Há músicas que parecem pertencer a uma época, outras que conseguem atravessar gerações sem perder sua identidade. E existem aquelas que acabam adquirindo um significado que nem mesmo seus criadores poderiam prever. Season of the Witch, lançada por Donovan em 1966, pertence a essa última categoria. Seis décadas depois, é praticamente impossível ouvir seus primeiros acordes sem pensar em mistério, magia, bruxaria e Halloween. Curiosamente, a canção não foi escrita para celebrar bruxas nem para acompanhar histórias de terror. Nasceu de algo talvez ainda mais perturbador: a sensação de que o mundo estava mudando e ninguém sabia exatamente em quem confiar.
Em 1966, a contracultura começava a transformar a música popular. O folk, que havia ajudado a consolidar artistas como Bob Dylan e Joan Baez, encontrava novas possibilidades no rock elétrico e na psicodelia. As experiências com LSD, a contestação dos valores tradicionais e a procura por outras formas de espiritualidade alimentavam a imaginação de uma geração que acreditava estar diante de uma revolução cultural. Donovan, cantor e compositor escocês inicialmente associado à tradição folk, estava no centro dessa transformação.
Mas, enquanto boa parte da música psicodélica celebrava a liberdade, as cores e a expansão da consciência, Season of the Witch parecia desconfiar de tudo aquilo. Havia algo sombrio naquele universo de descobertas. E Donovan conseguiu transformá-lo em música.

O lado sombrio de Sunshine Superman
Season of the Witch foi lançada em agosto de 1966, no álbum Sunshine Superman, um dos trabalhos fundamentais da fase psicodélica de Donovan. Produzido por Mickie Most, o disco representou uma mudança importante na carreira do músico, incorporando guitarras elétricas, instrumentos pouco convencionais e arranjos que ampliavam as possibilidades do folk britânico.
A faixa-título apresentava um universo luminoso, quase eufórico, repleto de referências à cultura pop e ao imaginário psicodélico. Season of the Witch, entretanto, parecia revelar o outro lado da experiência. Em lugar da confiança, surgia a suspeita. Em vez da liberdade absoluta, a impressão de estar sendo observado.
Musicalmente, a diferença é fascinante. A canção se desenvolve sobre uma estrutura repetitiva, sustentada por guitarra elétrica, baixo, bateria e órgão. Não há necessidade de uma melodia grandiosa nem de mudanças dramáticas para produzir tensão. A repetição cria uma espécie de transe, enquanto a voz de Donovan parece oscilar entre a curiosidade e a inquietação.
São quase cinco minutos em que a atmosfera importa tanto quanto as palavras. A música parece avançar sem encontrar uma saída definitiva, como se o ouvinte estivesse preso num pensamento recorrente. Esse caráter hipnótico é parte essencial de sua identidade e ajuda a explicar por que ela envelheceu tão bem.
Curiosamente, embora a canção tenha sido lançada por um artista britânico, sua gravação aconteceu em Hollywood, durante as sessões americanas de Sunshine Superman. A produção incorporou músicos ligados à cena local, reforçando a aproximação de Donovan com o rock elétrico. O álbum chegou primeiro aos Estados Unidos; disputas contratuais atrasaram seu lançamento no Reino Unido até 1967.
A paranoia por trás da bruxaria
O aspecto mais interessante de Season of the Witch está na maneira como a letra sugere ameaças sem jamais identificá-las claramente. Donovan observa o mundo à sua volta e percebe que as pessoas parecem diferentes, que as identidades são instáveis e que alguma coisa estranha está acontecendo.
Não existem descrições de rituais, feitiços ou mulheres condenadas por bruxaria. A palavra witch funciona muito mais como uma metáfora para um estado de espírito.
A música nasceu num período em que a promessa de liberdade da contracultura começava a conviver com tensões políticas, conflitos sociais e uma crescente desconfiança das instituições. A Guerra do Vietnã, a vigilância sobre movimentos contestatórios e a transformação da própria cultura jovem criavam um ambiente em que a liberdade parecia acompanhada por novas formas de medo.
É tentador interpretar a canção como uma antecipação do fim da inocência dos anos 1960. A violência que marcaria o final da década ainda não havia atingido seu ponto máximo, mas a ideia de que alguma coisa estava errada já fazia parte daquele universo.
Donovan não precisava explicar exatamente o que estava acontecendo. A força da composição está na ambiguidade. O perigo pode vir de fora, mas também pode estar na própria percepção de quem observa.
É uma característica que aproxima Season of the Witch do terror psicológico. Nem sempre precisamos enxergar uma ameaça para sentir medo. Às vezes, basta perceber que o ambiente familiar deixou de oferecer segurança.

Como a canção se transformou num clássico
Season of the Witch não se tornou um fenômeno cultural apenas pela gravação original. Sua estrutura aberta, a repetição hipnótica e a atmosfera inquietante permitiram que músicos de estilos muito diferentes encontrassem novas interpretações para a composição.
Entre as versões mais importantes está a gravação de Al Kooper e Stephen Stills, lançada no álbum Super Session, de 1968. Mais longa e instrumentalmente expansiva, ela transforma a tensão original numa experiência de blues-rock psicodélico, marcada por improvisações.
O grupo Vanilla Fudge também explorou as possibilidades dramáticas da música, enquanto artistas como Joan Jett, Dr. John, Robert Plant e Richard Thompson contribuíram, em momentos distintos, para manter a composição em circulação.
Essa diversidade revela algo importante: Season of the Witch nunca dependeu inteiramente de uma determinada estética. Pode soar como blues, rock psicodélico, folk sombrio ou uma experiência quase gótica. O elemento que sobrevive é a sensação de que existe alguma coisa ameaçadora sob a superfície.
E poucas canções oferecem uma atmosfera tão imediatamente reconhecível.
Quando o cinema descobriu Season of the Witch
A música não precisou nascer como um hino de Halloween para encontrar seu lugar no cinema. Muito antes de as bruxas voltarem ao centro da cultura pop, Season of the Witch já era utilizada para sugerir ambientes inquietantes, comportamentos ambíguos e um perigo que nem sempre precisava aparecer na tela.
A gravação de Donovan foi utilizada em filmes tão diferentes quanto Um Sonho sem Limites (To Die For, 1995), de Gus Van Sant, The Wackness (2008) e Os Outros Caras (The Other Guys, 2010). São produções que não pertencem propriamente ao universo da bruxaria, mas que encontraram na atmosfera da canção uma maneira de acrescentar estranhamento às imagens. Em Blues Brothers 2000 (1998), foi a interpretação do Dr. John que levou a composição para outro território musical.
A ligação com o sobrenatural tornou-se ainda mais evidente com produções como American Horror Story: Coven, em 2013, quando o universo das bruxas voltou a ocupar um espaço importante no imaginário televisivo. Já o trailer de Malévola: Dona do Mal, lançado em 2019, encontrou na composição uma trilha perfeita para o retorno da personagem interpretada por Angelina Jolie. Uma versão mais sombria e cinematográfica da música acompanhava imagens de magia, ameaças e conflitos entre mulheres poderosas.
O caso de Malévola é particularmente revelador. A canção de Donovan não fala de bruxas no sentido tradicional, mas seu título e sua atmosfera parecem feitos para uma personagem que passou de vilã clássica da Disney a figura mais ambígua, marcada por ressentimento, poder e desejo de proteção.
Essa capacidade de adquirir novos significados explica por que a composição continua tão atraente para cineastas e responsáveis por trailers. Ela não precisa explicar a história. Basta alguns acordes para estabelecer que alguma coisa está fora do lugar.

Lana Del Rey e a redescoberta da magia
Em 2019, Lana Del Rey apresentou uma nova versão de Season of the Witch para Histórias Assustadoras para Contar no Escuro (Scary Stories to Tell in the Dark), dirigido por André Øvredal e produzido por Guillermo del Toro.
A escolha parecia inevitável. Lana construiu boa parte de sua identidade musical explorando a nostalgia americana, a melancolia, o romantismo e o lado sombrio de imagens aparentemente perfeitas. Sua interpretação acrescentou uma dimensão etérea, quase fantasmagórica, a uma composição que já carregava uma inquietação natural.
Enquanto a gravação original pertence ao universo psicodélico dos anos 1960, a de Lana parece saída de um sonho perturbador. Sua voz transforma a paranoia em sedução, como se o perigo estivesse sendo anunciado por alguém que já conhece seu resultado.
A presença da música no filme também foi particularmente significativa. Ambientada em 1968, a história estabelece uma ligação com a época de Donovan, enquanto a releitura de Lana aproxima a canção de outra geração.
Mas a história não terminou ali. Em 2026, justamente no aniversário de 60 anos da composição, a versão de Lana Del Rey voltou a ganhar destaque no material promocional de Da Magia à Sedução 2 (Practical Magic 2), sequência que reúne Sandra Bullock e Nicole Kidman como as irmãs Sally e Gillian Owens.
A escolha parece especialmente apropriada. O universo de Practical Magic é construído sobre uma tradição de mulheres que herdaram poderes extraordinários, mas também uma maldição familiar. A magia é uma promessa de liberdade e, ao mesmo tempo, uma herança da qual ninguém consegue escapar completamente.
É curioso pensar que uma canção originalmente associada à paranoia dos anos 1960 possa agora acompanhar uma história sobre irmandade, amor e transmissão de poder feminino entre gerações. O significado da música mudou, mas sua capacidade de provocar inquietação permaneceu.

Alanis Morissette e uma nova temporada das bruxas
Lana Del Rey não foi a única artista a recuperar Season of the Witch. Em setembro de 2026, Alanis Morissette apresentou sua própria interpretação da composição, utilizada no trailer de Yaga, série do AMC+ inspirada na figura de Baba Yaga, a misteriosa personagem do folclore eslavo.
Estrelada por Carrie-Anne Moss, Noah Reid, Clark Backo e Hudson Williams, a produção transporta o mito para um suspense contemporâneo sobre desaparecimentos, segredos e magia. A estreia está marcada para 23 de outubro, justamente na semana que antecede o Halloween.
A versão de Alanis reforça uma característica fundamental da canção: sua capacidade de se adaptar a diferentes vozes femininas e a novas leituras do sobrenatural. Se Donovan transformava a desconfiança em psicodelia e Lana Del Rey acrescentava uma melancolia quase sedutora, Alanis encontra outro caminho para explorar a tensão.
A coincidência temporal é extraordinária. Sessenta anos depois de seu lançamento, Season of the Witch acompanha simultaneamente o retorno de uma franquia sobre irmãs bruxas e a chegada de uma nova interpretação televisiva de Baba Yaga.
Não é apenas nostalgia. É uma demonstração de que a música continua oferecendo uma linguagem perfeita para representar aquilo que não conseguimos explicar inteiramente.
A bruxa como símbolo cultural
Existe uma razão para que o título Season of the Witch tenha adquirido tamanho poder no imaginário popular. A bruxa é uma das figuras mais persistentes da cultura ocidental, atravessando séculos como representação do medo, da transgressão, do conhecimento proibido e, mais recentemente, da autonomia feminina.
Em diferentes momentos da história, mulheres consideradas perigosas, independentes ou simplesmente diferentes foram associadas à bruxaria. A cultura popular transformou essa figura tanto numa ameaça quanto num símbolo de resistência.
A música de Donovan não desenvolve diretamente essa discussão, mas sua ambiguidade permite que o título seja constantemente reinterpretado.
É curioso observar como uma composição nascida da desconfiança e da instabilidade dos anos 1960 acabou incorporada a uma celebração que transformou o sobrenatural em entretenimento. Halloween, bruxas, fantasmas e monstros passaram a formar um universo no qual Season of the Witch encontrou uma segunda vida.
O cinema também ajudou a popularizar a expressão. O título aparece em obras como Halloween III: Season of the Witch (1982) e no filme Season of the Witch (1972), de George A. Romero, embora essas produções não sejam adaptações da canção. A coincidência reforça como a expressão passou a circular no imaginário do horror, independentemente da composição de Donovan.
Mas talvez a explicação para sua permanência seja mais simples: Season of the Witch consegue criar uma sensação de ameaça sem precisar mostrar nada.

Sessenta anos depois, o feitiço continua
Em 2026, Season of the Witch completa 60 anos num mundo bastante diferente daquele em que foi composta. A psicodelia deixou de ser uma revolução, o folk elétrico já não provoca escândalos e o Halloween se tornou um gigantesco acontecimento comercial, alimentado por filmes, séries, música e redes sociais.
Ainda assim, a canção continua surpreendentemente atual.
Talvez porque sua verdadeira matéria-prima nunca tenha sido a bruxaria, mas a desconfiança. A impressão de que estamos cercados por pessoas cujas intenções desconhecemos, de que o mundo familiar pode mudar de repente e de que a ameaça nem sempre possui uma forma identificável.
A música que nasceu num período de transformação cultural continua encontrando significado numa sociedade marcada por inseguranças, desinformação e uma permanente sensação de instabilidade.
É claro que existe também o prazer de simplesmente ouvi-la. Aquela guitarra insistente, o órgão sombrio, a voz de Donovan e um ritmo que parece nunca chegar a uma conclusão definitiva fazem da composição uma experiência musical extraordinária.
Mas há algo ainda mais interessante em sua trajetória. Uma canção que não falava exatamente de bruxas acabou se tornando uma das melhores maneiras de anunciar sua chegada.
Sessenta anos depois, a temporada das bruxas continua começando quando Donovan começa a cantar.
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