All’s Fair: o tarô de Dina esconde um aviso sobre Brody?

Este texto contém spoilers dos três primeiros episódios da segunda temporada de All’s Fair.

A gente sabe o jogo, mas toda vez queremos questionar as regras. A cética Dina Standish ganha de presente de Allura uma consulta com a melhor taróloga de Los Angeles. Não há espaço para recusar, mas ela vai determinada a questionar as cartas. E, como sabemos, mesmo na ficção, o tarô entra sempre como aviso.

A graça está em observar como Dina, acostumada a conduzir interrogatórios e encontrar falhas nos argumentos dos outros, tenta manter o controle de uma conversa na qual alguém pretende lhe explicar sua própria vida. Loni Everlane, interpretada por Dorinda Medley, não parece particularmente intimidada. Distribui passado, presente e futuro em três cartas: O Enforcado, Os Enamorados e A Torre. Uma combinação que merece ser guardada, especialmente agora que Dina encontrou um pretendente tão interessado em fazê-la feliz.

Porque é aí que começo a desconfiar. A consulta anuncia uma nova possibilidade de amor, mas também avisa que algo do passado voltará para assombrá-la, numa questão de vida ou morte. Dina associa o perigo a Carrington Lane, com quem acabou de ter mais um confronto. Podemos acompanhar seu raciocínio e aceitar que o convite para o baile de Allura seja uma tentativa de evitar outra vingança. Mas será que a ameaça está mesmo onde ela acredita?

Antes de chegar a Brody, vale olhar para as cartas. O Enforcado, na posição do passado, parece resumir a vida interrompida de Dina. A perda de Doug, a manipulação de Carr, a suspeita sobre sua capacidade mental e a prisão a colocaram numa situação em que sua experiência e sua autoridade já não bastavam para decidir o que aconteceria com ela. Uma mulher acostumada a agir foi obrigada a esperar que os outros acreditassem em sua versão.

A figura pendurada de cabeça para baixo pode causar uma impressão sombria, mas essa é a representação habitual da carta. Seu simbolismo envolve suspensão, sacrifício e mudança de perspectiva, não necessariamente uma morte literal. Para Dina, também cabe a dificuldade de imaginar uma vida depois de Doug. Como seguir quando o futuro que ela conhecia deixou de existir?

Os Enamorados, no presente, oferecem uma resposta que ela talvez não esperasse. A carta fala de amor e união, mas também de escolhas, valores e compromissos. Não precisa indicar um romance: pode representar uma decisão importante sobre como viver e com quem estabelecer vínculos. Loni deixa espaço para que a paixão anunciada seja por alguém ou pela própria vida, o que permite a Dina receber a previsão sem precisar admitir imediatamente que gostaria de voltar a ser desejada.

Então aparece Brody. Jovem, atencioso e aparentemente seguro do interesse que sente por ela, ele oferece uma oportunidade de sair do lugar da viúva, da mentora e da mulher que precisa resolver o problema de todo mundo. A diferença de idade pode alimentar a desconfiança de Dina, mas não é isso que me faz questionar suas intenções. É a facilidade com que sua chegada parece cumprir a parte agradável da consulta, enquanto a outra fica reservada para Carr.

Afinal, ainda há A Torre no futuro. No tarô, ela sugere uma ruptura ou revelação capaz de abalar o que parecia seguro. Pode representar o momento em que uma certeza deixa de se sustentar, obrigando a pessoa a reconsiderar aquilo em que acreditava. Isso não significa necessariamente morte, traição ou desastre amoroso, mas, dentro de uma série que acabou de apresentar um novo romance, é uma carta que convida à desconfiança.

Lidas em conjunto, as três cartas permitem imaginar alguém que sai de um período de suspensão, enfrenta uma escolha importante e depois atravessa uma transformação que rompe sua estabilidade. A sequência, por si só, não estabelece que a escolha provoque a ruptura. Tampouco exige que um erro do passado retorne ou que alguém corra risco de morrer: essas são interpretações acrescentadas por Loni. Para nós, que acompanhamos uma história escrita para produzir consequências, interessa observar por que o roteiro escolheu aproximar essas possibilidades.

Minha hipótese é que Brody tenha alguma ligação com o caso de Conrad Walton, o homem contra quem Dina atuou numa investigação envolvendo um esquema de pirâmide financeira. Não precisamos imaginar um parentesco para encontrar uma possível motivação. Um esquema desses envolve pessoas que perderam dinheiro, famílias afetadas e consequências que continuam depois que o processo termina. O que sabemos sobre quem ficou pelo caminho?

A primeira temporada já apresentou uma vingança relacionada ao caso. Conrad perdeu a fortuna e morreu por suicídio. Seu filho, Lloyd, atacou Emerald, e Dina entendeu aquela violência como uma maneira de atingi-la por meio de alguém próximo. Mais tarde, Lloyd também foi morto, e Dina acabou presa pelo assassinato até conseguir demonstrar que tinha um álibi.

Mas a morte dos dois não significa que todas as consequências do caso tenham sido encerradas. Brody poderia ser alguém prejudicado pelo esquema financeiro ou pelo que aconteceu quando ele foi desmantelado. Poderia ter perdido dinheiro, visto alguém próximo perder tudo ou construído uma versão dos acontecimentos na qual Dina é a responsável por sua desgraça. Para uma vingança existir, basta que alguém acredite ter uma conta a cobrar.

Não há, até aqui, confirmação dessa ligação. É uma teoria que nasce da maneira como o roteiro coloca uma promessa de amor ao lado do retorno ameaçador do passado. Se Brody estiver conectado ao caso, as três cartas poderiam acompanhar uma mesma trajetória: Dina sai de um período de suspensão, permite-se escolher um novo vínculo e descobre que a relação ameaça a segurança que começava a recuperar.

Também seria uma maneira de usar Carr como distração. Ela é uma ameaça evidente, que faz questão de anunciar ressentimentos e intenções. Dina conhece sua capacidade de crueldade e, depois do tapa, tem motivos para esperar uma reação. Convidá-la para o baile parece uma providência concreta diante de uma previsão vaga. Com isso, acredita estar cuidando do perigo enquanto se abre para a promessa de felicidade.

É claro que eu gostaria de vê-la feliz. Há prazer em acompanhar Dina descobrindo que ainda pode desejar, ser desejada e fazer planos que não envolvam o escritório ou a administração de uma perda. Seria cansativo se toda oportunidade de afeto precisasse esconder um golpe. Mas All’s Fair escolheu colocar Os Enamorados entre O Enforcado e A Torre, acompanhados de um aviso sobre algo que ela deixou para trás. Fica difícil receber Brody sem guardar alguma reserva.

Dina vai à consulta determinada a questionar as cartas e sai tentando administrar o que ouviu. Talvez seu engano esteja em acreditar que identificou o problema. Ela olha para Carr, enquanto Brody se aproxima. E se o novo amor e o retorno do passado forem, desde o início, a mesma previsão?


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