Dark Matter: as portas que abrimos e as vidas que não vivemos

O texto contém spoilers até o nono episódio da segunda temporada.

O que você faria se pudesse conhecer a vida que teria levado depois de uma escolha diferente? Encontrar alguém que perdeu, tentar novamente um amor, descobrir se aquela oportunidade recusada teria feito você mais feliz? Dark Matter transformou essas perguntas em ficção científica, mas o que mais me emociona na série é justamente o que há de reconhecível em meio a tantas realidades impossíveis. A dificuldade de aceitar uma perda. A frustração com o que somos. A fantasia de que, em algum lugar, existe uma vida na qual tudo finalmente se encaixa.

Desde o início, o roteiro e a presença de Joel Edgerton dão um peso humano a essa história. Seu Jason Dessen pode ser um cientista brilhante, um marido dedicado, um homem egoísta, alguém capaz de acolher ou de abandonar outra pessoa. O mesmo rosto atravessa experiências que revelam possibilidades diferentes de existir. E, na segunda temporada, essa multiplicação deixou de ser apenas uma questão de identidade para se tornar uma discussão sobre responsabilidade. O que fazemos com aquilo que nos acontece? Até onde o sofrimento explica nossas escolhas? Em que momento a busca pela própria felicidade começa a destruir a vida de alguém?

Para quem não acompanha a produção da Apple TV, a premissa precisa de alguma explicação. Jason é um professor de física que vive com a mulher, Daniela, interpretada por Jennifer Connelly, e o filho, Charlie. Ele é sequestrado por uma versão de si mesmo que seguiu outro caminho: investiu na carreira científica e construiu uma caixa capaz de permitir viagens entre universos. Esse outro Jason, que chamamos de Jason 2, alcançou o sucesso profissional, mas deseja a família que não constituiu. E decide tomar o lugar do homem que a tem.

É uma violência que nasce de uma fantasia bastante familiar. Acreditar que a felicidade está naquilo que o outro possui. Aqui, com uma crueldade adicional: o outro tem a sua cara.

A psicanálise oferece caminhos para pensar essa história porque questiona justamente a ideia de que sabemos inteiramente o que queremos e por que fazemos o que fazemos. Nossas escolhas envolvem desejos conscientes, mas também conflitos, defesas, experiências e expectativas que nem sempre reconhecemos. Isso torna a liberdade uma questão mais complexa do que simplesmente ter muitas opções disponíveis. Podemos atravessar inúmeras portas e continuar organizando a vida em torno do mesmo impasse.

O desejo não funciona como um endereço

Dentro da caixa, os viajantes encontram um corredor com inúmeras portas. Cada uma pode levar a uma realidade diferente. Para acessar esse estado, precisam de uma substância que permite a experiência da superposição prevista pela lógica ficcional da série. Mas a questão decisiva para a viagem é outra: o destino está ligado ao estado mental de quem abre a porta, incluindo seus medos, suas expectativas e conteúdos que não controla conscientemente.

No início, Jason e Amanda, a psicóloga interpretada por Alice Braga, tentam compreender essa navegação. Descrever um lugar não basta. Pensar em voltar para casa também não garante a chegada. A ansiedade, o pavor e as associações que os atravessam interferem na busca. Aos poucos, eles aprendem a prestar atenção ao que sentem, a se preparar antes de abrir uma porta e a buscar uma conexão afetiva com o destino. A imagem de uma casa tem menos força do que a experiência de pertencimento que procuram nela.

É aqui que a metáfora se torna especialmente interessante para um olhar psicanalítico. Podemos formular um desejo com absoluta convicção e desconhecer parte do que buscamos por meio dele. Alguém diz que quer um relacionamento, mas talvez espere também uma confirmação de valor. Outro deseja reconhecimento profissional e descobre que nenhuma conquista consegue silenciar uma antiga sensação de insuficiência. A caixa dá uma forma visível a essa distância entre o que acreditamos querer e aquilo que participa das nossas escolhas sem que percebamos.

Isso não significa que a série esteja propondo uma receita de pensamento positivo. Na vida, evidentemente, medo e angústia não produzem catástrofes por força mental. A aproximação possível é outra: aquilo que não reconhecemos em nós também pode interferir no modo como interpretamos uma situação, estabelecemos vínculos e repetimos caminhos.

Em Recordar, repetir e elaborar, de 1914, Freud descreve como certos conflitos reaparecem em atos e relações, sem que a pessoa reconheça que está repetindo algo de sua história. Essa repetição pode ser vivida como uma experiência inteiramente nova, embora preserve uma organização conhecida. A mudança exige um trabalho de elaboração; receber uma explicação sobre o próprio comportamento não basta para transformá-lo.

Podemos aproximar essa ideia da navegação pela caixa. Mudar de mundo não garante uma mudança na maneira de se relacionar. O cenário pode ser outro, o parceiro pode ser outro, a oportunidade pode parecer inédita. Ainda assim, podemos continuar buscando a mesma confirmação impossível ou tentando evitar a mesma frustração.

Por isso, aprender a navegar pela caixa tem algo a ver com aprender a se escutar. Só que compreender melhor o próprio funcionamento não oferece controle absoluto sobre a existência. Jason e Amanda ficam mais experientes, encontram conexões, conseguem orientar algumas viagens. Continuam sujeitos à perda, ao desencontro e às consequências do que fazem.

Conhecer o mecanismo não elimina o conflito.

Onde estaria o ponto zero?

Existe outra armadilha nessa promessa de possibilidades infinitas. Procurar a realidade certa pode se transformar numa busca pelo momento anterior ao sofrimento. O lugar onde tudo ainda poderia ter sido diferente. Mas onde ele começa?

Antes de Jason construir a caixa? Antes de decidir investir na ciência? Antes de conhecer Daniela? Antes de uma morte na família? Cada tentativa de localizar a origem encontra uma história que já estava em andamento. E cada intervenção produz efeitos sobre pessoas que também têm desejos, experiências e decisões próprias.

Podemos chamar um personagem de Jason 1 e outro de Jason 2 para acompanhar a trama. Essa numeração, porém, não estabelece uma hierarquia de humanidade. Cada um vive a própria experiência como central. Cada Daniela tem uma história. Cada Amanda existe para além da função que desempenha na vida de um Jason.

A ausência de um ponto zero também encontra uma ressonância na análise. Conhecer a história de um sofrimento pode ser fundamental, mas não nos devolve ao instante anterior a ele. Entender uma repetição abre a possibilidade de mudar nossa relação com ela. Não apaga o que aconteceu nem restitui uma pessoa intacta, esperando em algum lugar do passado.

A elaboração de que Freud fala ajuda a compreender essa diferença. Uma experiência pode ganhar outro sentido e deixar de determinar certas respostas sem ser desfeita. O trabalho acontece na relação que conseguimos estabelecer com nossa história e com o que dela continua atuando no presente.

Há uma perda nessa constatação. Há também uma possibilidade de liberdade: o futuro não precisa depender da recuperação de uma vida que já não pode ser vivida exatamente como imaginávamos.

O Jason que encontrou a mãe

Um dos episódios mais bonitos da temporada acompanha um Jason que precisa enfrentar essa questão. Sem conseguir recuperar a família, ele encontra uma realidade na qual a mãe ainda está viva. Ali, porém, ela perdeu o filho quando ele tinha 16 anos.

O encontro reúne duas pessoas marcadas por ausências diferentes. Ele perdeu a mãe em sua história; ela perdeu o filho na dela. Nenhum pode devolver literalmente ao outro aquilo que foi perdido. Ainda assim, conseguem construir uma relação.

Esse Jason também acolhe outra versão de si mesmo, encontrada em situação de abandono. A diferença entre os dois não está numa superioridade essencial. Um encontrou amparo; o outro foi se destruindo na solidão. Ao levá-lo para casa, Jason oferece a outro homem o cuidado que o ajudou a continuar. A série torna concreta uma pergunta social: o que teria acontecido conosco sem as pessoas que nos sustentaram?

Esse gesto me comove porque amplia a história para além da conquista individual de uma nova chance. Jason não apenas encontra um abrigo. Ele ajuda a fazer daquele lugar um abrigo para alguém.

Winnicott oferece uma contribuição importante para essa leitura. Em A capacidade de estar só, de 1958, ele apresenta um aparente paradoxo: a capacidade de estar só se desenvolve a partir da experiência de estar só na presença de alguém confiável. A possibilidade de sustentar a própria existência tem raízes numa relação de amparo, cuja presença pode, com o tempo, ser interiorizada. Autonomia e vínculo não são experiências incompatíveis.

A aproximação com Jason é uma leitura da cena, não uma explicação clínica do personagem. Mas ela nos permite reconhecer o que o episódio mostra com tanta delicadeza: encontrar alguém que acolhe pode mudar nossa capacidade de enfrentar o sofrimento. O cuidado recebido também pode se tornar cuidado oferecido.

Há ainda uma leitura possível pela elaboração do luto. Em Luto e melancolia, publicado em 1917, Freud descreve o trabalho psíquico exigido pela perda de alguém amado ou de algo que ocupa um lugar fundamental em nossa vida. A realidade da ausência não é assimilada de uma vez. Lembranças e expectativas ligadas ao que foi perdido precisam ser atravessadas, num processo doloroso que pode devolver disponibilidade para outros investimentos afetivos.

Elaborar uma perda envolve encontrar formas de continuar vivendo com uma ausência que não será desfeita. A pessoa amada pode permanecer na memória, nos afetos, na história, enquanto novos investimentos se tornam possíveis. Ao construir uma vida com a mãe e se permitir uma aproximação amorosa com Maria, esse Jason não precisa declarar que Daniela e Charlie deixaram de importar. Sua vida ganha outros vínculos. O passado continua existindo, mas deixa de ocupar sozinho todo o espaço disponível.

Podemos estender essa reflexão, como leitura da série, às vidas que imaginávamos ter. Também sofremos pelo futuro que não aconteceu: uma família que não constituímos, uma trajetória interrompida, uma relação que não chegou a ser o que esperávamos. A caixa mantém essas possibilidades ao alcance da fantasia e transforma a despedida numa tarefa ainda mais difícil.

E o novo vínculo também será atravessado pelo tempo e pela despedida. Mesmo na realidade que oferece acolhimento, ele não encontra uma imunidade contra o sofrimento. Encontra uma vida que vale a pena viver apesar disso.

Amanda e o desejo de ser amada

O oitavo episódio retoma essa delicadeza com Alice Braga no centro emocional da história. Há algo profundamente triste em acompanhar uma mulher capaz de compreender tanta coisa sobre os outros reconhecer o quanto desejava ser amada por alguém que não lhe ofereceu o mesmo.

A Amanda que conhecemos esteve ligada ao Jason 2. Ajudou, investiu, participou de sua vida e de seu trabalho. Sua formação como psicóloga não a protegeu da experiência de esperar um amor que não veio. Esse detalhe merece atenção. Saber nomear um conflito não nos coloca fora dele. Conseguimos compreender intelectualmente muitas das nossas experiências e, ainda assim, continuar presos ao que esperamos de alguém. Reconhecer a indisponibilidade do outro e conseguir reorganizar a própria vida diante dela são movimentos diferentes.

É uma distinção que o texto de Freud sobre elaboração também ajuda a sustentar. A compreensão pode iniciar um trabalho, mas a mudança precisa atravessar resistências e modos de se relacionar que não desaparecem quando encontram um nome. Não se trata de dizer que Amanda repete necessariamente uma história que a série não nos mostrou. Trata-se de reconhecer que conhecimento psicológico e transformação subjetiva não são equivalentes.

Amanda também conhece possibilidades de si mesma em outras realidades. Vidas com outras escolhas, outros vínculos, outras formas de pertencimento. A experiência torna visível uma questão que pode ser dolorosa: quantas vidas imaginamos que deveríamos ter vivido antes de reconhecer aquela que ainda podemos construir?

No episódio oito, o acolhimento na casa de Laurel permite que uma Amanda e um Jason interrompam a travessia. Essa Amanda ferida e esse Jason pertencem a uma ramificação da jornada; não devemos confundi-los automaticamente com os personagens que seguimos nas demais frentes. É justamente essa existência própria que dá força ao episódio. Eles também têm direito a uma história.

A recuperação, a convivência e o afeto criam algo que não estava previsto no plano original. Amanda precisa reconhecer o que deseja para si. Jason precisa descobrir o que sua insistência em partir ainda procura preservar. Quando uma relação se torna possível, existe ali o reconhecimento de uma pessoa concreta, com quem se compartilhou uma experiência, e de uma vida que pode ser construída no presente.

A casa de Laurel também pode ser lida à luz da importância que Winnicott atribui ao ambiente e às relações de sustentação. A pausa, a proteção e a presença de alguém confiável oferecem condições para que os personagens possam experimentar algo além da reação à ameaça. Acolhidos, conseguem começar a perguntar o que desejam fazer com a própria vida.

Foi um dos momentos em que mais me emocionei nesta temporada. Em uma série capaz de abrir portas para infinitos mundos, ver pessoas encontrando motivos para ficar tem um peso enorme.

O outro não existe para completar a nossa vida

Talvez a questão ética mais persistente de Dark Matter esteja na maneira como cada personagem trata as pessoas que encontra. Jason 2 vê a família do outro como uma felicidade disponível para ocupação. Seu sofrimento se transforma numa justificativa para sequestrar, mentir e impor sua presença. Ele deseja o resultado de uma história compartilhada sem ter vivido essa história e sem aceitar que Daniela pode escolher. É uma fantasia de reparação que dispensa a autonomia alheia.

Na vida cotidiana, evidentemente sem multiversos, também podemos esperar que alguém venha corrigir uma falta antiga: um parceiro que finalmente nos faça sentir suficientes, um filho que realize o que não conseguimos, um reconhecimento que compense todas as humilhações anteriores. O problema aparece quando a pessoa deixa de ser reconhecida em sua própria existência e passa a carregar a obrigação de nos reparar.

Melanie Klein ajuda a aprofundar essa discussão. Em Amor, culpa e reparação, de 1937, ela examina a coexistência de sentimentos amorosos e destrutivos e o desejo de reparar os danos dirigidos a quem amamos. Em seu pensamento, a reparação envolve preocupação com o outro, reconhecimento do dano e possibilidade de cuidado. É diferente de tentar fazer desaparecer a culpa por meio de uma solução onipotente, como se pudéssemos restaurar tudo sem reconhecer o que aconteceu.

Essa distinção permite perguntar o que Jason 2 procura reparar quando ocupa a vida de outro homem. Ele se dispõe a cuidar das pessoas envolvidas ou tenta eliminar a própria frustração? Consegue reconhecer a violência que produziu ou espera que a felicidade obtida depois torne seus atos aceitáveis?

Daniela torna esse custo especialmente visível. Não basta alguém ter o rosto de seu marido ou afirmar que a ama. A confiança depende de uma história, de gestos, da possibilidade de reconhecer quem está diante dela. Depois de tantas violações, sua dificuldade de confiar tem consequências que nenhum Jason pode resolver exigindo ser acreditado.

A experiência dela impede uma leitura confortável na qual tudo se resumiria ao sofrimento de um homem tentando recuperar a família. A família também sofreu. Também mudou. Também tem o direito de decidir.

Ser bom continua sendo uma escolha

Joel Edgerton sustenta essas diferenças sem precisar transformar cada Jason num personagem inteiramente alheio aos demais. Existe uma familiaridade incômoda entre eles. Conseguimos reconhecer o homem que amamos acompanhando os passos de outro que condenamos.

Isso se torna particularmente perturbador quando o Jason que seguimos começa a agir de maneiras que o aproximam de Jason 2. Proteger a família pode se tornar uma justificativa conveniente para ultrapassar limites. O medo de perder alguém pode alimentar uma obsessão que acaba afastando justamente essa pessoa. As circunstâncias importam. O acolhimento importa. O trauma importa. Nenhum desses elementos elimina a responsabilidade pelo que fazemos.

Uma leitura psicanalítica pode nos ajudar a abandonar a fantasia de uma identidade inteiramente coerente. Podemos amar e sentir raiva da mesma pessoa. Desejar sua presença e sentir o que ela nos exige. Ser generosos em uma situação e profundamente egoísta em outra. Reconhecer essa ambivalência permite prestar atenção ao que fazemos com ela.

Na teoria kleiniana, integrar amor e hostilidade dirigidos à mesma pessoa é um aspecto importante do amadurecimento emocional. Quem nos frustra pode ser também quem amamos; os aspectos que rejeitamos em nós convivem com nossa capacidade de cuidado. Essa integração torna possível uma preocupação mais consistente com o dano que podemos causar.

A multiplicação dos Jasons oferece uma imagem particularmente expressiva dessa dificuldade. A ficção distribui em vários corpos possibilidades que, na experiência humana, podem coexistir numa mesma pessoa. O homem cuidadoso não está protegido de agir com crueldade. Quem causou sofrimento pode reconhecer o que fez e tentar agir de outra maneira. Essa possibilidade exige trabalho e responsabilidade, e não uma absolvição automática.

O risco está em acreditar que o amor declarado garante, por si só, a bondade dos nossos atos.

As melhores versões conseguem reconhecer um limite

Por isso, o encontro de Jason, Amanda, Ryan e Blair em torno da possibilidade de desativar as caixas tem um significado que ultrapassa a solução científica. Eles reúnem experiências de perda, culpa e violência para pensar no que pode ser feito diante de um problema que já compromete inúmeras vidas. No nono episódio, surge um plano de desligamento; sua execução e seus custos ainda permanecem em aberto.

Gosto de pensar que ali se encontram algumas das melhores possibilidades desses personagens. Isso tem menos a ver com uma pureza moral do que com a capacidade de reconhecer que seus desejos não podem ser a única medida das decisões. Amanda e Ryan trazem o que aprenderam atravessando o sofrimento juntos. Blair insiste na necessidade de interromper o perigo. Jason precisa considerar o alcance daquilo que ajudou a tornar possível. Cada um depende do conhecimento e da experiência dos demais.

Podemos reconhecer nessa reunião uma aproximação com a reparação pensada por Klein: o sofrimento e a culpa encontram uma possibilidade de transformação em preocupação e ação. Em vez de apenas desejar que nada tivesse acontecido, torna-se necessário considerar o que ainda pode ser cuidado. Essa é uma leitura do encontro, cuja força está justamente na passagem de uma busca individual para uma responsabilidade compartilhada.

A própria ideia de fechar as portas exige uma renúncia dolorosa. A caixa permite fugir de uma ameaça, encontrar acolhimento, rever alguém perdido. Interrompê-la também pode impedir encontros. Há pessoas do outro lado, inclusive Daniela, cuja situação impede que a solução seja celebrada como se todos já estivessem seguros. É isso que dá densidade à decisão. Reconhecer a necessidade de um limite não elimina o sofrimento de estabelecê-lo.

A caixa pode representar muitas coisas: a fantasia de onipotência, a busca por uma vida sem frustrações, a promessa de reparar todas as perdas, a dificuldade de aceitar uma escolha enquanto outra possibilidade continua aberta. Suas portas oferecem destinos e também adiam despedidas.

Freud nos ajuda a pensar a repetição e o trabalho exigido pela perda. Winnicott permite reconhecer a importância do amparo para que alguém possa sustentar a própria existência. Klein ilumina a ambivalência e a possibilidade de transformar culpa em cuidado. São contribuições de momentos e perspectivas distintos da psicanálise, que encontram na série pontos de aproximação sem reduzi-la a uma ilustração de teoria.

Dark Matter me emociona porque permite que algumas portas levem ao cuidado. Uma mãe acolhe um filho que não viu crescer. Um homem ampara outra versão de si mesmo. Uma mulher começa a reconhecer que merece existir para além do amor que esperava receber. Pessoas feridas conseguem pensar juntas no que podem fazer pelos outros. Nenhuma dessas experiências exige que o passado seja apagado. Exige que ele possa encontrar um lugar numa vida que continua.

Talvez a pergunta mais difícil da série apareça justamente quando já sabemos abrir melhor as portas. Se conseguirmos chegar a tantos lugares, o que nos fará escolher um deles? Com quem queremos permanecer? E de quais possibilidades estamos dispostos a nos despedir para cuidar da vida que encontramos?


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