A comédia perfeita de Um Tiro no Escuro

A morte de Elke Sommer, em 28 de outubro, aos 85 anos, me fez lembrar imediatamente de Um Tiro no Escuro. Não necessariamente seu papel mais importante, embora seja um dos mais conhecidos, mas aquele pelo qual sempre vou me lembrar dela. O filme de 1964 está, para mim, entre as melhores comédias já feitas, uma combinação extraordinária de direção, elenco e música que continua funcionando mesmo quando sabemos exatamente o que vem a seguir.

Nascida em Berlim em 1940, Sommer chegou ao cinema depois de chamar a atenção durante uma viagem à Itália, no fim dos anos 1950. Estreou em produções italianas, trabalhou em diferentes países europeus e encontrou nos idiomas — falava sete — uma ferramenta importante para atravessar fronteiras. Sua chegada a Hollywood ganhou impulso com Criminosos Não Merecem Prêmio, de 1963, ao lado de Paul Newman, pelo qual recebeu o Globo de Ouro de atriz revelação.

Foi uma das atrizes europeias que Hollywood abraçou naquele período, explorando uma imagem de beleza e sofisticação que nem sempre correspondia à variedade de seus interesses. Trabalhou com Peter Sellers, James Garner, Dick Van Dyke, Bob Hope e Dean Martin, passou pelo terror de Mario Bava em O Barão Vermelho e Lisa e o Diabo e também se dedicou à televisão, ao teatro e à pintura. Ela própria se queixaria de ter sido usada como decoração em filmes demais. Em Um Tiro no Escuro, porém, sua presença participa diretamente da construção da comédia.

Sommer interpreta Maria Gambrelli, uma empregada suspeita de assassinato que desperta no inspetor Jacques Clouseau uma convicção imediata de inocência. A atração que sente por ela certamente contribui para sua certeza, mas, como quase tudo que diz respeito a Clouseau, ele prefere acreditar que está apenas exercendo sua extraordinária competência profissional. A graça depende tanto dessa confiança absurda de Peter Sellers quanto da naturalidade com que Sommer atravessa uma sucessão de circunstâncias comprometedoras.

Antes que os dois se encontrem, Blake Edwards já nos conquistou. São quatro minutos e quarenta e seis segundos até a entrada dos créditos animados, num prólogo que apresenta uma casa, seus habitantes e uma rede de encontros clandestinos praticamente sem precisar de diálogo. Acompanhamos quem entra num quarto, quem sai de outro, quem espera por alguém e quem precisa se esconder. Cada passagem acrescenta uma informação, prepara um possível flagrante e nos transforma em observadores cada vez mais interessados naquela noite.

Tudo acontece ao som de “Shadows of Paris”, composta por Henry Mancini, com letra de Robert Wells e interpretada por Gina Carroll. A canção empresta uma elegância romântica à movimentação de pessoas que estão, em sua maioria, enganando alguém. Até que os disparos interrompem aquela coreografia e o título ganha seu sentido literal. Edwards mostra a movimentação que antecede o crime, deixando pistas diante de nós, mas preserva para depois a explicação completa do que aconteceu no quarto.

Então entra “A Shot in the Dark”, o instrumental de Mancini que acompanha os créditos animados de Clouseau. Para mim, é um dos melhores temas do compositor, um jazz ainda mais divertido que o de A Pantera Cor-de-Rosa. Há uma personalidade naquela música que parece antecipar o inspetor, sua movimentação e sua capacidade de avançar com segurança na direção de um desastre.

A animação também tem uma história interessante. A Pantera já havia aparecido nos créditos do filme anterior, de 1963, e seu sucesso levaria à criação de curtas próprios. Em Um Tiro no Escuro, Clouseau assume a abertura animada, enquanto o tema de Mancini seria posteriormente aproveitado nos desenhos de O Inspetor. Cinema, música e animação construíam um universo que acabaria fazendo parte da infância de muita gente.

Curiosamente, essa aventura começou longe de Clouseau. Sua origem é L’Idiote, peça de Marcel Achard que estreou em Paris em setembro de 1960, no Théâtre Antoine, com direção de Jean Meyer. Annie Girardot interpretava Josefa, a empregada envolvida numa investigação de assassinato, ao lado de Jean-Pierre Cassel e Daniel Ceccaldi. A personagem feminina estava no centro da história antes que ela se tornasse uma oportunidade para explorar o talento de Sellers.

Adaptada por Harry Kurnitz com o título A Shot in the Dark, a peça chegou à Broadway em outubro de 1961. Produzida por Leland Hayward e dirigida por Harold Clurman, a montagem reunia Julie Harris, Walter Matthau e William Shatner. Foram 389 apresentações, e Matthau ganhou o Tony de ator coadjuvante. Havia, portanto, uma comédia teatral bem-sucedida por trás do que hoje parece inseparável do inspetor francês.

A adaptação cinematográfica seria inicialmente dirigida por Anatole Litvak e estrelada por Sophia Loren. Sellers foi contratado em 1963, mas o projeto mudou profundamente quando Litvak saiu por motivos de saúde e Edwards assumiu a direção. Loren também precisou se afastar, após uma cirurgia na garganta. Romy Schneider chegou a ser escolhida para substituí-la, mas seus compromissos com outra produção abriram caminho para Sommer.

Sellers estava insatisfeito com o roteiro e com seu personagem. Edwards, que havia acabado de trabalhar com ele em A Pantera Cor-de-Rosa, encontrou a solução ao incorporar Clouseau à investigação. No filme anterior, o inspetor ainda dividia espaço com o ladrão elegante de David Niven; agora, poderia assumir o centro da comédia. Ao lado de William Peter Blatty, futuro autor de O Exorcista, Edwards reformulou a adaptação para explorar as possibilidades do ator.

A reescrita levou cerca de cinco semanas e afastou o filme da montagem teatral. Matthau, que estava contratado para repetir seu papel nos palcos, deixou o projeto depois das alterações. Sommer, por sua vez, usou parte de seu pagamento para se liberar de compromissos cinematográficos na Alemanha. As filmagens começaram em novembro de 1963, na Inglaterra, e o filme estreou em Nova York em junho de 1964.

A precisão do resultado esconde uma convivência bastante turbulenta entre diretor e protagonista. Edwards e Sellers disputaram o controle criativo e terminaram prometendo não trabalhar juntos novamente, decisão que felizmente abandonariam. Na tela, a parceria transforma quedas, pausas, objetos e gestos em extensões da personalidade de Clouseau. O desastre pode ser evidente para todos, mas ele sempre encontra uma maneira de preservar a dignidade.

Herbert Lom é essencial nessa construção. É aqui que seu Dreyfus aparece pela primeira vez, perdendo progressivamente a compostura diante de alguém incapaz de reconhecer o próprio absurdo. Enquanto Sellers sustenta a confiança do inspetor, Lom interpreta o custo de conviver com ela. Cada reação acrescenta alguma coisa àquela irritação que vai consumindo a autoridade e o bom senso do personagem.

Sommer oferece outro ritmo. Maria parece atravessar aquela confusão sem compreender inteiramente por que tudo insiste em colocá-la no centro das suspeitas. A atriz sustenta essa aparente inocência sem disputar cada gag com Sellers, dando ao filme um equilíbrio fundamental. Sua presença permite que a obstinação de Clouseau continue engraçada mesmo quando todas as evidências parecem contrariá-lo.

É uma das razões pelas quais volto tanto a Um Tiro no Escuro. Ao lado de Clue, inspirado no jogo Detetive, está entre as cinco comédias que mais amo. Conhecer as reviravoltas não diminui o prazer de acompanhar como elas são preparadas. E lembrar Elke Sommer por Maria Gambrelli é reconhecer que, numa comédia tão precisamente construída, a pessoa que atravessa o caos com naturalidade pode ser tão importante quanto aquela que o provoca.


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