A trágica história de Antonina Miliukova, a esposa de Tchaikovsky

Enquanto esteve vivo, em uma Rússia já homofóbica, Pyotr Illytch Tchaikovsky escondeu ser homossexual e, eventualmente, se casou por impulso para enterrar as já obvias suspeitas. A eleita foi a jovem Antonina Miliukova que por muitos anos foi conhecida como neurótica e ninfomaníaca. Terminou seus dias internada como louca. Atualmente, o papel de Antonina na vida de Tchaikovsky não é mais visto nos termos unidimensionais que mancharam sua memória, mesmo que, de fato, sua existência contribuíram para piorar o estado psicológico e físico do compositor.

Essa trágica história, sempre colocou Antonina negativamente, e nem mesmo seu relato foi levado à sério, tendo sido rotulado como produto de uma mulher imprudente e insana. No filme de 1971, Delírio de Amor (The Music Lovers), o diretor Ken Russell trouxe uma excelente Glenda Jackson no papel da infeliz jovem, e Richard Chamberlain como Tchaikovsky. Agora, 51 anos depois, o Festival de Cannes traz uma ousada produção russa que ousou a repressão de seu país para contar a história de um de seus heróis, que por acaso era gay. Essa trajetória e toda toxidade do relacionamento doentio do casal é o tema do filme A Mulher de Tchaikovsky (Tchaikovsky’s Wife), que abriu o festival em 2022.

Dirigido por Kirill Serebrennikov, a produção encarou censura nas mãos de seu governo nacional e conta a história de Antonina como uma esposa dedicada, porém renegada do compositor. Para o diretor, mais do que uma história infeliz de amor, é uma metáfora para outras formas de resistência à autoridade.

Revisada agora, Antonina é retratada como uma mulher tão sinceramente apaixonada por seu ídolo que aceita fazer parte da farsa que custou sua saúde mental. Interpretada por Alyona Mikhaylova nas telas, a realidade é diferente. Historiadores confirmam que a jovem conheceu Tchaikovsky em 1865, 12 anos antes de se casarem, através de uma amiga em comum, a cantora Anastasia Khvostova. Com apenas 16 anos na época, ela se encantou com internacionalmente famoso Tchaikovsky (no atual filme, interpretado por Odin Biron), que tinha 25 anos na época. O impacto desse primeiro contato jamais foi lembrado por ele, mas Nina, como a chamavam, ficou obcecada. Desistiu do trabalho como costureira profissional para estudar música no Conservatório de Música de Moscou e ter aulas com ele. Sem dinheiro, o plano deu errado, mas em 1877, quando recebeu uma herança ela decidiu mandar cartas de amor para seu ídolo e descobriu que agora as coisas teriam mudado.

É que a essa altura Tchaikovksy se sentia vulnerável às críticas da sociedade por ser homossexual e em um ímpeto propôs casamento a Nina. Desastre anunciado. O compositor nunca esteve apaixonado pela esposa, desgostava de sua origem simples e de sua família complicada. Em apenas seis semanas se separaram. Um dos grandes conflitos, hoje mais do que nunca é claro, foi o fato de que ela se casou sem desconfiar da opção sexual do marido e esperava constituir família, ou seja, ter relações sexuais. Para Tchaikovsky, a relação sempre seria fraternal. Ao ter relações com outros homens, Antonina entrou para a História como ninfomaníaca. Não é bem verdade.

A imagem negativa de Nina, perpetuada por séculos, nasceu também da descrição do irmão do compositor, Modesto, que a descrevia como idiota enlouquecida (sic), embasado também com relatos de amigos do músico, que também se preocupavam com os sinais de desequilíbrio de Nina.

Vinda de uma família disfuncional, ela passou sua infância em um ambiente emocional desfavorável. Quando retomou o contato com seu futuro marido, em março de 1877, foi logo com uma carta de amor se confessando apaixonada. Surpreendentemente, ele correspondeu e em apenas quatro encontros, propôs casamento, prometendo à noiva apenas seu amor “fraternal”. Era a maneira que ele tinha encontrado para antecipar a verdade, mas Nina ignorou e aceitou, esperando uma união completa. O fato de que na época em que isso tudo aconteceu o compositor estava trabalhando na ópera Onegin, um dos seus clássicos, até hoje gera especulações de que a vida imitou a arte. Lembrando que Tatiana escreveu uma carta de amor para Onegin, e foi rejeitada, é irônico pensar que ele vivia algo semelhante em sua vida pessoal. Segundo suas cartas para sua patrona, Nadezhda von Meck, deixou claro sua simpatia por Tatiana e seu desejo de evitar “repetir” a crueldade de Onegin em relação a um mulher que o ama. Seja como for, ele se casou sem pensar e se arrependeu imediatamente. Memso 20 dias depois, o casamento ainda não tinha sido consumado.

Arrependido e “preso” ao casamento, Tchaikovksy teve um colapso nervoso. Chegou a pedir ao irmão, Anatoly e ao amigo, o compositor Nikolai Rubinstein, que comunicassem à sua esposa que a separação dos dois era permanente. Nina, feliz de ser a mulher de Tchaikovksy, reagiu como se nada estivesse acontecendo e a negação preocupou os dois homens. Essa reunião é a principal evidência contra Nina, o fato de que não reagiu emocionada quando foi avisada do fim do casamento.

Na verdade, Nina sempre se viu como vítima de uma conspiração familiar que sempre a rejeitou. Além disso, considerou que o colapso de Tchaikovsky foi causado pela angústica de estar dividido entre a esposa e sua música.

Seja como for, arrependido, Tchaikovsky chegou a tentar o divórcio, mas na Rússia só era possível se uma das partes admitisse ser infiel. Nina se recusou, esperando se reconciliar com o marido, mas passou a ter relações com outros homens. Recusou as tentativas de suborno que foram feitas para que mudasse de decisão. Desesperado, ele tentou se matar entrando no rio congelado em Moscou. Nada abalou a Sra. Tchaikovksy. Depois de alguns anos, ele desistiu de tentar.

Embora muitos tenham colocado a imagem negativa da esposa obstinada, o próprio Tchaikovsky teria escrito para Nadezhda von Meck que Nina era inocente. “Minha esposa, seja lá o que for, não deve ser culpada por eu ter levado a situação ao ponto em que o casamento se tornou necessário”, ele escreveu. “A culpa de tudo está na minha falta de caráter, minha fraqueza, impraticabilidade, infantilidade!”, admitiu. Porém, com parentes e amigos era menos discreto e passou a odiar a esposa, que chamava de “réptil”, ficando histérico quando recebia notícias dela.

Com receio de que ela tornasse público seu segredo, especialmente porque logo Nina passou a ser descrita como “imprevisível”, Tchaikovsky se manteve longe da esposa, pagando uma mesada. Entre 1881 e 1884 Antonina teve três filhos ilegítimos de Aleksandr Aleksandrovich Shlykov, um advogado com quem viveu desde se resignou que o marido a tinha deixado mesmo. Até hoje, no entanto, ainda sob a narrativa de que era ninfomaníaca, alguns alegam que houve mais homens e que cada filho teria um pai diferente e todos foram entregues para adoção, mas os três morreram durante a infância.

A relação distante, mas desgastada, chegou ao fim com a morte repentina do músico aos 53 anos, em 1893. Oficialmente alegam que foi cólera, depois de ter bebido um copo de água não fervida. Outros consideram que foi suicídio. Nina ainda viveu 24 anos, mas muito mal. Logo após a morte do compositor, ela começou a apresentar sinais de distúrbio emocional (mania de perseguição), quando piorou, três anos depois, foi internada em um manicômio, onde ficou 20 anos, diagnosticada com paranóia crônica. Morreu de pneumonia, em 1917. Nina deixou registrada suas lembranças do casamento em cartas e documentos jamais publicados, e onde o biógrafo de Tchaikovsky, Alexander Poznansky, diz que ficou uma lembrança de uma ” ingênua, superficial e não muito inteligente”, mulher, dedicada à memória de seu marido, ainda sua inabalável fã.

No filme A Mulher de Tchaikovksy, Serebrennikov aposta na teatralidade para revisitar o drama, transformando o filme, como alertam os críticos, em “um conto assustador de desintegração mental em seu ato final”. Uma história trágica e ainda muito atual.


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