The Gilded Age: Raikes e Larry são opostos que se tornam o mesmo homem?

À primeira vista, Tom Raikes e Larry Russell não poderiam ser mais diferentes. O primeiro é um advogado ambicioso, de recursos limitados, determinado a conquistar um lugar na alta sociedade de Nova York. O segundo nasceu numa família milionária, é educado, generoso, sensível e parece não se importar com as barreiras que separam o velho dinheiro das fortunas recém-conquistadas. Um representa a ambição social disfarçada de romance. O outro, a promessa de um amor construído sobre amizade, confiança e respeito. Mas a estreia da quarta temporada de The Gilded Age levanta uma pergunta incômoda: será que homens aparentemente tão diferentes podem acabar ocupando exatamente o mesmo lugar na vida de uma mulher?

Para Marian Brook, a resposta talvez esteja começando a se desenhar. Depois de ter sido abandonada por Raikes, ela encontrou em Larry tudo aquilo que o primeiro pretendente não havia conseguido oferecer. Ele era seu amigo, seu confidente, alguém que estava sempre por perto e parecia enxergá-la para além de sua posição social. A amizade se transformou em amor, veio o pedido de casamento e, depois, uma separação. Quando os dois finalmente se reencontram, já na quarta temporada, uma tempestade os obriga a passar a noite num hotel. O que poderia representar a reconciliação definitiva termina com Marian angustiada, tomada pela culpa e desesperada para voltar para casa antes que alguém descubra o que aconteceu.

A cena é romântica até deixar de ser. E talvez seja justamente essa mudança que mereça nossa atenção.

Raikes: o homem que prometia liberdade

Tom Raikes entrou na vida de Marian num momento de extrema vulnerabilidade. Seu pai havia morrido, deixando-a praticamente sem recursos, e o advogado foi responsável por ajudá-la a compreender que a segurança financeira na qual acreditava nunca existira. A casa onde vivera não lhe pertencia. A jovem que imaginava ter uma posição confortável descobriu que dependia da generosidade de parentes com quem praticamente não convivera.

Raikes conhecia essa situação antes de declarar seu amor. E, quando o fez, Marian sequer parecia considerá-lo um pretendente. Foi ele quem insistiu, quem apresentou a possibilidade de uma vida compartilhada e quem a incentivou a enfrentar a desaprovação das tias. O discurso era sedutor: por que uma mulher deveria abrir mão da felicidade para obedecer a convenções ultrapassadas?

O problema é que a liberdade oferecida por Raikes exigia sacrifícios quase exclusivamente de Marian. Ele propunha encontros em circunstâncias comprometedoras, aproximava-se dela fisicamente de maneiras que poderiam provocar um escândalo e chegou a admitir que esperava passar a noite com ela num hotel. Falava de casamento e de fugir juntos, mas continuava interessado nas oportunidades oferecidas pela sociedade que supostamente desprezava.

Marian aceitou riscos, desafiou Agnes e chegou a preparar uma fuga. Raikes, entretanto, não apareceu para o casamento clandestino. Havia encontrado em Cissie Bingham uma oportunidade financeira e social mais vantajosa. A mulher que ele incentivara a enfrentar todas as regras foi abandonada justamente porque ele preferiu respeitar a regra mais conveniente para seus interesses: casar-se com dinheiro.

Não é preciso recorrer à psicanálise para reconhecer a crueldade desse comportamento. Mas ela nos ajuda a compreender o que acontece quando uma promessa de amor se torna o instrumento pelo qual uma pessoa é levada a abandonar suas próprias garantias.

Larry: o homem que parecia ser diferente

Larry Russell surge como o oposto de Raikes. Não precisa conquistar uma fortuna nem ascender socialmente por meio do casamento. Sua aproximação de Marian é gradual, fundada numa amizade que permite aos dois se conhecerem sem a pressão imediata de um compromisso amoroso. Ele respeita sua inteligência, compreende seu desejo de independência e parece disposto a construir uma relação que não exija dela a renúncia à própria identidade.

Entre Raikes e Larry, Marian ainda experimenta uma terceira possibilidade com Dashiell Montgomery. Ele representa o casamento socialmente correto, com um homem respeitável, financeiramente seguro e aparentemente dedicado. Mas Marian percebe que Dashiell não a enxerga inteiramente como pessoa. Espera que ela abandone o trabalho e assuma um lugar já definido em sua vida, praticamente substituindo a esposa morta. Marian recusa. Não quer apenas ser escolhida para ocupar uma função.

Larry parece oferecer a solução para esse impasse. Diferentemente de Raikes, não tem interesses financeiros na relação. Diferentemente de Dashiell, parece interessado na mulher que Marian é, não naquela que poderia se tornar para agradá-lo.

Mas há uma contradição desde o início do romance. Larry também a beija escondido, participa de encontros discretos e aceita uma relação que precisa permanecer longe dos olhares da sociedade enquanto Marian respeita o intervalo considerado apropriado depois do rompimento com Dashiell. A discrição é uma exigência dela, mas a tentação de ultrapassar os limites é compartilhada.

Até então, os riscos parecem controláveis. Um encontro reservado, um beijo escondido, uma conversa longe dos olhares das tias. Marian se permite pequenas transgressões, mas tenta preservar as fronteiras que considera fundamentais.

A mentira sobre a ida de Larry ao Haymarket provoca a primeira grande ruptura. Ele não compreende inteiramente a reação de Marian, que interpreta o episódio como uma ameaça à confiança construída entre ambos. Para Larry, trata-se de uma diversão masculina que não deveria comprometer o relacionamento. Para Marian, é a descoberta de que o homem em quem confiava também pode esconder informações e relativizar seus sentimentos.

A experiência com Raikes retorna, ainda que Larry seja um homem diferente.

A noite em que Larry deixou de ser o porto seguro

A quarta temporada coloca Marian e Larry novamente frente a frente. Depois de meses afastados, eles se encontram, dançam e acabam viajando juntos numa carruagem surpreendida por uma tempestade. Um problema com o veículo os obriga a procurar abrigo num hotel, onde Larry providencia dois quartos separados.

Esse detalhe importa. Larry conhece as regras. Sabe que um homem e uma mulher solteiros não deveriam passar a noite juntos, muito menos dividir um quarto. A própria decisão de reservar acomodações separadas demonstra consciência do que se espera deles.

Mas, mais tarde, Larry bate à porta de Marian e oferece ficar com ela até adormecer. Ela permite sua entrada, os dois se beijam e acabam fazendo amor.

É uma escolha compartilhada. Marian deseja Larry tanto quanto ele a deseja, e seria injusto retirar dela a responsabilidade por seus próprios atos. Mas a igualdade do desejo não significa igualdade das consequências.

Larry pode sair do hotel e continuar sua vida. Marian, se for descoberta, poderá perder sua reputação, suas perspectivas matrimoniais e a segurança social que depende de sua condição de jovem solteira respeitável. Há ainda a possibilidade de uma gravidez, que tornaria a situação muito mais grave.

E o mais perturbador é que Larry já havia pedido Marian em casamento. Não estamos diante de um homem que desconhece os sentimentos dela ou de um relacionamento que nunca contemplou um futuro compartilhado. Entretanto, o noivado havia terminado, e eles não o restabelecem antes daquela noite.

Na manhã seguinte, encontramos Marian vestida, angustiada, determinada a voltar para casa sozinha. Não vemos como ela acordou nem em que momento a felicidade da noite anterior deu lugar ao desespero. Sabemos apenas que compreendeu a dimensão do que aconteceu.

Larry, por sua vez, parece interpretar a pressa como mais uma rejeição. Marian já o havia deixado antes, e ele teme que esteja fazendo isso novamente. Mas, desta vez, ela tem razões muito objetivas para fugir. Voltar para casa acompanhada por Larry poderia produzir exatamente as suspeitas que tenta evitar.

É curioso que um homem criado por Bertha Russell, talvez a personagem mais consciente dos códigos sociais de Nova York, pareça ter tanta dificuldade para compreender as consequências de suas atitudes. Não sabemos se Larry é descuidado, imaturo ou simplesmente incapaz de perceber que seus privilégios masculinos não se estendem à mulher que ama. Mas qualquer uma dessas possibilidades contrasta com a imagem de companheiro sensível e atento que construiu.

Desejar uma mulher não é o mesmo que protegê-la

É aqui que a comparação com Raikes se torna inevitável. Raikes queria que Marian desafiasse as tias, ignorasse as convenções e confiasse nas promessas dele. Larry também pede confiança, também participa de transgressões e também parece acreditar que o amor deveria ser suficiente para superar as preocupações dela.

Os dois utilizam discursos diferentes, mas acabam colocando Marian diante de um dilema semelhante: preservar os próprios limites ou corresponder ao desejo do homem que ama.

A diferença é que Raikes demonstrou, por suas escolhas, que o casamento com Marian era menos importante do que suas ambições. Larry ainda não demonstrou nada semelhante. Seu amor pode ser sincero, e sua intenção pode continuar sendo casar com ela.

Mas isso não elimina sua responsabilidade pelo que aconteceu.

Freud, em seu ensaio de 1912 sobre a depreciação na esfera do amor, investigou a dificuldade de alguns homens em conciliar desejo sexual e investimento amoroso respeitável. A conhecida divisão entre a mulher desejada e aquela considerada adequada para o casamento não explica automaticamente o comportamento de Larry, mas oferece uma chave interessante para pensar a história de Raikes.

Raikes se permitia desejar Marian enquanto mantinha abertas outras possibilidades matrimoniais. Quando encontrou uma candidata mais vantajosa, escolheu a respeitabilidade e o dinheiro.

Larry, ao contrário, parece desejar justamente a mulher com quem pretendia se casar. Mas, depois da noite no hotel, surge a pergunta que pode transformar completamente nossa percepção do personagem: ele será capaz de assumir as consequências desse desejo ou esperará que Marian resolva sozinha o conflito que os dois criaram?

A intenção amorosa não é uma garantia de cuidado. E um homem pode ser sincero em seus sentimentos e, ainda assim, agir de maneira profundamente egoísta.

Quando o homem ideal deixa de existir

Há também uma dimensão psicanalítica na maneira como Marian construiu sua imagem de Larry. Depois da experiência com Raikes e da tentativa frustrada de um casamento com Dashiell, Larry parecia reunir qualidades que ela já não acreditava poder encontrar num mesmo homem: desejo, amizade, respeito e segurança.

Ele ocupava uma posição idealizada. Na psicanálise, a idealização pode permitir que o sujeito atribua ao objeto amoroso qualidades capazes de reparar, imaginariamente, experiências anteriores de perda e decepção. Isso não significa que Marian ame Larry apenas porque deseja corrigir o passado. Mas sua história torna especialmente relevante a possibilidade de encontrar alguém que finalmente não a decepcione. A mentira sobre o Haymarket ameaçou essa imagem. A noite no hotel pode representar uma ruptura ainda maior.

Larry não se tornou objetivamente Raikes. Mas, para Marian, talvez tenha voltado a ocupar uma posição conhecida: a do homem que a faz acreditar numa promessa amorosa enquanto a deixa vulnerável às consequências de confiar nele.

A compulsão à repetição, conceito desenvolvido por Freud em Além do Princípio do Prazer, não exige que os acontecimentos sejam idênticos. O que retorna pode ser uma configuração emocional: a confiança, a transgressão, o medo e a possibilidade de abandono.

Entretanto, seria equivocado atribuir essa repetição exclusivamente a Marian. Larry também participa dela. Ele deseja proximidade, subestima determinados limites e interpreta o afastamento da mulher amada como rejeição, sem necessariamente compreender sua própria participação na produção do conflito.

O mesmo gesto de Marian — ir embora — pode ser uma defesa excessiva num episódio e uma atitude perfeitamente justificada em outro. Nem toda separação é uma fuga inconsciente. Às vezes, é uma forma necessária de proteção.

O que significa fazer a coisa certa?

Para a moral da década de 1880, a resposta aparentemente seria simples: Larry deveria casar com Marian.

Mas The Gilded Age construiu personagens suficientes para demonstrar que um casamento socialmente correto não é necessariamente um casamento feliz. Marian já recusou Dashiell porque não queria abrir mão de si mesma. Não seria uma solução transformá-la agora numa mulher que aceita um marido apenas para reparar uma situação comprometedora.

Por outro lado, seria igualmente problemático se Larry continuasse tratando o que aconteceu como um episódio romântico cujas consequências deveriam ser superadas exclusivamente por Marian.

O verdadeiro teste de Larry não será apenas um novo pedido de casamento. Será sua capacidade de reconhecer que amar alguém também significa compreender os riscos que essa pessoa assume ao corresponder ao seu amor.

E há algo particularmente incômodo na possibilidade, sugerida pelas imagens da temporada, de que Marian ainda precise observar Larry cercado por outras jovens, enquanto tenta compreender qual lugar ocupa na vida dele. Um flerte não é prova de abandono, e ainda não sabemos em que circunstâncias essas cenas acontecerão. Mas a simples perspectiva devolve Marian à posição que conheceu com Raikes: a mulher que espera descobrir se será escolhida.

Talvez Larry jamais tenha tido a intenção de machucá-la. Talvez a ame mais do que qualquer outro homem. Ainda assim, sua boa intenção não elimina o fato de que Marian, mais uma vez, parece ter muito mais a perder.

Raikes prometeu um futuro que acabou oferecendo a outra mulher. Larry já prometeu um futuro a Marian, mas agora precisa demonstrar o que essa promessa realmente significa.

Os dois não são o mesmo homem. Suas motivações, histórias e sentimentos são diferentes. Mas a semelhança que emerge é perturbadora: ambos desejam uma mulher independente, admiram sua disposição para desafiar convenções e parecem esquecer que ela não possui a mesma liberdade que eles.

No fundo, a pergunta que The Gilded Age nos apresenta não é se Larry vai se transformar em Raikes. É se um homem pode se considerar bom, sensível e apaixonado enquanto continua esperando que a mulher amada assuma os riscos que ele próprio ajudou a criar.

Porque desejar Marian nunca foi o problema. A questão é o que esses homens estão dispostos a fazer depois que ela corresponde ao desejo deles.


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