Os 240 anos do livro Ligações Perigosas

Uns 7 anos antes da Revolução Francesa uma publicação causou sensação na França. Les Liaisons dangereuses, Ligações Perigosas, de Pierre Choderlos de Laclos, foi publicado pela primeira vez há 240 anos, em quatro volumes, em março de 1782. Embora seja uma obra de ficção, poderia ser o que hoje chamam de ficção histórica. Com apuro e ousadia, o livro falava de romances, traições e escândalos na corte francesa, o símbolo de decadência e opulência que viria acabar violentamente apenas sete anos depois.

A trama do livro é relativamente simples: uma casal de ex-amantes faz uma aposta amoral de corromper boas pessoas, mas, na verdade, há uma vingança pessoal conduzindo a tragédia. O que é excepcional no livro é a narrativa da história, completamente original. É como se fossem uma coletânea de cartas e foi apresentado como “cartas fictícias coletadas e publicadas por um autor fictício”. Era tão próximo da realidade e tão bem escrito que foi um escândalo. Muitos acreditavam que as cartas eram verdadeiras, apenas os nomes alterados. E a teoria que ainda persiste é a de que Laclos, sendo testemunha da devassidão moral dos nobres tinha a mesma intenção do suposto autor secreto no livro, o de revelar os poderes da nobreza francesa do Ancien Régime.



O livro é uma junção de cartas escritas pelos vários personagens entre si, em especial, o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil. Os dois amigos, ex-amantes e eventuais rivais, são um exemplo nato de narcisistas sem empatia por suas vítimas. Usam a sedução como arma para controlar e explorar socialmente os outros, como um jogo e se gabam como conseguem manipular todos com facilidade.

Embora a corrente que defenda rebeldia de Laclos exista, é improvável que sua motivação tenha sido de criticar a nobreza. O autor, que circulava entre eles, foi patrocinado pelo
duque de Orléans e todos os personagens da história são aristocratas, incluindo os poucos virtuosos da trama. Mais provável que ele apenas tenha escrito o que testemunhava. O escritor era um oficial militar e escritor amador que queria “escrever uma obra que se afastasse do comum, que fizesse barulho e que permanecesse na terra após sua morte”. Tentou com poesias, libretos para óperas, mas sem sucesso precisando se manter mesmo como militar.

Em uma missão ao exterior, em 1777, acompanhando o Marquês de Montalembert, começou a trabalhar em Les Liaisons Dangereuses, que terminou em seis meses, para os quais pediu um afastamento para poder terminar. Quando lançou, o sucesso foi tão absoluto que vendeu mais de mil cópias e a para aumentar a reputação ousada de Ligações Perigosas, a própria Rainha Maria Antonieta leu e adorou a obra. É considerada até hoje uma das obras-primas da literatura do século 18.


Li o livro por volta de 1989, depois de ter sido fortemente impactada com as brilhantes atuações de Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer no filme de Stephen Frears. As cartas são fortes, detalhadas e é um livro sensacionalmente inteligente. Sim, ainda melhor do que o filme ou as adaptações para série (TV Globo) ou cinema. Isso porque as cartas são subjetivas em muitos aspectos, dando a versão de quem a assina e frequentemente não sendo necessariamente a “verdade”. Quando as personagens discutem, cabem aos leitores perceberem as entrelinhas e não há um narrador que nos dê dicas. É incrível. Em especial porque nas cartas, em geral o cinismo impera, tanto do lado de Valmont como o de Merteuil, portanto é difícil tomar lados.

Já postei sobre isso aqui, mas é incrível que o primeiro filme da história só tenha surgido no final dos anos 1950s, quando Roger Vadim atualizou a história para a época, com Jeanne Moreau como Merteuil. Em 1976 ele voltou à história, em um filme de época (porém nos anos 1800s), com Une Femme Fidèle. Precisou o teatrólogo Christopher Hampton escrever a peça adaptando o livro, e mantendo em sua época original, causando sensação em Londres para que o livro fosse redescoberto internacionalmente.



Em Londres e na Browadway, Alan Rickman (isso mesmo, anos antes de Harry Potter) fez grande sucesso como Valmont, mas não foi escolhido para o cinema. Houve uma discussão para duas versões. A do diretor Milos Forman entrou em conflito com o estúdio e assim Stephen Frears assumiu a produção de 1988, que é uma refilmagem da peça e rendeu indicações ao Oscar para Glenn Close e Michelle Pfeiffer. John Malkovich fez uma das suas maiores atuações, mas não foi indicado. No elenco ainda estavam Uma Thurman e Keanu Reeves.

A versão de Forman, de 1989, com Colin Firth no papel de Valmont e Annete Bening como Merteiul, não foi tão bem sucedida e altera radicalmente o final. Dez anos depois, Cruel Intentions, com Sarah Michelle Gellar, Reese Witherspoon e Ryan Philippe levou a trama para os dias atuais, em Nova York. Atualmente há uma versão teen, na Netflix e em breve a Starz vai lançar a série sobre a juventude e romance entre Merteuil e Valmont, apenas mencionados por ambos nas cartas.

A atemporalidade da trama está na verdadeira motivação em todas as relações: a de amor não correspondido. Merteuil, uma mulher forte e sobrevivente em uma sociedade patriarcal, usa de sexo e sedução para se manter independente, mas ama profundamente Valmont. Ela percebe antes dele que sua intenção de seduzir a casta Madame de Tourvel é genuinamente o que ele nunca sentiu por ninguém: o amor verdadeiro. Enciumada, Merteuil não mede esforços para destruir a rival e o ex-amante, trazendo infelicidade e tragédia para vida dos dois e a dela mesma. A atuação de Glenn Close no papel é icônica.

Agora com 240 anos passados do lançamento do livro, mais outros 34 do filme, alguns diálogos estão ainda mais incômodos, em especial à submissão de Tourvel quando se apaixona. Mas era alinhada com a época. Com timing de data, a série da Starz só deve entrar na plataforma em novembro, mas vale a pena relembrar a obra antes disso. Aliás, sempre. Será curioso ver o quanto será mudado para adequar a narrativa tão anti-feminina em tempos atuais. Estou bastante curiosa.

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