Atenção: spoilers das três primeiras temporadas e da estreia da quarta temporada de The Gilded Age.
Quando George Russell (Morgan Spector) sofreu um atentado na terceira temporada de The Gilded Age, minha primeira suspeita, assim como a de muitos espectadores, recaiu sobre Richard Clay, seu antigo braço direito. O rompimento entre os dois, depois de uma longa relação profissional, parecia oferecer a motivação ideal para um crime. George tinha motivos para desconfiar de alguém que conhecia tão bem seus negócios e que, depois de ser dispensado, poderia querer vingança.
Mas enquanto procurávamos possíveis suspeitos entre os inimigos mais recentes do empresário, os fãs da série recuperaram no Reddit uma história que eu, confesso, também havia praticamente esquecido. A resposta talvez estivesse na primeira temporada, quando George e Bertha Russell (Carrie Coon) ainda precisavam conquistar seu espaço entre os milionários de Nova York e demonstraram, sem qualquer constrangimento, até onde estavam dispostos a ir para vencer.
A família Morris foi uma das primeiras vítimas dessa determinação. E, ao rever o que aconteceu, a possibilidade de uma vingança cultivada durante anos torna-se especialmente perturbadora. Não apenas porque Anne Morris (Katie Finneran) tinha motivos para odiar os Russell, mas porque o sofrimento de sua família parece ter desaparecido completamente da memória de quem o provocou.

A humilhação que deu início à tragédia
Na primeira temporada, Anne Morris fazia parte do grupo de mulheres da alta sociedade que se recusavam a reconhecer Bertha Russell como uma de suas iguais. Esposa do vereador Patrick Morris (Michel Gill), ela integrava a comissão responsável por uma feira beneficente e rejeitou a oferta de Bertha para sediar o evento em sua luxuosa mansão.
Bertha não esqueceu a afronta, e George decidiu retribuí-la de maneira espetacular. Compareceu à feira e ofereceu cem dólares a cada participante para adquirir toda a mercadoria disponível. Em poucos minutos, transformou uma ocasião de prestígio social em uma demonstração pública de seu poder financeiro.
Naquele momento, era fácil torcer pelos Russell. Afinal, Bertha era desprezada por mulheres que pareciam considerar a antiguidade de suas fortunas mais importante do que qualquer qualidade pessoal. George, por sua vez, era o marido apaixonado que não tolerava ver a esposa humilhada.
Mas havia algo cruel naquela vingança. George não queria simplesmente reparar a ofensa. Queria demonstrar que nenhuma daquelas mulheres poderia enfrentá-lo sem sofrer consequências.
E a disputa social logo se transformaria em uma tragédia familiar.

O suicídio de Patrick Morris
Patrick Morris e outros vereadores estavam envolvidos em uma operação relacionada aos interesses ferroviários de George Russell. Quando tentaram prejudicar o empresário por meio de uma manobra financeira e legislativa, descobriram que haviam subestimado seu adversário.
George tinha recursos suficientes para resistir ao ataque e provocar perdas devastadoras aos homens que pretendiam derrotá-lo. Patrick Morris perdeu praticamente tudo.
Desesperado, procurou George e implorou por uma solução que permitisse preservar sua família. Não conseguiu convencê-lo. Russell considerava que o vereador havia participado voluntariamente de uma disputa comercial e precisava aceitar as consequências da derrota.
Patrick voltou para casa, contemplou os retratos de Anne e dos filhos e tirou a própria vida.
É uma das cenas mais cruéis da primeira temporada, justamente porque a tragédia não termina com a morte do vereador. Anne perde o marido, a segurança financeira e boa parte de sua posição social. As pessoas que antes frequentavam sua casa começam a se afastar, enquanto os Russell continuam conquistando espaços e acumulando prestígio.
George não matou Patrick Morris. O vereador tampouco era inocente na operação financeira que provocou sua ruína. Mas existe uma enorme diferença entre derrotar um adversário e destruí-lo a ponto de não lhe deixar nenhuma perspectiva.
A série nos mostrou essa diferença. Talvez não tenhamos prestado a devida atenção porque estávamos ocupados torcendo pelos Russell.

Anne Morris não esqueceu
A transformação de Anne Morris foi uma das consequências mais amargas daquela história. A mulher arrogante, que havia desprezado Bertha por sua origem social, passou a conhecer a humilhação e a exclusão que antes ajudava a impor aos outros.
Mas Anne não se considerava simplesmente uma vítima das circunstâncias. Para ela, George e Bertha eram responsáveis pela morte do marido.
Sua revolta ficou particularmente evidente quando viu Bertha ser celebrada por sua participação em atividades filantrópicas. Como poderia uma mulher cuja família havia provocado tamanho sofrimento ser admirada publicamente por sua generosidade?
Anne chegou a acusar Bertha de ser esposa de um assassino. Suas palavras causaram constrangimento entre pessoas que preferiam manter boas relações com os Russell, sobretudo agora que a fortuna e a influência do casal eram impossíveis de ignorar. A viúva prometeu que não esqueceria o que havia acontecido. E essa promessa pode ser muito mais importante do que parecia.
Uma teoria sobre os Morris já existia em 2022
O mais curioso é descobrir que a possibilidade de uma vingança de Anne Morris não surgiu agora.
Em 25 de fevereiro de 2022, o jornalista Jack Filsinger publicou no Screen Rant uma análise sobre o misterioso acidente ferroviário apresentado na primeira temporada. A suspeita de sabotagem levantava a possibilidade de que algum inimigo de George Russell tivesse utilizado peças defeituosas para provocar o desastre. E Anne Morris já aparecia entre os suspeitos.
O artigo argumentava que a viúva poderia ter recorrido aos contatos políticos e empresariais do marido para organizar uma sabotagem contra os interesses ferroviários de George. Afinal, a influência dos vereadores sobre os negócios de Nova York não havia desaparecido simplesmente porque Patrick estava morto.
Tratava-se de uma teoria publicada enquanto a primeira temporada ainda estava em exibição, não de uma revelação sobre quem provocou o acidente. Mas é impressionante perceber que, quatro anos depois, estamos novamente discutindo a possibilidade de os Morris estarem por trás de um ataque contra George Russell.
Em agosto de 2025, depois do atentado que encerrou a terceira temporada, a hipótese voltou a circular entre fãs. Em uma publicação na página HBO The Gilded Age Fan Page, no Facebook, uma espectadora sugeriu que Mrs. Morris poderia ter contratado um assassino. Ou, talvez, que um de seus filhos estivesse buscando vingança.
A segunda possibilidade acrescenta uma dimensão interessante à história. Anne perdeu o marido, mas seus filhos também perderam o pai e a segurança econômica. E, se a série decidir recuperar aquela família, não seria necessário que a vingança partisse exclusivamente da viúva.
Por enquanto, entretanto, não há confirmação de que Anne ou seus filhos estejam envolvidos no atentado. A teoria é convincente porque recupera um conflito estabelecido na própria narrativa, não porque existam provas definitivas de sua participação.

George Russell, Luigi Mangione e a violência contra os poderosos
Há uma dimensão contemporânea nessa discussão que o próprio Morgan Spector destacou em entrevista à Variety, em agosto de 2025. O ator comparou o atentado contra George Russell ao assassinato de Brian Thompson, executivo da UnitedHealthcare, ocorrido em Nova York em dezembro de 2024, caso pelo qual Luigi Mangione foi acusado.
Spector identificou um paralelo entre a concentração de riqueza e poder durante a Era Dourada e as tensões econômicas dos Estados Unidos contemporâneos. Em ambos os períodos, grandes fortunas convivem com desigualdades profundas, enquanto decisões tomadas por empresários e instituições podem transformar radicalmente a vida de pessoas que não têm recursos para enfrentá-las.
A comparação não significa justificar a violência, tampouco estabelecer uma equivalência direta entre os casos. Mas ajuda a compreender por que George Russell pode despertar sentimentos tão contraditórios.
Para o espectador, George é frequentemente um homem admirável: inteligente, determinado, apaixonado pela família e capaz de enfrentar uma elite que tenta impedir sua ascensão. Para as pessoas prejudicadas por seus negócios, entretanto, ele pode representar algo muito diferente.
Essa ambiguidade sempre esteve presente em The Gilded Age, embora a série frequentemente prefira enfatizar o encanto dos Russell.
A memória dos vencedores e a memória dos derrotados
Talvez o aspecto mais interessante da teoria seja justamente a diferença entre aquilo que os Russell lembram e aquilo que os Morris jamais poderiam esquecer.
Para George e Bertha, a disputa com Patrick e Anne foi apenas uma das muitas batalhas enfrentadas durante sua ascensão. Depois vieram novos negócios, novos adversários, a conquista da sociedade, o casamento de Gladys e a crescente participação de Larry nos assuntos familiares.
A vida continuou. A fortuna aumentou. As ambições também. É perfeitamente possível que George e Bertha já nem pensem nas pessoas que ficaram pelo caminho. Anne Morris, entretanto, não teve esse privilégio. Para ela, a ruína financeira e o suicídio do marido não foram simplesmente acontecimentos desagradáveis que poderiam ser superados. Foram experiências que transformaram sua existência. Enquanto os Russell celebravam suas vitórias, ela precisava conviver com a ausência do marido e a perda de tudo o que considerava seguro.
O que para os Russell foi apenas mais uma conquista pode ter sido, para os Morris, o início de uma tragédia que nunca terminou. E essa diferença de perspectiva é essencial para compreender o verdadeiro alcance da teoria.
Quem mandou atirar em George Russell?
A quarta temporada começou sem esclarecer quem estava por trás do atentado. George continua procurando respostas, e sua investigação agora envolve a agência Pinkerton. O empresário também precisa enfrentar a crise no casamento com Bertha e novos desafios aos seus negócios.
Suspeitos não faltam. Richard Clay parecia ter uma motivação evidente, embora sua ausência da quarta temporada complique a expectativa de um confronto direto. Outros concorrentes comerciais também poderiam desejar a morte do magnata. Mas a hipótese dos Morris possui uma vantagem narrativa: não exige que os roteiristas inventem retrospectivamente uma tragédia para justificar o desejo de vingança.
Nós já a testemunhamos. Vimos a humilhação de Anne, a ruína de Patrick e a morte que destruiu a família. Também acompanhamos a maneira como os Russell seguiram em frente sem que aquela tragédia parecesse impor qualquer limite às suas ambições.
Seria uma escolha especialmente interessante se Julian Fellowes e Sonja Warfield recuperassem essa história justamente agora, quando George começa a questionar a vida que construiu e o preço de suas conquistas. Há, inclusive, uma ironia na sinopse oficial da quarta temporada: a HBO afirma que Bertha Russell mudou a sociedade, mas a um custo elevado, e que sua família precisará lidar com as consequências.

É provável que essa descrição se refira principalmente à crise doméstica provocada pelas decisões de Bertha, especialmente o casamento de Gladys. Mas também permite uma leitura mais ampla: os Russell passaram anos impondo suas vontades aos outros e agora podem descobrir que nem todas as consequências de seus atos ficaram no passado.
Afinal, George e Bertha enriqueceram, conquistaram prestígio e venceram quase todas as batalhas que decidiram enfrentar. Mas, se os Morris realmente estiverem envolvidos no atentado, talvez a série esteja prestes a demonstrar que nem toda vitória representa o fim de uma guerra.
Há pessoas que conseguem esquecer aqueles que destruíram. E há pessoas que passam o resto da vida lembrando.
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