O último duelo: equilíbrio, mas sem emoção

Matt Damon e Ben Affleck alcançaram o estrelado trabalhando em um roteiro (e filme) juntos, Gênio Indomável, em 1997, portanto um roteiro assinado pela dupla, inspirado em um fato real e dirigido por Ridley Scott tinha tudo para dar certo. Mas não dá.

A história de O Último Duelo é fascinante. Há mais de 600 anos a Justiça Francesa tem dúvidas sobre a acusação, o crime, e, principalmente, a sentença. Tanto que , logo após a tragédia, a possibilidade de duelo até a morte foi retirada da legislação no país, talvez tarde demais. O fato de que tudo ficou registrado nos autos do processo cria uma fonte riquíssima para explorar o drama, mas é justamente “drama” que faz falta no roteiro. E olha que a história mescla ambição, traição, política, sexo e morte.

Por volta de uma França dos anos 1300s, dois amigos , Jean de Carrouges (Matt Damon) e Jacques Le Gris (Adam Driver), cavaleiros que lutam pelo Rei da França, têm tudo a favor e contra eles. Jean, de origem nobre, está falido e é obcecado por guerras, dinheiro e títulos. Já Jacques, de origem plebéia, ascende por saber agradar a nobreza, ganhando dinheiro e poder, enciumando Jean que se acha prejudicado pelos talentos de Jacques.

No meio da amizade já fragilizada pela inveja, entra Marguerite Thibouville (Jodie Comer) a filha de um nobre traidor que tem posses, mas precisa recuperar o prestígio de seu nome. Jean se casa com Marguerite, sem amor, por dinheiro porém parte da fortuna prometida como dote é repassada para Jacques, determinando em Jean que (a essa altura o ex-amigo) está perdendo “tudo que é seu” para um oportunista.

Se não bastasse tudo, segundo consta, Jacques invejava Jean justamente pela união com Marguerite. Um dia em que ela está sozinha em casa, Jacques invade o castelo e a violenta, sugerindo que a mulher mantenha o segredo para que não desperte a ira do marido contra ela. Claro que Marguerite não apenas revela tudo, como apoia ao marido quando ele decide demandar reparação judicial pelo estupro. Claro, pago com a morte de Jacques e a devolução das terras para Jean.

A motivação de Jean pela reparação parece ser concretamente mais inspirada em ambição e oportunidade de vingança do que preocupação com Marguerite. Isso está no roteiro e na boa interpretação de Matt Damon, que sabe pegar personagens menos simpáticos e defendê-lo. Porém, para a Justiça francesa, o fato de que Jacques negou o crime até sua morte, literalmente, é o que confunde tudo. O duelo, para os franceses na época, seria a forma de “Deus” apontar a parte certa, pois certamente a errada perderia. Jacques teve mais que uma oportunidade de se safar da acusação, mas insistiu porque seria um homem inocente. Nenhum católico que tivesse medo de ir para o Inferno teria a convicção que ele apresentou.

E Marguerite. Ela estava com dificuldades de ter filhos e após o estupro, engravidou. Por muitos anos, a sociedade machista quis insinuar que ou o caso foi consensual ou outro homem a engravidou, mas que ela teria aproveitado a rixa para acobertar sua traição. No entanto, caso Jean tivesse perdido, ela teria ido para a forca, portanto os argumentos de que estava dizendo a verdade são fortes. Nunca saberemos a verdade.

O fato de que uma mulher tivesse tido a coragem de demandar justiça em tempos medievais já renderia uma boa história, mas o roteiro é nitidamente voltado para o público masculino. Decide que veremos as três versões, que mudam a perspectiva completamente, mas ressaltam que a versão de Marguerite é “a verdadeira”. Nela, a jovem é obediente, mas não ama o marido. Isso não significa que o trairia, mas tampouco que jamais observasse a beleza de Jacques, um homem que era conhecido por suas conquistas militares e femininas.

Adam Driver é que tem que mostrar maior versatilidade pois, a cada versão, Jacques parece diferente, mas o ator consegue trazer as sutilezas de como ele se via e outros o viam. Com um ator menos talentoso, Jacques Le Gris seria um vilão típico, mas com Adam ele tem profundidade.

Ben Affleck fez a curiosa escolha de maquiagem para sua personagem, mas ele realmente prefere sempre ser apoio quando Matt está liderando. Não compromete.

Jodie Comer é que infelizmente não tem material para se sobressair. A duplicidade de Marguerite é sutil, mas sem contexto. Não ter química com Matt Damon não é problemático para o papel, mas não há empatia para entender a violência que a personagem teve que superar. Uma pena porque a escolha é, em tese, dar credibilidade a Marguerite, mas isso não transparece com força na tela.

O filme foi prejudicado pela Covid-19 para gravar, mas, ainda mais por não ter encontrado salas de cinema abertas. O Último Duelo chegou com discrição às telas do Star Plus, mas a história verdadeira ainda merece um melhor relato. Talvez até em minissérie.

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