A criada bondosa que se casa com o príncipe e vive feliz para sempre pode ser o caso de Enid Turner-Winterton, em The Gilded Age, mas às avessas. Tudo bem, uma Cinderela que decidiu escrever seu próprio conto de fadas, e, ao contrário da heroína original, não pretende esperar por um príncipe encantado, uma fada madrinha ou qualquer pessoa disposta a transformar seu destino. Ela já aprendeu que o mundo não recompensa a bondade com a mesma generosidade com que recompensa o dinheiro, as conexões e a ambição. Basta observar sua extraordinária trajetória na série.

Como Turner, começa como criada pessoal de Bertha Russell, numa posição privilegiada para conhecer os segredos e as fraquezas dos milionários. Percebe, antes do próprio George, que as ambições de Bertha poderiam acabar provocando um conflito entre marido e mulher. Acreditando ter encontrado uma oportunidade, tenta seduzir George, mas termina humilhada. Para piorar, um mal-entendido acaba provocando sua demissão. Ao aceitar um trabalho extra para ajudar Oscar van Rhijn, desperta em Agnes a suspeita de um possível romance entre os dois, algo inadmissível diante das diferenças sociais. Indignada, Agnes exige que Bertha dispense a criada, enquanto a própria Bertha acredita que Turner está interessada em Larry. Sem conhecer os verdadeiros motivos da demissão, Turner conclui que está sendo punida por sua tentativa de seduzir George. Seja como for, para outra personagem, talvez fosse o fim da história. Para Turner, foi apenas o começo.
Como Winterton, casa-se com um milionário mais velho e conquista a riqueza e a posição social que jamais conseguiria como empregada. Conhece a realeza britânica e, por um breve momento, chega a conseguir um camarote na Ópera que Bertha Russell não tinha. Mas a ascensão social não elimina o ressentimento, a inveja ou a vontade de se vingar da antiga patroa. Ter tudo aquilo com que sonhava ainda não é suficiente, porque Enid não quer simplesmente pertencer ao mundo que a rejeitou. Quer provar que pode conquistá-lo. E chega longe, frequentando as melhores festas e circulando entre os nomes mais importantes de Nova York, até que “alguém” revela seu passado de empregada a Mrs. Astor. De repente, o dinheiro já não basta: Enid perde seu lugar na Ópera e, depois de ficar viúva, começa a ser excluída das festas que havia lutado tanto para frequentar.
É nesse momento que Oscar van Rhijn volta a cruzar seu caminho. Ele também desconhece o papel que a própria mãe desempenhou na demissão de Turner e agora enxerga naquela mulher uma possível solução para seus problemas. O que antes seria considerado um envolvimento inadmissível entre um aristocrata e uma criada transforma-se numa oportunidade de casamento entre duas pessoas que têm muito a oferecer uma à outra.
Como a possível Mrs. van Rhijn, Enid aceita considerar um casamento de conveniência com Oscar, um lavender marriage no qual ambos poderiam preservar suas liberdades pessoais enquanto conquistam aquilo de que precisam. Oscar necessita de segurança financeira e de uma fachada socialmente aceitável que lhe permita esconder sua homossexualidade. Enid já tem dinheiro, mas quer algo que nem mesmo a fortuna dos Winterton pode comprar facilmente: a legitimidade de um sobrenome da antiga aristocracia de Nova York. No conto original, Cinderela é recompensada por sua bondade e encontra o amor. Enid não espera recompensa, não procura amor e certamente não pretende ser generosa com aqueles que um dia a desprezaram. Assim como Bertha Russell, ela quer liderar.

Agnes van Rhijn: a sogra dos pesadelos encontra alguém à sua altura
E aqui está uma das maiores ironias da série. Agnes, que ajudou a expulsar Turner da casa dos Russell por suspeitar que ela estava envolvida com Oscar, pode acabar recebendo exatamente aquela mulher como nora.
Sempre esperei que Julian Fellowes desenvolvesse melhor a rivalidade entre Agnes e Bertha, um confronto prometido desde a primeira temporada que nunca chegou a acontecer da maneira que eu imaginava. Agora, porém, talvez tenhamos uma disputa ainda mais deliciosa entre duas Mrs. van Rhijn. Já falo sobre isso há anos.
Agnes passou a vida acreditando que um sobrenome respeitável, boas maneiras e as conexões familiares corretas eram praticamente virtudes morais. Turner representa quase tudo aquilo que ela despreza: uma mulher de origem humilde que ascendeu socialmente por meio do casamento, do dinheiro e de uma extraordinária capacidade de se reinventar.
Mas as circunstâncias mudaram. Agnes já não é a senhora rica e incontestável de sua própria casa. Sua dependência financeira de Ada a obrigou a abrir mão de parte da autoridade que sempre considerou um direito de nascimento. Se Oscar realmente se casar com Enid, a situação econômica da família poderá ficar ligada à fortuna da mesma mulher que Agnes um dia considerou socialmente inferior. E não há nada de que Enid goste mais do que estar em vantagem.
No novo vídeo de bastidores, Enid diz a Agnes que ela ficaria surpresa se descobrisse todas as coisas maravilhosas que ela e Oscar podem realizar juntos. Parece uma declaração perfeitamente cordial, quase tranquilizadora, mas, vinda de Turner, não consigo deixar de ouvir um desafio escondido atrás da gentileza.
As imagens também mostram Agnes e Enid compartilhando ocasiões sociais, sugerindo que as duas terão inúmeras oportunidades de testar a paciência uma da outra. Desconfio que Agnes descobrirá que lidar com Bertha Russell era relativamente simples quando comparado à possibilidade de ter Turner dentro da própria família.

Mas Agnes também é pragmática. Compreende a importância de preservar as aparências, proteger Oscar e manter a posição da família. Talvez conclua que o casamento atende aos interesses de todos, mesmo que a noiva esteja muito longe de ser a nora que teria escolhido.
O que nos deixa diante de uma possibilidade fascinante: Agnes pode detestar Enid e, ao mesmo tempo, reconhecer que precisa dela.
Oscar e Enid: um casamento sem ilusões românticas
A aliança entre Oscar e Enid talvez seja um dos desenvolvimentos mais interessantes que Julian Fellowes preparou para a quarta temporada. São duas pessoas que compreendem as restrições impostas pela sociedade e decidiram encontrar uma maneira de contorná-las, em vez de enfrentá-las abertamente.
Oscar precisa esconder sua homossexualidade. Seu relacionamento com John Adams, especialmente depois da morte trágica do companheiro, revelou o quanto essas restrições podem ser dolorosas e perigosas. Ele passou anos procurando um casamento que lhe garantisse segurança financeira sem exigir compromissos emocionais que não poderia oferecer honestamente.
Enid, por sua vez, já experimentou o casamento como instrumento de ascensão social. Não precisa de outro marido perdidamente apaixonado por ela, muito menos de alguém interessado em controlar como gasta seu dinheiro, administra sua casa ou conduz sua vida social.
Oscar pode oferecer um sobrenome respeitado e acesso à velha aristocracia. Ela pode garantir segurança financeira, proteção social e talvez a possibilidade de uma vida privada que nenhum dos dois conseguiria desfrutar facilmente de outra maneira.
Há algo quase refrescante numa parceria tão abertamente baseada em interesses mútuos. Numa sociedade em que tantos casamentos são atravessados por negociações financeiras, expectativas familiares e ambições sociais, Oscar e Enid podem acabar construindo uma das relações mais honestas de The Gilded Age. Eles sabem exatamente o que estão oferecendo e o que esperam em troca. Pelo menos entre os dois, não precisam fingir que encontraram o grande amor de suas vidas.
As fotografias oficiais do primeiro episódio mostram os dois bastante próximos. Numa delas, Oscar segura a mão de Enid junto a uma escadaria. Em outra, aparecem juntos numa festa, acompanhados de Marian, com bebidas nas mãos. O vídeo de bastidores também mostra Kelley Curran e Blake Ritson dançando alegremente, refletindo uma cumplicidade que aparece nas entrevistas dos atores.
É difícil imaginar dois personagens mais adequados para uma parceria construída sobre interesses compartilhados.

Eles não querem apenas entrar na sociedade. Querem comandá-la.
O que mais me chamou a atenção nas novas entrevistas foi descobrir até onde vão as ambições de Enid e Oscar. Kelley Curran sugere que os personagens percebem seu potencial para se transformarem em figuras capazes de influenciar os rumos culturais da sociedade. Blake Ritson vai além, explicando que os dois desejam se tornar os grandes árbitros do bom gosto, aqueles que estabelecem tendências e determinam quem merece reconhecimento social.
Isso muda tudo.
Bertha Russell passou anos lutando para conquistar a aprovação de Mrs. Astor. Enid não parece interessada em repetir a mesma trajetória. Quer disputar o próprio poder de conceder essa aprovação, o que representa um nível completamente diferente de ambição.
No trailer, Enid e Oscar questionam por que Mrs. Astor e Bertha deveriam continuar controlando a sociedade. Os atores explicam que a nova temporada mostrará a primeira tentativa do casal de descobrir quanta influência pode exercer. Aparentemente, são muito bons nisso. Alguém tinha alguma dúvida?
Oscar cresceu entre as famílias tradicionais e conhece perfeitamente seus códigos sociais. Enid passou anos observando os ricos enquanto trabalhava para eles, aprendendo seus segredos, suas hipocrisias e suas fraquezas. Ele conhece as regras porque nasceu naquele mundo, enquanto ela precisou estudá-las para sobreviver. Juntos, podem se transformar numa dupla formidável.
A primeira festa apresentada nas imagens promocionais já oferece uma pista fascinante. Marian, Larry, Oscar e Enid participam de uma celebração decorada com elementos de inspiração oriental, pavões, lanternas, música, bebidas e danças muito mais animadas do que os bailes tradicionais.
Será essa uma das primeiras tentativas de Oscar e Enid de se estabelecerem como criadores de tendências culturais? É apenas uma possibilidade, mas combina perfeitamente com suas ambições.
A presença de Marian é especialmente intrigante. Sabemos que ela estará mais ousada nesta temporada e que tomará uma decisão apoiada por Agnes, mas contestada por Ada. E se parte dessa transformação envolver justamente o apoio às extravagâncias do primo e de sua futura esposa?
Ada é mais pudica do que Agnes em determinados assuntos, enquanto Agnes, apesar do conservadorismo, pode reconhecer as vantagens práticas de um casamento capaz de devolver dinheiro e influência à família van Rhijn. Seria outra inversão deliciosa: Agnes, a conservadora, defendendo Marian, enquanto Ada, tradicionalmente compreensiva, considera seu comportamento inaceitável.
Ainda é apenas uma teoria, claro, mas vale a pena acompanhar.

Dos aposentos de Bertha à mesa do presidente
O vídeo de bastidores oferece outra imagem fascinante da ascensão social de Enid. Ela aparece visivelmente contrariada depois de ler alguma coisa num jornal, mas também a vemos recebendo aplausos públicos, conversando com o presidente Grover Cleveland e sentada ao lado dele durante um jantar formal.
Não sabemos o que fez para receber tamanho reconhecimento nem qual notícia poderá ameaçar seus planos. Ainda assim, as imagens sugerem que Enid já circula entre as mais altas esferas de influência política e social.
Basta pensar na transformação. A mulher que um dia ajudava Bertha Russell a se vestir para ocasiões importantes agora aparece ao lado do presidente dos Estados Unidos.
Claro que conhecer um presidente não é o mesmo que exercer poder político, mas, no universo de The Gilded Age, a proximidade importa. Ser vista ao lado de pessoas influentes pode ser quase tão valioso quanto ter influência por conta própria. E Enid compreende a importância das aparências melhor do que muita gente.
Há também sua rivalidade permanente com Bertha. O trailer mostra Enid provocando a antiga patroa sobre a fachada de felicidade da família Russell, um ataque particularmente cruel agora que o casamento de George e Bertha atravessa uma crise.
Curiosamente, isso acontece depois de Enid ter sugerido, no final da terceira temporada, que talvez as duas pudessem se tornar amigas. Amigas? Duvido que qualquer uma delas tenha esquecido o suficiente para que isso seja possível.
Turner conhece as vulnerabilidades de Bertha porque já trabalhou em sua intimidade. Presenciou seus momentos de insegurança, acompanhou suas estratégias e sabe quanto ela precisou lutar para ser aceita. Bertha, por sua vez, jamais conseguiu esquecer que Enid foi sua empregada e muito menos perdoar a tentativa de seduzir George.
Mas a relação de forças está mudando. Bertha pode estar lutando para salvar seu casamento justamente quando a antiga criada se prepara para consolidar uma nova parceria de interesses. Enquanto uma tenta preservar a aparência de uma família feliz, a outra pode estar construindo um casamento sem ilusões românticas, mas com objetivos perfeitamente definidos. A ironia é quase cruel.
E talvez Enid compreenda algo que Bertha demorou muito a aceitar: conquistar o poder é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio é mantê-lo quando as pessoas ao redor deixam de colaborar com seus planos.

Cinderela não precisa ser boazinha
O que torna Enid especialmente fascinante é que sua história não representa uma celebração convencional da mobilidade social. Ela é inteligente, engenhosa, corajosa e determinada, mas também manipuladora, ressentida e capaz de uma crueldade considerável. Podemos admirar aquilo que conquistou sem aprovar a maneira como chegou até ali.
E talvez essa seja a diferença fundamental entre Enid e Cinderela. A heroína do conto de fadas é recompensada porque permanece bondosa apesar da crueldade que sofre. Enid aprendeu com essa crueldade e parece perfeitamente disposta a reproduzi-la quando conquista poder.
Existe uma possibilidade muito real de que a mulher que passou tantos anos sendo humilhada acabe utilizando a posição recém-conquistada para humilhar os outros. A ascensão social não produz automaticamente generosidade, assim como ter sofrido injustiças não transforma ninguém necessariamente numa pessoa justa.
Julian Fellowes sempre se interessou pelas tensões entre as classes sociais, mas The Gilded Age oferece um cenário particularmente fértil para explorar essas contradições. No final do século 19, os Estados Unidos viviam um período em que fortunas industriais, novas riquezas e mobilidade social desafiavam a autoridade de famílias que acreditavam ter uma posição garantida no mundo.
Enid representa essa transformação quase perfeitamente. Ela não nasceu rica, não herdou prestígio e não foi educada para acreditar que a sociedade existia para servi-la. Precisou construir a própria identidade, primeiro como Turner, depois como Winterton e, talvez em breve, como van Rhijn.
Cada sobrenome representa uma etapa diferente de sua transformação, mas nenhum deles alterou sua ambição fundamental. Enid nunca se contentou em simplesmente sobreviver. Quer reconhecimento, influência e a satisfação de saber que as pessoas que um dia a desprezaram agora precisam reconhecer sua importância.
Bertha comprou seu lugar à mesa. Agnes herdou o dela. Enid está aprendendo a manipular os dois sistemas e talvez tenha compreendido as regras melhor do que qualquer uma delas.

No conto de fadas original, Cinderela perde o sapatinho de cristal à meia-noite e precisa ser encontrada pelo príncipe. Enid não precisa que ninguém venha procurá-la, muito menos pretende abandonar o baile quando o relógio marcar meia-noite.
Ela já encontrou seu príncipe, negociou as condições e decidiu exatamente o que espera dessa união. E, se tudo acontecer como planeja, não vai simplesmente se transformar em mais uma dama respeitável da sociedade de Nova York.
Ela quer ficar com o palácio. Confesso que estou particularmente ansiosa para descobrir até onde Enid será capaz de chegar!
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