Shakespeare: 410 anos depois, por que ele continua imortal?

William Shakespeare morreu em 23 de abril de 1616, aos 52 anos. Quatrocentos e dez anos depois, continua sendo um dos escritores mais importantes e influentes de todos os tempos. Suas peças permanecem em cartaz ao redor do mundo, suas histórias são constantemente adaptadas para o cinema e a televisão e seus personagens seguem tão familiares que, muitas vezes, sequer percebemos quando estamos diante de uma narrativa shakespeariana. Até sua identidade e a autoria de suas obras continuam sendo questionadas, investigadas e imaginadas em livros e filmes, numa controvérsia que diz muito sobre a dificuldade de compreender a dimensão de seu talento.

Shakespeare foi um gênio, e não apenas pela beleza de sua linguagem ou pela capacidade de construir histórias inesquecíveis. Sua compreensão da alma humana foi tão extraordinária que suas personagens atravessaram séculos sem perder a relevância. O amor, o ciúme, a inveja, a ambição, o ressentimento, a culpa e a necessidade de reconhecimento permanecem tão presentes em nossas vidas quanto estavam na Inglaterra dos séculos XVI e XVII. Mudamos nossos costumes, nossas relações e até a maneira de contar histórias, mas continuamos presos aos mesmos conflitos.

Talvez por isso seja praticamente impossível falar de dramaturgia sem voltar a Shakespeare. Ele não inventou todos os sentimentos, situações ou conflitos que retratou, nem todas as histórias que contou eram originalmente suas. Mas soube transformá-los em algo tão universal que seus personagens continuam servindo de referência para praticamente qualquer discussão sobre a condição humana.

Shakespeare conhecia a alma humana antes de Freud?

A conexão entre Shakespeare e a psicanálise é particularmente fascinante. Sigmund Freud nasceu em 1856, mais de dois séculos depois da morte do dramaturgo, mas encontrou em suas obras um repertório extraordinário para investigar o inconsciente.

Hamlet tornou-se uma referência fundamental nas reflexões freudianas sobre o desejo, a repressão e o complexo de Édipo. Lady Macbeth também foi examinada por Freud, especialmente diante da contradição entre sua ambição aparentemente ilimitada e a culpa que acaba consumindo sua existência.

Jacques Lacan voltou a Hamlet para discutir o desejo e a relação do sujeito com o Outro. A hesitação do príncipe dinamarquês, sua relação com a mãe, o pai morto e a impossibilidade de agir ganharam novas interpretações, demonstrando como uma personagem criada séculos antes continuava oferecendo material para a investigação da subjetividade.

Não significa que Shakespeare tenha antecipado teorias psicanalíticas ou que suas personagens devam ser tratadas como pacientes. O mais impressionante é justamente o contrário: ele foi capaz de representar conflitos que a psicanálise, muito tempo depois, procuraria compreender e formular teoricamente.

Macbeth deseja o poder, mas é destruído pela culpa e pelo medo. Otelo ama Desdêmona, mas permite que o ciúme e a manipulação transformem esse amor em violência. Rei Lear confunde amor com submissão e só reconhece sua cegueira quando já perdeu quase tudo. Hamlet deseja vingar o pai, mas permanece aprisionado entre a obrigação, o desejo e a dúvida.

São personagens que não apenas enfrentam conflitos externos. Seus maiores inimigos muitas vezes estão dentro deles mesmos.

E talvez seja essa a marca mais importante de Shakespeare: ninguém é inteiramente bom, mau, corajoso ou covarde. Suas personagens são contraditórias, vulneráveis, frequentemente incapazes de compreender as próprias motivações. Exatamente como nós.

O dramaturgo que nunca saiu do cinema

A influência de Shakespeare sobre o cinema é praticamente inesgotável. Existem adaptações tradicionais de suas peças, transposições para outras épocas e culturas, versões contemporâneas e filmes que utilizam suas estruturas narrativas sem necessariamente mencionar sua origem.

Romeu e Julieta pode ser reconhecido em Amor, Sublime Amor, que transforma a rivalidade entre famílias em um confronto entre gangues de Nova York. A Megera Domada reaparece numa comédia adolescente como 10 Coisas que Eu Odeio em Você. Hamlet encontrou uma interpretação inesperada no universo de O Rei Leão, enquanto Rei Lear serviu de inspiração para Ran, de Akira Kurosawa.

O próprio Kurosawa já havia transportado Macbeth para o Japão feudal em Trono Manchado de Sangue, demonstrando que uma tragédia escrita na Inglaterra poderia encontrar a mesma força dramática em uma cultura completamente diferente.

E há, naturalmente, as versões que celebram diretamente o texto original, como o Romeu + Julieta de Baz Luhrmann, com Leonardo DiCaprio e Claire Danes, ou o monumental Hamlet de Kenneth Branagh.

São exemplos que ajudam a explicar por que Shakespeare continua sendo adaptado. Suas histórias não dependem exclusivamente do ambiente em que foram escritas. Podemos trocar reis por empresários, famílias nobres por organizações criminosas, castelos por arranha-céus e disputas dinásticas por guerras corporativas. Os conflitos permanecem reconhecíveis.

De Macbeth a MobLand: a diferença entre tragédia e reviravolta

Penso frequentemente em Shakespeare quando assisto às séries contemporâneas, especialmente aquelas que apostam em famílias poderosas, traições, disputas pelo comando e sucessões de assassinatos.

Succession, por exemplo, deve muito à tradição de Rei Lear, com seus filhos disputando o reconhecimento e o poder de um patriarca incapaz de separar o amor familiar de sua autoridade. A estrutura shakespeariana também pode ser reconhecida em muitas histórias de organizações criminosas, guerras entre famílias e personagens consumidos pela própria ambição.

Foi algo que voltou à minha cabeça acompanhando MobLand. A série reúne elementos clássicos de uma tragédia: famílias rivais, alianças frágeis, lealdades comprometidas, disputas pelo poder e personagens que parecem caminhar inevitavelmente para a destruição.

Mas existe uma diferença entre reunir os ingredientes de uma tragédia shakespeariana e construir uma tragédia com a profundidade de Shakespeare.

O Bardo não precisava apenas surpreender o público. Suas reviravoltas nasciam, em grande parte, das escolhas e contradições das personagens. Em Macbeth, sabemos desde cedo que a ambição e a violência conduzirão à ruína. Em Otelo, assistimos à manipulação de Iago quase sempre conscientes da armadilha que está sendo construída. A tensão não depende exclusivamente da surpresa, mas do sofrimento provocado por enxergarmos aquilo que os personagens ainda não conseguem perceber.

Nas séries contemporâneas, muitas vezes confundimos complexidade com a quantidade de acontecimentos inesperados. Mortes, traições e revelações se acumulam, mas nem sempre recebem a construção psicológica necessária para que tenham o impacto desejado.

Shakespeare compreendia que uma tragédia não se torna grandiosa simplesmente porque muitas pessoas morrem. Ela se torna grandiosa porque entendemos o que levou cada personagem até aquele destino.

O mistério de William Shakespeare

Há ainda outro aspecto curioso nessa permanência: o próprio Shakespeare continua sendo personagem de histórias.

Conhecemos relativamente pouco sobre sua vida pessoal. Sabemos que nasceu em Stratford-upon-Avon, que foi ator, dramaturgo e homem de negócios, mas existem lacunas importantes em sua biografia. A ausência de determinados registros ajudou a alimentar teorias segundo as quais suas obras teriam sido escritas por outras pessoas, entre elas Francis Bacon ou Edward de Vere, conde de Oxford.

Essas hipóteses são rejeitadas pela ampla maioria dos especialistas, mas continuam despertando curiosidade e inspirando a ficção.

Filmes como Anônimo, de Roland Emmerich, exploraram diretamente a controvérsia sobre a autoria. Já Shakespeare Apaixonado imaginou a vida sentimental do dramaturgo e o processo de criação de Romeu e Julieta. Em Hamnet, a ficção inspirada na vida familiar de Shakespeare aproxima a perda de seu filho da criação de uma de suas tragédias mais célebres.

É como se a obra tivesse se tornado tão extraordinária que o próprio homem já não parecesse suficiente para explicá-la.

E talvez exista uma ironia nisso. Shakespeare escreveu tantas histórias sobre personagens incapazes de compreender inteiramente a si mesmos que nós, quatro séculos depois, continuamos tentando desvendar quem ele realmente foi.

Por que Shakespeare continua insuperável?

Costumamos associar a genialidade de Shakespeare aos grandes monólogos, às frases que atravessaram séculos e às tragédias que continuam sendo representadas em teatros do mundo inteiro. Mas sua maior conquista talvez tenha sido compreender que nenhuma história se sustenta apenas pelos acontecimentos. O que importa é aquilo que esses acontecimentos revelam sobre seus personagens.

Hamlet não é fascinante apenas porque precisa vingar o assassinato do pai. Macbeth não é memorável simplesmente porque deseja se tornar rei. Julieta não permanece viva em nossa imaginação apenas porque se apaixona pelo homem errado. E Lady Macbeth não nos perturba somente porque incentiva um assassinato.

Continuamos voltando a eles porque reconhecemos suas dúvidas, seus desejos, suas contradições e suas incapacidades de lidar com aquilo que sentem.

Shakespeare escreveu aproximadamente 38 peças, além de sonetos e poemas, e ajudou a estabelecer uma linguagem dramática que continua sendo utilizada, transformada e reinventada. Sua influência atravessou o teatro, a literatura, a ópera, o balé, o cinema e a televisão. Chegou à psicanálise e permanece presente em discussões sobre política, relações familiares, poder e comportamento humano.

Em 2024, celebramos os 460 anos de seu nascimento. Em 2026, completaram-se 410 anos de sua morte. São datas importantes, mas quase secundárias diante de uma obra que parece escapar do tempo.

Afinal, Shakespeare morreu há quatro séculos, mas seus personagens continuam vivendo, amando, traindo, desejando, sofrendo e repetindo os mesmos erros.

E talvez seja essa a maior prova de sua genialidade: o Bardo não precisava conhecer o futuro para saber como continuaríamos nos comportando. Bastava conhecer a natureza humana.


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