Cinema, mães e filhas

Fui uma adolescente bizarra e com amigas bizarras também. É que nós não tivemos mães tóxicas e pelo visto não nos deram razões de rebeldia. Não quero dizer que não existiu conflito ocasionais, mas 9 entre 10 filmes ou séries americanas sobre jovens adolescentes as colocam em rota de colisão com suas mães. São os mesmos dramas, gritos e conclusões. Atualmente, na Netflix, há dois (bons) conteúdos com a visão de Hollywood entre mãe e filha. Moxie, de Amy Poehler, e Ginny e Georgia trazem a fórmula usual e se você achar que já viu a história antes, é porque já viu mesmo.

A equação invariavelmente transita em torno de uma mãe solteira ou divorciada, que faz de tudo para que a filha adolescente tenha as oportunidades que ela não teve. Está abandonada fisicamente, sem namorado, fazendo longas horas no trabalho, tentando manter diálogo com a filha que a despreza, a acha antiquada e sem noção. Se Midlred Pierce (filme e série) abordava o tema com consequências mais trágicas, Moxie, filme estrelado e dirigido por Amy, foca na pressão atual das jovens se posicionarem em tempos de #metoo. É uma pena que ao mudar uma fórmula, a outra se mantenha.

Moxie é a adaptação do best-seller do mesmo nome (escrito por Jennifer Mathieu) e é inspirado em uma história real. Vivian, interpretada por Hadley Robinson, descobre o passado da mãe apagada, que um dia foi punk e rebelde. A revelação a inspira a liderar um movimento feminista na escola e se encontrar como pessoa. A parte dos conflitos estudantis é a melhor parte da história. O que soa estranho é a briga entre mãe e filha, que é tão clichê que desafina um pouco. Não que Amy não mostre mais uma vez talento atrás das câmeras. O filme poderia escorregar na tentação panfletária, mas genuinamente coloca as questões de forma que flui. O que destoa mesmo é a crise entre mãe e filha, com Vivian jogando as frustrações em cima da figura materna completamente fora de propósito.

Em Ginny e Georgia a fonte de inspiração é outra. A série cita de cara – e é mesmo – uma versão atualizada de Gilmore Girls. Georgia foi mãe aos 15 anos e criou Gina sozinha. Gina, hoje com a mesma idade que sua mãe a teve, enfrenta todas as mudanças hormonais, sexuais e comportamentais adolescentes, mas com um elemento a mais que é a questão do preconceito racial. Além de oferecer uma versão mais realista de Gilmore Girls (onde Lorelai era de origem milionária), Gina e Georgia trazem muitas coisas do filme Em Qualquer Outro Lugar, de 1999, estrelado por Natalie Portman e Susan Sarandon. Georgia não pára em uma cidade por muito tempo, deixando Gina uma jovem angustiada com sua mãe aparentemente imatura. Há diálogos e sequências muito parecidos na série da Netflix e o filme, mas nem mais de 20 anos consegue alterar a fórmula de “mãe maluca, filha responsável”. Se estamos trazendo elementos que encorajam aceitação e alimentam a sororidade entre mulheres, há um capítulo que ainda merece ser explorado e mudado.

As relações entre gerações são clássicas. Para encontrar sua voz, todo adolescente “rompe” com os pais em algum momento e é comum que vejam os pais como “perdedores” ou “sem noção”, até para que se sintam importantes. A trilogia Para Todos Os Garotos Que Já Amei esbarra com isso também, mesmo que não tenha uma “mãe” e o conflito seja com o pai. É geração contra geração.

Amy Poehler traz uma sutileza que pode sinalizar novidade. Sua personagem não é repressora nem forçosamente amiga da filha. Calma e consciente, ela não perde a linha e lida com os pitis da filha com maestria. Só que esvazia o drama de Vivian, que fica “sem causa” e reduz a necessidade da revolta. Ginny e Georgia traz uma Georgia que também não esquenta a cabeça com os dramalhões da filha em uma relação passiva-agressiva curiosa. Mais sobre a série em outro post. Fica aqui apenas um questionamento de como mulheres podem avançar e aplicar dentro de casa uma mudança essencial, que Gilmore Girls, em seu universo irreal, trazia com humor: a amizade entre mãe e filha. Sem revoltas.



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