Orgulho e Preconceito: por que só se fala do novo Darcy?

É uma verdade universalmente reconhecida que nenhuma geração consegue resistir a uma nova adaptação de Orgulho e Preconceito. Jane Austen publicou seu romance em 1813 e, mais de dois séculos depois, Elizabeth Bennet e Mr. Darcy continuam despertando a mesma curiosidade, o mesmo romantismo e as inevitáveis comparações com aqueles que já interpretaram um dos casais mais queridos da literatura. A Netflix sabe disso e resolveu brincar com a ansiedade dos fãs: nesta terça-feira, 27 de outubro, divulgou um novo pôster da minissérie com Emma Corrin e Jack Lowden, anunciando que o trailer completo chega amanhã, 28 de outubro.

A provocação foi perfeita: Ardently waiting?, uma referência à célebre declaração apaixonada de Darcy. A nova adaptação estreia em 3 de dezembro, terá seis episódios, roteiro de Dolly Alderton e direção de Euros Lyn, de Heartstopper. A promessa é de uma versão fiel ao romance original, mas o que mais me chama a atenção, às vésperas do trailer, não é exatamente a expectativa em torno de Mr. Darcy. É a relativa tranquilidade com que estamos recebendo a escolha de Emma Corrin para interpretar Elizabeth Bennet.

E, pensando bem, talvez exista uma boa razão para isso. Emma Corrin é um talento extraordinário, uma atriz que, em pouquíssimos anos, demonstrou uma versatilidade impressionante e que, para mim, está se tornando uma espécie de Jodie Foster de sua geração. E faço essa comparação com todos os elogios que ela merece. Há uma inteligência nas escolhas e na maneira como Corrin constrói seus personagens que vai muito além da aparência ou da capacidade de reproduzir uma época.

Basta lembrar sua estreia de grande repercussão como a jovem princesa Diana em The Crown. Corrin assumiu uma personagem que o mundo inteiro acreditava conhecer e conseguiu apresentar uma Diana vulnerável, carismática e profundamente humana, conquistando o Globo de Ouro por sua interpretação. Dali, passou para O Amante de Lady Chatterley, adaptação do romance de D. H. Lawrence, enfrentando uma personagem que descobre sua sexualidade e desafia as convenções sociais. Também esteve ao lado de Harry Styles em My Policeman, outro drama literário sobre desejo e repressão, e protagonizou o mistério Assassinato no Fim do Mundo, antes de se transformar na ameaçadora Cassandra Nova de Deadpool & Wolverine.

É uma trajetória que mostra como Corrin consegue passar da fragilidade à perversidade, do desejo à contenção, da delicadeza à ameaça sem perder a complexidade de seus personagens. E, convenhamos, depois de Lady Chatterley, Elizabeth Bennet representa quase o extremo oposto no terreno da sexualidade. Lizzie é espirituosa, independente e emocionalmente intensa, mas vive num universo em que praticamente tudo precisa ser sugerido, reprimido ou interpretado por meio de olhares e conversas. A sensualidade, quando existe, está muito mais no que não se diz do que naquilo que se permite demonstrar.

Não tenho dúvidas de que Emma Corrin conseguirá trabalhar com essas camadas. E, se Dolly Alderton decidir modernizar um pouco Elizabeth, acredito que Corrin tenha inteligência suficiente para preservar a essência da personagem, mesmo diante de escolhas discutíveis do roteiro.

Porque é justamente aí que começa minha maior preocupação com essa nova adaptação.

Até onde uma adaptação pode ser fiel a Jane Austen?

A Netflix promete uma versão fiel ao romance original, mas também admite algumas liberdades criativas. É uma combinação que merece atenção, especialmente depois do que a própria plataforma fez com Persuasão, em 2022.

Anne Elliot sempre foi minha personagem favorita de Jane Austen, até mesmo antes de Elizabeth Bennet. E talvez por isso tenha sido particularmente difícil assistir à adaptação estrelada por Dakota Johnson, que alterou de maneira tão radical a personalidade de Anne que, em vários momentos, parecia estar contando a história de outra mulher. A introspecção, a melancolia e a maturidade emocional que tornam Anne uma personagem tão extraordinária foram substituídas por uma protagonista excessivamente moderna, irônica e expansiva. Não se tratava apenas de atualizar a linguagem ou modificar algumas situações, mas de transformar características fundamentais da personagem.

É claro que toda adaptação precisa dialogar com o momento em que é realizada. Nenhuma produção de 2026 poderá reproduzir exatamente a maneira como leitores de 1813 compreendiam casamento, posição social, dinheiro e as limitações impostas às mulheres. Mas existe uma diferença importante entre oferecer uma nova perspectiva e alterar a natureza da obra.

Recentemente, tive uma surpresa positiva com East of Eden, adaptação de John Steinbeck desenvolvida por Zoe Kazan. Confesso que estava bastante desconfiada da decisão de colocar Cathy Ames no centro da narrativa, especialmente porque estamos falando de uma das personagens mais perversas da literatura americana. A série relativiza alguns aspectos de Cathy e procura oferecer uma perspectiva que, em determinados momentos, quase justifica seus comportamentos. Ainda assim, Kazan conseguiu preservar elementos essenciais da história e apresentar uma releitura que funciona dramaticamente, mesmo que os puristas tenham razões para questionar suas escolhas.

É esse equilíbrio que espero encontrar em Orgulho e Preconceito. Modernizar não precisa significar descaracterizar, assim como respeitar o romance original não exige reproduzir cada diálogo ou situação. A questão está em compreender por que os personagens são como são e o que se perde quando suas contradições são simplificadas para atender à sensibilidade contemporânea.

Elizabeth Bennet, afinal, já era uma personagem extraordinariamente moderna em 1813. Não precisamos transformá-la numa mulher do século 21 para compreender sua independência, sua inteligência ou sua recusa em aceitar um casamento que considera inadequado. O que torna Lizzie fascinante é justamente a maneira como enfrenta as convenções de seu tempo sem estar completamente livre delas.

E há outra questão essencial: Elizabeth também erra. Ela é inteligente, mas orgulhosa, espirituosa, mas capaz de julgar injustamente aqueles que a cercam. Sua transformação é tão importante quanto a de Darcy, e qualquer adaptação que transforme Lizzie numa heroína perfeita acaba perdendo uma das maiores qualidades do romance.

Um elenco que pode ser a grande atração da série

Se ainda existem dúvidas sobre o tratamento que Dolly Alderton dará à história, o elenco é um motivo extraordinário para acompanhar a produção. E, começando pela família Bennet, a Netflix parece ter acertado em cheio.

Olivia Colman como Mrs. Bennet é uma escolha deliciosa. A personagem pode facilmente se tornar uma caricatura, com sua obsessão em casar as filhas, suas indiscrições e suas crises nervosas, mas Colman tem justamente a capacidade de combinar comédia e vulnerabilidade sem perder o senso de humanidade. Imagino que sua Mrs. Bennet será divertidíssima, especialmente nas cenas em que tenta administrar a vida amorosa das cinco filhas.

E colocar Rufus Sewell como Mr. Bennet ao seu lado é quase uma garantia de bons momentos. Sewell, que está maravilhoso como Hal Wyler em A Diplomata, tem uma ironia natural e uma presença que combinam perfeitamente com o pai de Elizabeth, um homem que prefere observar os absurdos da própria família a tentar corrigi-los. A combinação entre o humor ácido de Sewell e a energia de Colman promete transformar Longbourn num dos lugares mais divertidos da série.

Mas não é apenas a família Bennet que merece atenção. Fiona Shaw interpretará Lady Catherine de Bourgh, a tia aristocrática de Darcy, uma mulher autoritária, esnobe e absolutamente convencida de sua superioridade social. Sou uma admiradora incondicional de Fiona Shaw, que, para mim, frequentemente era a melhor coisa de Killing Eve e esteve espetacular em Andor. Ela tem uma capacidade rara de dominar uma cena com um olhar ou uma pequena alteração de voz, e dificilmente consigo imaginar alguém mais adequado para representar a arrogância de Lady Catherine.

Outro nome particularmente interessante é Louis Partridge como George Wickham, o jovem oficial que conquista a simpatia de Elizabeth e contribui para alimentar sua antipatia inicial por Darcy. Wickham precisa ser bonito, charmoso e suficientemente convincente para que tanto Lizzie quanto o público tenham dificuldade em perceber seu oportunismo. Partridge já demonstrou habilidade para interpretar personagens sedutores e ambíguos, e sua aparência quase angelical pode funcionar muito bem para um homem cuja principal arma é justamente parecer mais confiável do que realmente é.

Não estamos falando de um vilão convencional, embora Wickham cometa atos bastante graves. Ele representa a facilidade com que podemos confundir charme com caráter, e sua relação com Elizabeth é fundamental para o desenvolvimento do romance. Durante parte da história, ele funciona como uma alternativa romântica a Darcy, antes que suas verdadeiras intenções sejam reveladas e sua fuga com Lydia provoque um escândalo familiar.

E ainda temos Jamie Demetriou como Mr. Collins, o primo dos Bennet e pároco que consegue ser simultaneamente pomposo, inconveniente e absolutamente incapaz de perceber o próprio ridículo. É um papel maravilhoso para um comediante, mas também exige cuidado para não transformar Collins numa caricatura sem graça. Lembro especialmente de Matt Smith interpretando o personagem em Orgulho e Preconceito e Zumbis, uma versão que soube explorar o absurdo de sua personalidade. Demetriou tem experiência suficiente em comédia para encontrar seu próprio caminho, e estou particularmente curiosa para vê-lo contracenando com Olivia Colman.

O restante do elenco também é promissor, com Freya Mavor como Jane Bennet, Daryl McCormack como Mr. Bingley, Rhea Norwood como Lydia e Siena Kelly como Caroline Bingley. São personagens que podem parecer secundários diante do casal principal, mas que ajudam a construir a crítica social de Austen, especialmente quando observamos as diferentes maneiras pelas quais as mulheres procuram garantir seu futuro numa sociedade que lhes oferece poucas alternativas.

E quanto ao novo Mr. Darcy?

É claro que Jack Lowden continua sendo uma das grandes atrações da série. Mas já escrevi anteriormente que seu maior desafio talvez nem seja interpretar James Bond, papel para o qual seu nome vem sendo constantemente lembrado, e sim assumir Mr. Darcy depois de Colin Firth e Matthew Macfadyen. Não vou repetir aqui uma discussão que inevitavelmente voltará quando tivermos mais cenas da nova adaptação.

O que me interessa agora é justamente a diferença entre a expectativa em torno dos dois protagonistas. Enquanto boa parte dos comentários se concentra na possibilidade de Lowden convencer como Darcy, Emma Corrin parece ter recebido um voto antecipado de confiança. Talvez porque sua trajetória já tenha demonstrado uma capacidade impressionante de interpretar personagens literários e históricos, ou porque Elizabeth Bennet seja uma figura que comporta leituras diferentes sem perder sua força.

Jennifer Ehle e Keira Knightley apresentaram duas Lizzies bastante distintas e igualmente memoráveis. Ehle privilegiava a inteligência, a ironia e a segurança de uma jovem que compreendia perfeitamente as regras sociais, mesmo quando decidia desafiá-las. Knightley trouxe uma inquietação mais romântica e impulsiva, acompanhando o tom cinematográfico escolhido por Joe Wright. Nenhuma das duas precisou transformar Elizabeth numa personagem irreconhecível para encontrar sua própria interpretação.

É exatamente isso que espero de Emma Corrin.

Talvez o maior desafio de Dolly Alderton e Euros Lyn não seja convencer o público de que Jack Lowden pode ser um novo Darcy, mas demonstrar que ainda existe algo relevante a descobrir numa história adaptada tantas vezes. E, se conseguirem preservar o humor, a inteligência e as contradições de Jane Austen, já terão realizado boa parte desse trabalho.

O trailer de amanhã poderá oferecer as primeiras pistas sobre o tom da produção e sobre a química entre os protagonistas. Mas, desta vez, enquanto todos procuram descobrir se o novo Darcy será irresistível, prefiro prestar atenção em Elizabeth Bennet, na família extraordinária que a cerca e nas escolhas que definirão essa nova interpretação.

Porque, por mais que Mr. Darcy tenha se transformado num dos maiores símbolos românticos da literatura, Jane Austen escreveu a história de Elizabeth Bennet. E seria bom que a Netflix não se esquecesse disso.


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