A cafonice está de volta, com tudo de maravilhoso que a gente gosta: os pratos, as roupas, a Los Angeles exagerada, as cores estouradas e o dramalhão. A combinação de Kim Kardashian com Ryan Murphy parece ter encontrado sua expressão mais perfeita em All’s Fair, ou Tudo É Justo. Para quem vem de uma cultura de folhetim, reconhecer o prazer dessa novela não exige grande esforço. O exagero faz parte do convite, e a segunda temporada parece especialmente confortável com isso.
Recomeçamos com mulheres maravilhosamente vestidas, ressentimentos preservados e uma disposição quase comovente para seguir adiante sem dar muita satisfação sobre o que aconteceu antes. Sarah Paulson continua encarregada das falas mais absurdas, entregues com uma intensidade que torna Carrington Lane irresistível. Em alguns momentos, a impressão é de que as próprias colegas quase abandonam o personagem para rir. Paulson abraça o excesso com uma convicção que é parte essencial da graça.
O texto contém spoilers do primeiro episódio da segunda temporada.

Dina está livre. Podemos seguir?
A primeira surpresa é encontrar Dina Standish, de Glenn Close, solta. Depois de terminar a temporada anterior presa pelo assassinato de Lloyd Walton, o homem que violentou Emerald, ela reaparece com uma explicação bastante prática: apresentou um álibi, demonstrando que estava fora do estado quando o crime aconteceu.
E pronto, podemos seguir. Depois de todo o investimento no assassinato, na vingança de Carr e na desconfiança das amigas em relação à própria mentora, a estreia resolve o impedimento imediato de Dina e muda de assunto. Fiquei esperando entender como aquela prisão afetaria o grupo e como as mulheres lidariam com a facilidade com que aceitaram desacreditá-la. Mas há uma festa para organizar.
Isso não significa que o assassinato tenha sido esclarecido. O que acontece é uma mudança de prioridade narrativa, bastante típica dessa novela: um conflito que parecia incontornável perde espaço assim que aparece outra oportunidade de confusão. Dina está livre, todas continuam bem vestidas e os ressentimentos podem voltar à programação habitual.
Dina também tem direito a um novo romance
A liberdade de Dina vem acompanhada de outra novidade: Brody, um garçom muito mais jovem, demonstra interesse por ela. Dina acaba aceitando a aproximação, e ali começa um relacionamento que, por enquanto, prefere manter reservado. Depois de acompanharmos sua dor pela morte de Doug, a personagem volta a se permitir desejo, prazer e a possibilidade de ser desejada.
A graça está também na iniciativa do rapaz. Dina não precisa sair à procura de uma nova vida amorosa; ela aparece diante dela, bonita e bastante determinada. Glenn Close ganha espaço para explorar essa disposição de viver algo que não precisa apresentar imediatamente às amigas, muito menos submeter à aprovação de ninguém.
Ainda é cedo para saber quem Brody é além desse interesse. O episódio abre a porta para o romance, mas eu já olho com alguma desconfiança. A série vem nos ensinando a desconfiar dos homens encantadores que aparecem na vida dessas mulheres, e a beleza do novo pretendente não funciona exatamente como garantia de tranquilidade.
Carr volta a ser a rival de sempre
Tampouco parece fazer grande diferença que Carr tenha chegado tão perto de entrar para a sociedade. A dinâmica retorna àquela mistura de amor e ódio que já conhecemos. Ela permanece ligada ao escritório concorrente, inveja abertamente o sucesso das outras e anuncia sua vontade de destruí-las. Mesmo assim, continua encontrando espaço para se aproximar.
Dina insiste em perdoá-la e tenta convencer as demais a fazer o mesmo. Existe algo deliciosamente frustrante nessa disposição de oferecer mais uma chance a uma pessoa que praticamente apresenta seu projeto de vingança antes de entrar. Nós já conhecemos o resultado provável, mas Dina parece acreditar que, desta vez, a boa vontade terá alguma utilidade.
A tentativa de entendimento acaba em um tapa de Dina em Carr. Depois, arrependida e aconselhada pelo tarô, Dina insiste para que a rival seja convidada para o baile de Allura. A capacidade de transformar hostilidade em nova oportunidade de convivência continua intacta.
E Paulson faz tudo isso com uma intensidade maravilhosa. O absurdo ganha tamanho porque ela o interpreta com absoluta convicção. Carr pode ser cruel, inconveniente e invejosa, mas é difícil imaginar essa série sem sua presença. Cada reaproximação oferece a possibilidade de outra fala que ninguém em uma reunião minimamente civilizada deveria pronunciar.
Liberty tem uma namorada. Carr tem uma opinião
Outra mudança é a vida amorosa de Liberty Ronson, a personagem de Naomi Watts. Ela assume sua homossexualidade, está com uma namorada e encontra acolhimento entre as amigas. A novidade entra na convivência do grupo sem se transformar em um problema, permitindo que Liberty experimente outra possibilidade afetiva depois das decepções anteriores.
O problema continua sendo Carr e a facilidade com que consegue entrar na cabeça dela. Encontrar uma namorada não faz desaparecer a vulnerabilidade de Liberty nem sua necessidade de reconhecimento. É justamente nesse espaço que a rival costuma circular, alternando aproximação e hostilidade.
Existe uma atenção entre as duas que merece ser acompanhada, mas, neste primeiro capítulo, ela aparece sobretudo nas provocações. A conversa sobre flexibilidade e o convite para o concerto pertencem ao episódio seguinte. Aqui, o que importa é que Liberty começa uma nova fase e Carr encontra mais uma maneira de atingi-la.

Allura seguiu em frente. Chase continua circulando
Carr agora namora oficialmente Chase Munroe, o ex-marido de Allura. Considerando o histórico entre as duas mulheres, seria fácil esperar que essa relação reabrisse a disputa amorosa. Mas Allura parece indiferente à nova configuração. Ela já seguiu em frente.
Chase, interpretado por Matthew Noszka, continua circulando naquele universo também pela disputa de custódia com Milan, de Teyana Taylor, com quem teve uma filha. O casamento acabou, mas as relações que ele deixou pelo caminho seguem produzindo conflitos e conectando sua vida à das mulheres do escritório.
É um detalhe importante para entender o momento de Allura. A história não depende mais de saber se ela quer o ex-marido de volta. Há outro problema ocupando sua atenção, e ele envolve um perigo bem mais imediato.
Alguém está atrás de Allura
A estreia introduz uma ameaça contra Allura. A presença de um homem à espreita de sua casa transforma o espaço de luxo em um lugar vulnerável. Para uma advogada acostumada a enfrentar homens poderosos em divórcios milionários, a lista de possíveis inimigos dificilmente seria pequena. Algum marido descontente com o resultado de uma separação parece uma possibilidade natural, mas ainda é uma hipótese.
É curioso ver a série abrir outra frente quando já tinha um crime e uma vingança perfeitamente disponíveis para continuar. All’s Fair prefere renovar o perigo e nos entregar uma pergunta diferente: quem quer atingir Allura, e por quê?
É essa ameaça que prepara o terreno para o segurança interpretado por Cauã Reymond, cuja atuação se desenvolve no segundo episódio. Objetificadíssimo, o brasileiro combina com uma produção em que quase tudo parece escolhido também para ser admirado. Mas a estreia ainda está montando o problema que justificará sua proteção.
Até o acordo pré-nupcial entra na brincadeira
Emerald e Liberty ainda encontram tempo para um caso de divórcio. A cliente, Aphrodite, assinou o acordo pré-nupcial com tinta invisível e agora sustenta que nunca o assinou. É o tipo de expediente que cabe perfeitamente nessa realidade, na qual a competência profissional frequentemente se confunde com a capacidade de produzir uma situação inacreditável.
O caso ocupa pouco espaço diante das disputas pessoais. As separações milionárias continuam fazendo parte do cenário, mas são os relacionamentos entre aquelas mulheres que determinam o ritmo do episódio.

Elizabeth Taylor, um baile e a ferroada final
Allura organiza seu Scorpio Ball, inspirado na festa de Grace Kelly. Os convidados precisam ser de Escorpião ou acompanhar alguém do signo. Carr se encaixa no requisito e, depois da insistência de Dina, consegue seu convite.
A história contada por Allura alimenta mais uma vez a fixação de Kim Kardashian por Elizabeth Taylor. Em 1969, Taylor compareceu ao baile pelos 40 anos de Grace de Mônaco acompanhada de Richard Burton, que era de Escorpião. A capa preta da Tiziani com escorpiões, usada por Kim na série, é a peça original de Taylor, emprestada por sua mãe, Kris Jenner. Murphy incorporou a festa à trama depois de conhecer a história do figurino.
É uma fusão muito particular entre a personagem e a atriz. A admiração de Kim por uma estrela de Hollywood encontra espaço dentro de uma produção que transforma luxo e excesso em linguagem. Allura conta a história, veste a referência e organiza sua própria versão da festa. A cafonice vem acompanhada de procedência.
Naturalmente, reunir aquelas mulheres não produz a noite harmoniosa que Dina parece continuar acreditando ser possível. Carr transforma a sexualidade de Liberty em munição, e a discussão vira confronto físico. A sofisticação das roupas não ajuda ninguém a administrar os sentimentos.
Então vem a ferroada final: Allura é picada por um escorpião e desaba. O tema da festa ganha uma consequência literal, encerrando o capítulo com a anfitriã em perigo.
A suspeita imediata recai sobre Carr. Como não pensar nela? Declara sua hostilidade, alimenta a rivalidade e está no centro de boa parte do caos. Mas suspeitar dela não resolve o mistério, nem confirma que a picada tenha sido provocada por quem ameaça Allura.
Allura já não está presa ao ex-marido. Agora precisa descobrir quem está atrás dela. E nós, que tínhamos um assassinato anterior para resolver, saímos do baile com outra pergunta: quem está tentando matar Allura Grant?
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