O papel de Martha Mitchell em Watergate

“Martha estava certa”.

As palavras escritas por um fã, em 1976, em um arranjo floral no funeral de Martha Mitchell, estão sendo contextualizadas 46 anos depois, na série Gaslit, da Starz. Para americanos, e mais velhos, o nome tem maior significado do que para estrangeiros. A socialite do sul dos Estados Unidos, conservadora e polêmica, foi casada com o procurador-geral do governo de Richard Nixon, John N. Mitchell e se tornou a primeira fonte do presidente a se voltar contra o governo quando estourou o escândalo de Watergate. No entanto, sua história foi praticamente excluída da narrativa geral. Tudo mudou em 2017, com o podcast da Slate, Slow Burn que recontou a história de Martha e chamou a atenção de Hollywood. Com isso nasceu a série, estrelada pelos oscarizados Julia Roberts e Sean Penn como os Mitchells.

E já era tempo. Sim, é mais uma série biográfica mudando os termos da História, 50 anos depois, só que nesse caso tem algo relevante para ser revisitado. Martha, que era uma mulher autêntica e sincera, desbocada, que foi pintada como mentalmente instável por muitas décadas, por isso o nome de “Gaslit”, a “gíria” inspirada no filme Gaslight sobre um homem manipulador que convence uma mulher que ela está enlouquecendo apenas para encobrir a verdade que ela descobriu. No caso aqui, se refere ao que a série mostra, Martha como “a primeira pessoa a conectar publicamente o governo Nixon a Watergate”.

No filme Nixon, Martha foi interpretada por Madeleine Khan, agora é a estrela Julia Roberts que a abraça. Ser escolhida para ser interpretada pela maior estrela do cinema dos últimos anos é muito significativo. Na época da crise, em 1972, ela liderava o Comitê para a Reeleição do Presidente (apelidado de CREEP, uma analogia para “medonho”, em uma tradução livre), hoje é defendida por liberais.

Como muitos bógrafos mostraram, inclusive a reduzindo a um papel de mulher bêbada e afetada pelas mudanças hormonais da menopausa, Nixon se irritava com o jeito franco de Martha, que era comunicativa. Sua filosofia, mesmo sendo uma esposa política, era a de falar a verdade:  “Eu decidi há muito tempo que vou dizer como me sinto. E se isso não acontecer t estar em conformidade com a mensagem do presidente, que assim seja. Se isso me banir do Air Force One, voarei comercialmente”, famosamente declarou em uma entrevista. Nixon tinha razão para temê-la.

Sua sinceridade, obviamente, em tempos opressivamente machistas, foi associada à histeria, tudo para descreditar a fonte. Martha e Nixon “disputavam” a lealdade de John, que vacilava entre sua paixão pela esposa e a fidelidade ao Presidente. O casamento dos dois escalou para violência e acabou em divórcio, mas cinematograficamente. Ter um Sean Penn completamente transformado fisicamente no Procurador-Geral tem Emmy escrito em toda parte.

A série se chama Gaslit justamente porque, embora John Mitchell amasse Martha, minou sua confiança e menosprezou seus comentários, tentando domar a personalidade forte da esposa. Como sabemos hoje, Martha Mitchell, percebeu bem antes de seu marido que todos ao redor de Nixon estariam destinados a se tornar bode expiatório. Não necessariamente adepta a causa feminista, mas perspicaz, ela desafiou o ambiente tóxico e machista de sua época.

Recontar a história de Martha, no ano em que Watergate completa 50 anos, é muito importante. Nem Nixon, ou Todos os Homens do Presidente fizeram as referências necessárias para as mulheres envolvidas, quase todas relatadas como inseguras, problemáticas ou alcóolotras. Martha chegou a ser silenciada à força, em meio de um telefonema com uma reporter e confinada em um hotel, literalmente sequestrada por ordem do próprio marido para não revelar demais sobre Watergate. Claro que foi inútil. Um dos invasores presos era um dos seguranças dos Mitchells e ela revelou a verdade para a imprensa. Infelizmente, ela não era muito levada à sério nem mesmo pelos repórteres.

O casamento dos Mitchell não resistiu a Watergate. Por amor, inicialmente, Martha procurou repórteres quando o papel de seu marido no escândalo se tornou conhecido e ela queria defendê-lo, o encorajando a se voltar contra o presidente. John renunciou, citando seu desejo de passar mais tempo com sua família como motivo, mas a corrupção no Partido Republicano já era algo que estava difícil de acobertar.

Em maio de 1973, Martha prestou depoimento sob juramento no escritório do advogado Henry B. Rothblatt em conexão com o processo civil de US$ 6,4 milhões do Partido Democrata contra o CRP. Meses depois, em setembro, o marido a deixaria repentinamente, saindo da casa da família com sua filha, Marty. Por causa de seu envolvimento no escândalo, ela foi desacreditada e abandonada pela maioria de sua família, exceto por seu filho Jay.

John foi condenado por perjúrio, obstrução da justiça e conspiração por seu envolvimento no arrombamento de Watergate, servindo 19 meses em uma prisão federal. Ele e Martha nunca mais se viram.

O sequestro e ataque à Martha foi confirmado em 1975, pelo segurança contratado por Arthur. Segundo James W. McCord Jr., além do medo do que Martha estava relevando, assessores de Nixon tinham “ciúmes” da popularidade dela e procuraram maneiras de envergonhá-la. A principal confirmação veio do próprio Richard Nixon, em sua famosa entrevista à David Frost, em 1977: “se não fosse por Martha Mitchell, não haveria Watergate”.

Depressiva, suicida e lidando com dependência química e de álcool, Martha Mitchel faleceu em 1976, em consequência de um câncer. Tinha apenas 57 anos. Para Julia Roberts, seu silêncio forçado tem que ser revisto, daí a importância de Gaslit. O primeito episódio já está no Starzplay no Brasil.

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