Que os puristas me condenem, gosto mais de Anne Elliot do que de Elizabeth Bennet

A poucas semanas da estreia da nova adaptação do livro Persuasão, para Netflix, me permito mais uma vez não apenas falar de um dos meus livros preferidos, mas de uma das melhores personagens nas páginas de Jane Austen. Que os puristas me condenem, gosto mais de Anne Elliot do que Elizabeth Bennet de Orgulho e Preconceito.

Tímida, vivida, empática e humilde, Anne é o fruto da imaginação amadurecida da autora, literalmente sua última heroína. Aos 27 anos na época corresponderia os 50 anos de hoje) e ressentida por ter sido persuadida a abrir mão do amor romântico para esperar uma união mais aceitável para a sociedade. Rejeitou dois pretendentes, mas o primeiro – Capitão Frederick Wentworth – ainda é o amor de sua vida. Oito anos depois, ainda solteira, Anne se arrepende por ter deixado se influenciar por outras pessoas, em especial sua madrinha, Lady Russell, Anne é uma pessoa triste, cuja “passagem de tempo é vista claramente”.

Ninguém realmente vê Anne, ela une as pessoas e diferentes universos, mas é tão discreta e correta que nem mesmo sua família lembra de sua ligação com Frederick. Ela é a pessoa com quem todos podem contar e conversar, mas é a primeira a ser descartada. Sempre.

A força de Anne, assim como sua resignação de lidar com as consequências de suas escolhas, é o que emociona e conduz a trama. O que fez de Anne, em termos, um papel menos atraente para Hollywood. Afinal, Emma é a mais bonita e rica, Marianne Dashwood é apaixonante e Elizabeth Bennett é mordaz e inteligente. Anne é como água: inodora e insipida. Ambas são apaixonantes.

Por essas razões, que ao anunciar Dakota Johnson para a versão do filme que estreia dia 15 de julho, algumas pessoas estranharam. Dakota tem um destaque – e beleza – distintos de Anne, apesar de estar próxima da idade. E, pelo trailer, percebemos que fizeram escolhas ousadas.



Como descrevi em março de 2021, Persuasão foi escrito por Jane Austen logo após ter terminado Emma, quando já estava com a doença que viria tirar sua vida. Por conta dessa limitação de saúde, o livro é considerado menos elaborado do que Mansfield Park e o próprio Emma, que Jane ampliou em personagens e construção. O fato de eleger uma protagonista madura foi inovador e um presente para si mesma assim como sua amada irmã, Cassandra. Como ela descreveu “odas as mulheres que tinham perdido suas chances na vida e que nunca desistiram de uma segunda primavera“.

Quando o projeto foi anunciado, a Netflix descreveu que  a versão que será dirigida por Carrie Cracknell, Anne Elliot será uma mulher sensível e questionadora da sociedade moderna, lidando com uma família esnobe porém em falência financeira. É quando um ex-namorado, com quem ela rompeu ainda jovem e influenciada por parentes, reaparece em sua vida. Anne se vê então escolhendo entre seguir seu coração e esquecer o passado, apostando em segunda chance, ou seguir o caminho que sua família espera que ela siga.

Elizabeth Bennett é mordaz e inteligente. Anne é como água: inodora e insipida. Ambas são apaixonantes.

Em 2021, ainda achávamos que a série seria transportada para os dias atuais. Mas não, em seguida vimos que era mesmo um filme de época.


O que parecia nos tranqualizar, passou a dar ansiedade. No elenco, mais inclusivo, traz. Henry Goulding como Sir William Elliot, “primo” de Anne. E assim vamos. Para piorar, o texto perfeito de Jane Austen foi “atualizado”, com os puristas entrandom desespero quando Dakota, como Anne, diz “agora somos piores que amigos, somos ex”. A superioridade das escolhas das palavras pela autora é inegável: “eram como estranhos; não, pior do que estranhos, pois nunca poderiam se conhecer. Era um distanciamento perpétuo”.


Outros reclamaram que a quebra da quarta parece, quando Anne olha para nós na plateia, é uma linguagem muito Fleabag, mas a versão de 2007, com Sally Hawkins, já tinha feito essa opção. Embora Amanda Root, da versão de 1995, ainda seja a mais perfeita de acordo com o livro, tenho esperança pela nova versão, tamanha minha paixão pela história. De fato, dar personalidade à Anne como se fosse uma Elizabeth, é desnecessário.

Em poucas semanas saberemos o resultado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s