Orgulho e Preconceito: o que o novo trailer revela sobre Austen

Há uma responsabilidade quase cruel em adaptar Orgulho e Preconceito. Jane Austen escreveu um romance que atravessou mais de dois séculos sem perder a ironia, a inteligência e a extraordinária capacidade de revelar as contradições humanas. Para complicar, duas adaptações se tornaram referências praticamente incontornáveis: a minissérie de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle, e o filme de 2005, com Matthew Macfadyen e Keira Knightley. A Netflix sabe que não basta apresentar uma nova Elizabeth Bennet e um novo Fitzwilliam Darcy. Precisa convencer o público de que existe alguma coisa a acrescentar a uma história que todos acreditam conhecer de cor.

O primeiro trailer completo, divulgado nesta quarta-feira, 28 de outubro, sugere que a plataforma encontrou uma solução visual bastante inteligente: aproximar-se da estética cinematográfica de 2005, sem abandonar a promessa de fidelidade ao romance original. E preciso admitir que a fotografia é absolutamente divina.

Os campos verdes, a luz natural, os interiores iluminados com delicadeza e os cabelos ligeiramente desalinhados remetem imediatamente ao universo criado por Joe Wright há 21 anos. A casa dos Bennet parece até um pouco mais luxuosa do que a propriedade desorganizada e quase rural do filme, mas conserva aquela impressão de uma família que efetivamente vive nos ambientes, em vez de simplesmente desfilar por cenários históricos impecáveis.

Historiadores e puristas poderão reclamar de alguns detalhes, como já aconteceu com a versão de 2005. Mas existe uma diferença entre a fidelidade histórica e a capacidade de transformar uma época em uma experiência emocional. O filme de Wright compreendeu isso perfeitamente, e a nova série parece seguir o mesmo caminho.

Jack Lowden entre dois Darcys

Como já comentamos anteriormente, Jack Lowden é provavelmente o ator que enfrenta o maior desafio desta produção. Emma Corrin precisa conquistar o público como Elizabeth, mas Lowden terá de conviver com dois fantasmas particularmente difíceis de superar.

Colin Firth transformou Darcy em um homem orgulhoso, esnobe e inicialmente quase desagradável, cuja transformação emocional se revelava aos poucos. Matthew Macfadyen preferiu um personagem socialmente desajeitado, tímido e desconfortável com os próprios sentimentos. O primeiro precisava aprender a reconhecer seus preconceitos de classe; o segundo parecia precisar descobrir como expressar aquilo que sentia.

Pelo trailer, Lowden procura um meio-termo. Seu Darcy é fechado, contido e aparentemente pouco disposto a revelar qualquer emoção, mas não parece reproduzir integralmente nem a arrogância de Firth nem a vulnerabilidade de Macfadyen. É uma interpretação que pode funcionar, sobretudo porque o personagem de Austen é mais complexo do que a imagem do aristocrata incapaz de declarar seu amor.

Darcy precisa perceber que sua posição social não o torna moralmente superior aos demais. Elizabeth, por sua vez, precisa reconhecer que sua inteligência e sua capacidade de julgamento também podem conduzi-la a conclusões equivocadas. O romance depende dessa transformação dos dois, algo que às vezes se perde quando as adaptações privilegiam apenas a tensão romântica.

Emma Corrin pode surpreender

Já Emma Corrin começa a me convencer de que poderá, sim, ofuscar Keira Knightley. E isso não é pouca coisa.

Knightley ofereceu uma Elizabeth cheia de energia, espontaneidade e uma irreverência quase contemporânea, enquanto Jennifer Ehle havia construído uma personagem mais próxima da elegância e da ironia contida de Austen. Corrin parece buscar outro caminho, combinando uma presença mais introspectiva com a vivacidade necessária para interpretar uma mulher que observa o mundo à sua volta com uma inteligência frequentemente desconcertante.

O trailer sugere uma Elizabeth menos expansiva, mas não menos desafiadora. Será importante descobrir se essa contenção consegue preservar o humor da personagem, porque a graça de Lizzie não está simplesmente em desafiar as convenções sociais. Está em acreditar que compreende perfeitamente as pessoas, até descobrir que também pode estar errada.

Há, porém, uma escolha que não me entusiasma particularmente: a imagem de Jane e Elizabeth sentadas no telhado da casa, conversando sobre o futuro. Compreendo o desejo de traduzir a intimidade das irmãs para uma linguagem visual mais próxima do público contemporâneo, mas a cena parece um daqueles recursos usados para anunciar a modernidade de uma adaptação histórica.

Austen não precisa que suas personagens sejam colocadas em situações visualmente modernas para demonstrar como suas preocupações continuam atuais. Suas mulheres já eram suficientemente interessantes, independentes em pensamento e conscientes das limitações impostas pela sociedade em que viviam.

Olivia Colman já parece ter conquistado a série

Se existe uma presença que parece absolutamente perfeita no trailer, é Olivia Colman como a Sra. Bennet. Basta ouvi-la pronunciar as frases mais conhecidas da personagem para perceber como o texto de Austen pode soar deliciosamente natural quando entregue a uma atriz capaz de dominar o humor sem transformar tudo em caricatura.

A Sra. Bennet é uma figura frequentemente tratada como inconveniente, exagerada e histérica, mas sua preocupação com o casamento das cinco filhas tem um fundamento bastante concreto. Sem um herdeiro homem, a propriedade da família está destinada a outro parente, e o futuro das meninas depende de casamentos financeiramente favoráveis.

É justamente essa combinação de comicidade e desespero que torna a personagem tão interessante. Olivia Colman pode recuperar a dimensão humana de uma mulher que parece ridícula porque expressa abertamente preocupações que os demais preferem disfarçar.

Rufus Sewell, irreconhecível como o Sr. Bennet, completa uma dupla promissora. Seu personagem é admirado pelo sarcasmo e pela inteligência, mas existe uma irresponsabilidade considerável por trás da maneira como se refugia na biblioteca e observa a própria família com ironia. A omissão paterna é uma das questões mais interessantes do livro e, com dois atores desse calibre, merece finalmente receber a atenção necessária.

Uma Austen mais inclusiva

Outro detalhe interessante é que o trailer não parece fazer da diversidade do elenco sua principal apresentação ao público, embora ela esteja claramente presente na produção. Daryl McCormack, ator de ascendência irlandesa e afro-americana, interpreta Charles Bingley, enquanto Anjana Vasan assume o papel da Sra. Gardiner.

A escolha de McCormack como Bingley é particularmente significativa porque o personagem pertence à classe dos homens ricos cuja chegada movimenta a sociedade de Hertfordshire. Sua presença em uma adaptação que promete fidelidade histórica certamente provocará debates sobre representação e autenticidade, especialmente entre os leitores mais rigorosos de Austen.

Há também uma diversidade de tipos físicos entre as irmãs Bennet, inclusive uma personagem com corpo fora do padrão de magreza frequentemente associado às heroínas dos dramas de época. São escolhas discretas, mas que sinalizam o desejo de atualizar a representação visual da sociedade retratada no romance.

Naturalmente, essas mudanças não garantem uma adaptação melhor ou pior. O que importa é que não se tornem mais relevantes do que as relações sociais, os conflitos econômicos e os preconceitos que sustentam a narrativa. Austen era uma observadora implacável das hierarquias de seu tempo, e a diversidade do elenco pode abrir possibilidades interessantes, desde que a série não tente transformar uma sociedade profundamente desigual em uma fantasia contemporânea de inclusão sem consequências.

A Netflix compreendeu Jane Austen?

Dolly Alderton, responsável pelos seis episódios, afirma que pretende manter a fidelidade ao romance e aproveitar a duração da minissérie para desenvolver personagens e histórias que costumam receber menos atenção nas adaptações anteriores. A direção é de Euros Lyn, e a estreia está marcada para 3 de dezembro.

É uma promessa interessante, especialmente porque Orgulho e Preconceito não se resume ao relacionamento entre Elizabeth e Darcy. Existe toda uma sociedade ao redor deles, com suas ambições, frustrações, pequenas crueldades e estratégias de sobrevivência. O oportunismo de Wickham, a arrogância de Lady Catherine, a bajulação do Sr. Collins e até a passividade de Jane são partes fundamentais da história.

A inclusão de Fiona Shaw como Lady Catherine e Louis Partridge como Wickham também desperta expectativas. Shaw tem a presença necessária para interpretar uma mulher absolutamente convencida de sua própria superioridade, enquanto Partridge possui o charme juvenil indispensável a um personagem cuja aparência agradável esconde intenções bastante menos nobres.

O trailer, naturalmente, prefere vender o romance. E não existe nada de errado nisso. A fotografia é maravilhosa, os figurinos são belíssimos e a tensão entre os protagonistas parece cuidadosamente construída. Mas a questão permanece: como justificar uma nova versão de uma história que já recebeu adaptações tão marcantes?

A minissérie de 1995 tinha tempo para desenvolver a ironia social de Austen, enquanto o filme de 2005 transformou o romance em uma experiência cinematográfica quase arrebatadora. A Netflix parece querer reunir essas duas qualidades, acrescentando uma sensibilidade contemporânea à representação dos personagens.

Pode dar muito certo. Pelo menos visualmente, a produção já conquistou minha atenção, Olivia Colman promete ser irresistível e Emma Corrin talvez esteja prestes a oferecer uma Elizabeth Bennet memorável. Quanto a Jack Lowden, continuo curiosa para descobrir se seu Darcy conseguirá sair da sombra de Firth e Macfadyen.

Afinal, Orgulho e Preconceito não é apenas a história de duas pessoas que se apaixonam apesar das diferenças. É a história de duas pessoas inteligentes que precisam descobrir o quanto estavam enganadas sobre si mesmas e sobre o mundo.

E essa continua sendo a verdadeira genialidade de Jane Austen: fazer o leitor se apaixonar enquanto desmonta, com uma ironia extraordinária, todas as certezas que costumamos ter sobre o amor.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário