Rent, 30 anos: de La bohème à revolução na Broadway

O concerto de celebração dos 30 anos de Rent, no Richard Rodgers Theatre, na Broadway, em 26 de outubro, tem um significado especial para quem acompanhou o musical desde o início. Com integrantes do elenco original e convidados, a apresentação foi organizada em benefício da Broadway Cares/Equity Fights AIDS, uma escolha inseparável da história que Jonathan Larson levou ao palco. Para mim, a reunião também recupera uma lembrança preciosa: vi aquele elenco quando o espetáculo chegou à Broadway, antes de ganhar o Tony. Foi uma experiência incrível.

Havia algo de Hair naquela energia, na juventude ocupando o palco, na liberdade sexual e na maneira como um grupo de pessoas se reconhecia como comunidade. Ao mesmo tempo, Rent tinha a estrutura romântica de La bohème, de Giacomo Puccini, transportada para uma Nova York em que a aids tornava o futuro uma possibilidade incerta. E tinha, sobretudo, canções e letras lindas. A força do espetáculo estava nessa combinação, que permitia falar de doença, pobreza, desejo e morte sem perder o humor ou o prazer de estar vivo.

A estreia oficial na Broadway aconteceu em 29 de abril de 1996, no Nederlander Theatre. Hoje, com o musical incorporado à história do teatro, é difícil recuperar a sensação de encontrá-lo antes de toda essa consagração. Mas tive esse privilégio. Anthony Rapp, Adam Pascal, Daphne Rubin-Vega, Idina Menzel, Jesse L. Martin, Wilson Jermaine Heredia, Fredi Walker e Taye Diggs estavam ali, juntos, em uma montagem que ainda seria premiada e atravessaria décadas.

É preciso lembrar também da febre que foi Rent. Havia algo daquele fenômeno de Hair, de um espetáculo que ultrapassava o teatro e se tornava um acontecimento cultural. As grandes estrelas iam assistir, e a plateia podia ser tão surpreendente quanto o palco: Prince esteve por lá, assim como os Clinton. Todo mundo queria ver aqueles jovens que estavam transformando a Broadway. Para mim, uma mobilização comparável só voltaria a acontecer quase vinte anos depois, com Hamilton, quando novamente um musical parecia concentrar a conversa e despertar a curiosidade até de quem não acompanhava teatro.

O filme de 2005, dirigido por Chris Columbus, não conseguiu reproduzir essa dimensão do fenômeno. Reuniu boa parte do elenco original, com Rosario Dawson como Mimi e Tracie Thoms como Joanne, mas a passagem para o cinema perdeu muito daquela eletricidade que fazia a experiência no teatro ser tão especial. As canções continuavam lindas, e rever aqueles intérpretes tinha um valor afetivo, mas o filme não provocou uma febre equivalente à que o espetáculo havia despertado.

Talvez por isso quem conheceu Rent apenas pelo cinema tenha dificuldade de imaginar o que foi sua chegada à Broadway. Havia uma relação entre aqueles artistas, aquele momento e a plateia que a câmera não conseguiu recuperar inteiramente. A proximidade fazia diferença: o palco era ocupado por personagens que discutiam como sobreviver naquela mesma cidade em que, do lado de fora, as pessoas disputavam um ingresso para ouvi-los.

A relação com La bohème é essencial para entender por que Rent emocionava tanto, mesmo com uma linguagem que parecia romper com o musical tradicional. Larson encontrou na ópera de Puccini uma história que podia conversar diretamente com seu tempo: jovens artistas tentando sobreviver, criar e amar em uma cidade que oferece possibilidades, mas cobra caro por elas. A Paris do século 19 se transforma no East Village nova-iorquino, enquanto a tuberculose dá lugar ao HIV e à aids. O medo de perder alguém continua atravessando o cotidiano.

As aproximações vão além do ambiente. A Mimi de Puccini reaparece em Rent, assim como o encontro provocado por uma vela apagada, transformado em “Light My Candle”. O poeta Rodolfo dá lugar ao músico Roger, e a relação entre Marcello e Musetta encontra ecos nas brigas e reconciliações de Maureen e Joanne. Larson preserva situações reconhecíveis, mas altera os personagens, seus vínculos e as questões que os cercam. A boemia passa a incluir outras sexualidades, outras formas de constituir uma família e uma epidemia também marcada pelo preconceito.

É uma releitura que compreende o que havia de contemporâneo na própria ópera. Por trás do romantismo de La bohème, estão o aluguel, o frio, a fome e a dificuldade de cuidar de alguém quando mal se consegue sobreviver. Rent recupera essa dimensão material desde o título. Seus personagens podem discutir arte e liberdade, mas precisam de um lugar onde morar. A cidade que alimenta a criação também ameaça expulsar quem a torna interessante.

A associação com Hair, para mim, vem da força coletiva. Existe uma energia de contestação que passa pelos corpos, pelas vozes e pelo direito de ocupar aquele espaço. Mas, em Rent, a ameaça entra também no quarto, na relação amorosa, no resultado de um exame. Fazer planos exige conviver com a possibilidade de não conseguir realizá-los, e isso dá às canções uma urgência particular.

“One Song Glory” é um dos exemplos mais bonitos. Roger quer escrever uma música que permaneça depois dele, um desejo de realização que se mistura ao medo de não ter tempo. “Without You” encontra na ausência uma maneira de falar da continuidade da vida, enquanto “I’ll Cover You”, retomada em outro contexto, transforma a promessa amorosa em uma experiência dolorosa de luto. A música acompanha o que acontece com aquelas pessoas e muda de significado junto com elas.

Já “Seasons of Love” acabou adquirindo uma vida própria, conhecida mesmo por quem nunca assistiu ao espetáculo. Sua pergunta sobre como medir um ano ganha outra dimensão dentro da história. Para personagens que convivem tão de perto com a morte, contar o tempo em minutos parece insuficiente. O amor aparece como uma medida possível daquilo que se viveu, com toda a fragilidade que isso implica.

É impossível ouvir essa pergunta sem pensar em Jonathan Larson. O autor morreu aos 35 anos, em janeiro de 1996, antes da primeira prévia off-Broadway. Não acompanhou a chegada do espetáculo à Broadway nem a consagração que veio depois. Saber disso torna especialmente comovente o desejo de Roger de deixar uma canção, embora a obra de Larson tenha uma vitalidade que vai muito além da tragédia de sua morte.

Trinta anos também permitem enxergar as contradições de Rent, inclusive a romantização da boemia e o egoísmo que por vezes se esconde sob o discurso de liberdade de seus personagens. Isso não diminui minha lembrança. Talvez até a torne mais interessante, porque aquelas pessoas podiam ser difíceis, injustas e imaturas sem perder o direito de serem amadas.

Quando penso naquele elenco original, antes do Tony, lembro da combinação que me conquistou: o espírito de Hair, a emoção de La bohème e uma música que parecia pertencer inteiramente àquele momento. Trinta anos depois, ainda volto às canções. Elas guardam muito do que senti naquela plateia e continuam encontrando outras coisas para me dizer.


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