Black Doves: uma fórmula gasta, uma dupla irresistível

Já comentei que uma das ondas da ficção de espionagem dos anos 2020 é a proliferação de agências de mercenários altamente treinados e convenientemente infiltrados em qualquer lugar. Os objetivos das missões são frequentemente incoerentes, quando não simplesmente esquecíveis, mas o pacote é impecável: glamour, viagens, jatos, tiroteios e explosões. Temos mulheres elegantíssimas em conflito com seus disfarces, assassinos que descobrem um cansaço existencial depois de uma carreira matando os outros e organizações tão poderosas que fica difícil entender como ainda há alguma coisa fora de seu controle. A segunda temporada de Black Doves conhece esse repertório inteiro. E, mesmo assim, é uma delícia.

A diferença está, sobretudo, em Keira Knightley e Ben Whishaw. A química entre os dois dá à série uma identidade que nenhuma conspiração, por mais elaborada, conseguiria fabricar. Podemos perder o interesse em quem contratou quem, em qual segredo justifica a próxima execução ou no que exatamente está em disputa, mas queremos continuar com Helen e Sam. Num gênero que anda confundindo quantidade de reviravoltas com envolvimento, isso vale muito.

Helen chega à nova temporada ainda mais entranhada na encenação do poder, agora como mulher do primeiro-ministro britânico. O cargo do marido amplia o alcance de sua infiltração, mas também torna mais difícil separar a missão da vida que construiu. É uma contradição interessante porque o disfarce exige vínculos: casamento, filhos, rotina, intimidade. Depois de tanto tempo vivendo uma personagem, quanto dessa existência pode ser descartado como simples trabalho?

Knightley funciona especialmente bem nessa passagem entre a imagem pública controlada e a violência que Helen precisa administrar. O glamour faz parte da graça, claro, mas há também a irritação, o desejo de decidir por si mesma e a dificuldade de aceitar que outras pessoas determinem o lugar que deve ocupar. Sua personagem ganha quando a série permite que essas tensões apareçam, sem precisar imediatamente transformá-las em mais um segredo de uma conspiração.

Mas Ben Whishaw é, para mim, o grande prazer da temporada. Seu talento dramático já seria suficiente para dar espessura ao assassino que gostaria de ter outra vida, figura que o gênero explora até a exaustão. O diferencial é o talento cômico, a capacidade de fazer o desconforto, o desalento e uma reação quase discreta serem tão divertidos quanto uma boa fala. Ele não precisa anunciar a piada nem interromper a tristeza para ser engraçado.

Sam é perigosíssimo, mas Whishaw preserva nele um desajuste que impede a pose de dominar o personagem. A competência profissional convive com uma dificuldade enorme de organizar a própria existência. Ele pode resolver uma situação pela violência e continuar inteiramente perdido diante da possibilidade de afeto. Essa distância entre o que sabe fazer e o que gostaria de conseguir viver sustenta tanto o drama quanto o humor.

É também o que torna sua amizade com Helen tão boa. Num universo em que todo encontro pode esconder uma negociação, há prazer em acompanhar duas pessoas que compartilham um conhecimento pouco apresentável uma da outra. Eles não precisam sustentar entre si a versão socialmente aceitável de suas vidas. A intimidade comporta cumplicidade, impaciência e um reconhecimento que dispensa explicações constantes. Acreditamos nessa relação antes de acreditar em boa parte das operações ao redor.

O humor, mais evidente nesta temporada, ajuda a dar personalidade ao conjunto. A convivência entre pessoas capazes de atrocidades e preocupadas com questões banais produz uma comédia que combina com o absurdo desse mundo. O risco seria transformar cada morte numa piscadela para o espectador, esvaziando qualquer consequência. Black Doves funciona melhor quando permite que o ridículo e a dor coexistam, algo que Whishaw faz com uma naturalidade impressionante.

Isso não elimina o desgaste da fórmula. Continuo achando que essas organizações clandestinas, com recursos aparentemente infinitos e objetivos que exigem explicações demais para despertar interesse de menos, precisam encontrar outros caminhos. O investimento nos personagens torna ainda mais perceptível como certas engrenagens da espionagem são intercambiáveis.

Só que uma crítica também precisa reconhecer o prazer de assistir. Passei a temporada identificando convenções que já me cansaram e me divertindo com o que esses atores fazem dentro delas. Ao fim, posso esquecer os detalhes de uma missão, mas lembro do jeito como Sam reage, do que Helen deixa escapar e de como os dois ficam à vontade juntos. Black Doves tem uma fórmula conhecida e uma dupla que faz parecer uma ótima ideia voltar a ela.


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