Há atores que se tornam inseparáveis de um personagem. Patrick Stewart conseguiu isso com dois, em universos que atravessaram gerações, sem que nenhum deles fosse suficiente para explicar o tamanho de seu talento. Para milhões de pessoas, será eternamente o capitão Jean-Luc Picard. Para outras tantas, o professor Charles Xavier. Para quem o acompanhou no teatro, era também um daqueles grandes intérpretes capazes de fazer Shakespeare parecer uma conversa urgente sobre o presente. Sua morte, aos 86 anos, nos deixa com a sensação de que perdemos alguém que ainda tinha muito a dizer.
O ator morreu em 28 de outubro, em sua casa em Los Angeles, segundo o comunicado divulgado nesta quinta-feira, 29. A família informou que ele havia enfrentado Alzheimer e demência com corpos de Lewy e estava sob os cuidados da mulher, a cantora Sunny Ozell. A despedida aconteceu cercada pelo afeto de familiares e amigos, com música e lembranças de uma vida dedicada à arte.
Existe uma tristeza particular em pensar que ainda vamos encontrá-lo no cinema como Xavier em Avengers: Doomsday. A participação, agora póstuma, acrescenta uma dimensão dolorosa a um filme que já carrega a expectativa de reunir personagens e intérpretes de diferentes fases da Marvel. Vamos rever um rosto conhecido sabendo que aquele encontro tem uma finitude que nenhum multiverso consegue resolver.

Antes da Enterprise, Shakespeare
Nascido em Mirfield, Yorkshire, em 13 de julho de 1940, Stewart cresceu em condições difíceis, em uma casa marcada pela pobreza e pela violência do pai contra a mãe. Mais tarde, falaria publicamente sobre essa infância e se tornaria um defensor de vítimas de violência doméstica. A autoridade tranquila que tantas vezes projetou na tela foi construída por um homem que conhecia muito bem o medo dentro de casa.
Antes de alcançar o reconhecimento internacional, chegou a trabalhar como repórter. Escolheu o teatro e ingressou na Royal Shakespeare Company em 1966, construindo uma carreira que antecedeu em décadas a celebridade mundial. Esse percurso ajuda a entender sua precisão: Stewart sabia sustentar um pensamento, conduzir uma pausa e dar peso a uma palavra sem precisar sublinhar a própria importância.
Seu repertório passou por personagens como Cláudio, de Hamlet, e Macbeth, mas também por Dickens, na versão solo de Um Conto de Natal, e pelas inquietações de Beckett e Pinter. O palco permaneceu parte essencial de sua identidade mesmo depois que a televisão e o cinema fizeram dele uma figura reconhecida em qualquer lugar.
É possível perceber essa formação nas duas franquias que o consagraram. Stewart fazia com que dilemas de mundos distantes tivessem consequência humana. O texto podia falar de uma civilização alienígena ou de uma mutação genética; o que chegava até nós era o conflito de alguém tentando decidir como viver.
Picard e a inteligência como heroísmo
Quando assumiu o comando da Enterprise em Star Trek: The Next Generation, em 1987, Stewart já tinha uma longa trajetória profissional. A série durou sete temporadas, levou seu elenco a quatro filmes e estabeleceu uma ligação que ele retomaria décadas depois em Star Trek: Picard.
Picard tinha uma força muito particular. Sua autoridade estava na capacidade de escutar, argumentar e reconhecer a responsabilidade de uma decisão. Stewart tornava dramático o ato de pensar. Conseguia prender nossa atenção diante de uma questão ética com a mesma intensidade que outros atores precisavam de uma sequência de ação para alcançar.
Havia firmeza, mas também vulnerabilidade. Por trás da postura disciplinada, apareciam solidão, sofrimento e dúvidas. Era essa combinação que permitia acreditar naquele capitão: alguém que compreendia o peso do poder e precisava responder por ele. Em tempos tão fascinados pela brutalidade como demonstração de liderança, Picard continua fazendo falta também fora da ficção.

Xavier, Magneto e uma amizade que saiu da tela
Em 2000, Stewart encontrou outro personagem destinado a acompanhá-lo: Charles Xavier, o mentor dos X-Men. Ao lado do Magneto de Ian McKellen, ajudou a estabelecer o centro dramático de uma franquia sobre diferença, perseguição e convivência. Os dois davam densidade ao confronto porque faziam existir, por baixo da divergência, a memória de um afeto.
Era possível discordar profundamente de Magneto e compreender sua dor. Era possível admirar Xavier e questionar sua confiança na humanidade. Stewart e McKellen sustentavam essa ambiguidade com uma naturalidade que enriquecia tudo ao redor. Bastava colocá-los diante de um tabuleiro de xadrez para que uma conversa carregasse a tensão de uma batalha.
A amizade dos atores se aprofundou durante X-Men, embora eles já se conhecessem do teatro desde os anos 1970. Compartilhavam uma formação, experiências e um humor que acabariam conquistando também o público. McKellen chegou a celebrar o casamento de Stewart com Sunny Ozell, em 2013.
Juntos, levaram Esperando Godot, de Samuel Beckett, e No Man’s Land, de Harold Pinter, aos palcos. Ver aqueles dois grandes atores dividindo textos sobre espera, memória, envelhecimento e companhia acrescentava outra camada ao prazer do encontro. A cumplicidade que divertia nas fotografias e entrevistas tinha uma história de trabalho, admiração e convivência por trás.

O ator que também sabia inquietar
Seu alcance aparecia com clareza quando saía desses personagens acolhedores. Em Green Room, interpretou o líder de um grupo neonazista com uma frieza perturbadora. Muito antes, havia participado de Excalibur e vivido Gurney Halleck no Duna de David Lynch. Sua presença atravessava gêneros sem perder a capacidade de surpreender.
E havia seu senso de humor, que encontrava espaço também no trabalho de voz em American Dad! e Family Guy. Stewart tinha a liberdade de brincar com a solenidade que sua voz e sua imagem sugeriam. Sabia ser imponente, engraçado, ameaçador ou profundamente frágil.
Em Logan, essa fragilidade se tornou devastadora. Seu Xavier envelhecido, dependente e vulnerável retirava o personagem da segurança do mentor que sempre tinha uma resposta. A relação com o Wolverine de Hugh Jackman adquiria o desgaste e a intimidade de uma família atravessada pelo cuidado. Era um trabalho que merecia ser visto com toda a atenção dedicada aos grandes desempenhos dramáticos, independentemente do gênero do filme.
Na homenagem publicada após a notícia, Jackman lembrou Stewart como um dos grandes atores do palco e da tela, mas também como amigo e professor generoso, cuja ausência sentiria pelo resto da vida. A Marvel destacou a inteligência, a humanidade e a elegância com que ele definiu Xavier para gerações de espectadores.

A despedida que ainda vamos assistir
É justamente Xavier quem voltará ao nosso encontro em Avengers: Doomsday. As imagens divulgadas mostram o personagem diante de uma ameaça e alimentam o temor de que seu mundo esteja chegando ao fim. A leitura de que veremos sua morte, ligada à destruição provocada por Doutor Destino, ainda precisa permanecer no campo da especulação: o material apresentado não confirma esse desfecho.
Mas a emoção desse retorno já mudou. Quando Stewart aparecer, haverá na sala de cinema um conhecimento que não existia durante as filmagens. Cada gesto familiar, cada inflexão daquela voz, poderá ganhar o peso de uma despedida. E reencontrá-lo no mesmo filme que traz McKellen de volta como Magneto tornará ainda mais comovente a lembrança dessa dupla.
Talvez seja essa a dimensão mais difícil da perda. Nós nos habituamos à presença de certos atores como quem se acostuma a uma referência estável no mundo. Patrick Stewart podia estar no comando de uma nave ou sentado na cadeira de Xavier; havia sempre a expectativa de que sua entrada daria densidade à cena, de que alguém estava ali para fazer aquelas palavras importarem.
Agora vamos ouvi-las novamente sabendo que não haverá uma próxima interpretação à espera. O cinema ainda nos dará esse encontro. E será impossível assistir da mesma maneira.
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