converter. Joanne, por sua vez, precisava descobrir se estava disposta a mudar parte de sua vida para fazer um relacionamento funcionar.

A primeira temporada foi uma delícia. O humor funcionava, as situações eram reconhecíveis e os diálogos tinham uma agilidade que lembrava as boas comédias românticas dos anos 1990. Mais importante, Bell e Brody faziam o público acreditar naquele casal. E isso, convenhamos, não é pouca coisa.

A segunda temporada já enfrentou um problema mais complicado. Depois de estabelecer que os dois estavam apaixonados, precisava inventar novas dificuldades para impedir que a história simplesmente terminasse. A conversão religiosa de Joanne tornou-se o grande obstáculo. Noah queria continuar sendo rabino e construir uma vida com ela, mas também não desejava que a namorada mudasse suas convicções apenas para agradá-lo.

A solução encontrada no final da temporada foi interessante. Joanne percebeu que poderia encontrar no judaísmo algo que não se resumia ao relacionamento. Ao mesmo tempo, Noah compreendeu que seu amor não poderia depender exclusivamente da conversão dela. Finalmente, os dois pareciam preparados para seguir juntos. E agora?

A terceira temporada começa com Joanne e Noah dividindo a mesma casa. A Netflix decidiu abandonar a pergunta sobre se eles ficariam juntos e explorar como seria a convivência depois da reconciliação. Parece uma mudança pequena, mas representa uma transformação importante para uma série construída sobre a tensão romântica.

A criadora Erin Foster e os responsáveis pela produção disseram que queriam recuperar a leveza da primeira temporada, permitindo que o casal aproveitasse a relação sem precisar enfrentar uma crise a cada episódio. A ideia era produzir uma temporada com o espírito de uma taça de champanhe: divertida, leve e romântica. É uma decisão simpática. Mas será que a estabilidade rende uma boa história?

As primeiras críticas sugerem que sim, embora nem todos concordem sobre os motivos. A rotina doméstica diminui a tensão entre os protagonistas, mesmo que seja raro ver uma série que permite que o relacionamento amadureça. Sem surpresa, curiosamente, os personagens secundários começam a roubar a atenção.

Morgan, interpretada por Justine Lupe, e Sasha, vivido por Timothy Simons, ganham espaço com uma relação que já vinha despertando curiosidade nas temporadas anteriores. Ela é irmã de Joanne; ele, irmão de Noah. Os dois desenvolveram uma amizade improvável e uma intimidade que ultrapassava os limites de um relacionamento convencional, especialmente porque Sasha era casado.

Agora, com a separação de Sasha e Esther, interpretada por Jackie Tohn, essa aproximação ganha novas possibilidades. O que antes parecia uma atração inconveniente pode se transformar em algo mais sério. E, naturalmente, é justamente aí que a comédia romântica encontra novamente sua matéria-prima favorita: duas pessoas que não sabem exatamente o que fazer com o que sentem.

Esther também ganha uma oportunidade de existir além do papel de esposa controladora e cunhada difícil. Ao enfrentar a separação, começa a descobrir quem é fora do casamento. Uma transformação que pode ser tão interessante quanto qualquer novo romance.

Esse crescimento do elenco secundário talvez seja o caminho mais inteligente para prolongar a vida da série. Afinal, nem todo relacionamento precisa estar à beira do rompimento para ser interessante, mas é difícil sustentar indefinidamente uma comédia romântica baseada apenas na felicidade de seus protagonistas.

Há também uma questão que ultrapassa a televisão. Estamos tão acostumados a associar o amor ao sofrimento, à conquista e à insegurança que a tranquilidade de uma relação estável parece menos emocionante. Nas histórias românticas, assim como na vida, muitas vezes confundimos intensidade com profundidade.

Talvez Nobody Wants This esteja tentando contrariar essa lógica. Em vez de mostrar que o amor verdadeiro precisa superar obstáculos extraordinários, a série aposta na ideia de que construir uma vida a dois, respeitando diferenças e aprendendo a conviver, também pode ser interessante.

O problema é que, para os roteiristas, um casal feliz oferece menos possibilidades de conflito do que dois apaixonados que ainda não descobriram como ficar juntos.

Kristen Bell e Adam Brody continuam sendo o grande atrativo da produção. A química entre os atores não desaparece porque seus personagens finalmente decidiram dividir uma casa. Mas a terceira temporada parece reconhecer que o universo de Nobody Wants This precisa crescer para continuar funcionando. E talvez essa seja a evolução mais interessante de uma série que começou falando de duas pessoas apaixonadas e agora precisa encontrar histórias para todos aqueles que vivem ao redor delas.

No fim das contas, a comédia romântica sempre nos ensinou a desejar o final feliz. O que raramente nos contou é que, depois dele, começa outra história.

E essa, convenhamos, costuma ser muito mais complicada.


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