A história de Consuelo Vanderbilt

Sou uma das maiores fãs da série The Gilded Age, que teve uma ótima primeira temporada e com chances de melhorar ainda mais na segunda, em 2023. O que é interessante é que apesar de ser uma história de ficção, há menções de fatos e inclusão de pessoas verdadeiras, o que torna a trama ainda mais fascinante. Enquanto a família Brook-Van Rhijn saiu da imaginação de Julian Fellowes, a trajetórai dos Russells é 100% inspirada na fascinante história dos Vanderbilts, em especial em Alva Vanderbilt.

Como vimos com Bertha Russell (Carrie Coon) é extremamente importante para ela conquistar um lugar de prestígio na exigente sociedade de Nova York, liderada pela esnobe Caroline Astor (Donna Murphy). Todas as artimanhas que foram feitas para aproximarem as duas são inspiradas em situações reais, incluindo o baile que fechou a segunda temporada.

Dentre as várias histórias a serem desenvolvidas na segunda temporada está a de Consuelo Vanderbilt, a filha de Alva, a americana que virou Duquesa (muito antes de Meghan Markle ou Wallis Simpson) que é o espelho de Gladys Russell (Taissa Farmiga). Ironicamente, Consuelo também foi a inspiração para Cora Crawley (Elizabeth McGovern) de Downton Abbey e veremos porquê.

A “nova-rica” que virou a Duquesa americana

Consuelo Vanderbilt nasceu em 2 de março de 1877, em Nova York. Seus pais, William Kissam Vanderbilt e Alva Erskine SmithVanderbilt, eram milionários. Sua mãe, determinada a ser “alguém”, cuidava cuidadosamente de todos os detalhes de sua vida, de uma maneira tão notória que conflitos foram inevitáveis desde cedo.

Muito bonita, Consuelo era o trunfo que os Vanderbilts valorizavam calculadamente. Sua fortuna e sobrenome só poderiam ser unidos a de alguém superior ou igual a eles. Até seu nome foi escolhido já sinalizando o que a esperava. Consuelo era o nome de uma amiga de Alva que através do casamento virou Duquesa de Manchester. Alva estava determinada que para sua filha, apenas Duques ou Príncipes serviram como marido.

Alva, como sabemos, era uma mulher prática e ambiciosa que se casou com William e trabalhou com ele para fazer dos Vanderbilts um nome de prestígio. Suas mansões em Manhattan tomavam mais de um quarteirão, assim como a de Newport parecia um castelo. Consuelo gostava de coisas simples, como caçar caranguejos, pescar e velejar, atividades que compartilhava com seu pai. Com sua mãe era outra história: afazeres, festas, politicagem social. Os verões passados ​​em Newport, na colossal Marble House, eram comparados à estar em “uma prisão”, tudo por causa da pressão materna.

Mas o pior estava por vir. Quando seu pai se apaixonou por outra mulher, Consuelo se viu como a salvação de sua mãe. Isso porque Alva fez o impensável para a época: pediu o divórcio. O escândalo alcançou proporções inimagináveis, destruindo todo o esforço de ser uma referência na sociedade. Afinal, ser traída era “aceitável”, mas ser idenpendente? De forma alguma. Para piorar, Alva se casou rapidamente com o milionário Oliver Hazard Perry Belmont. Tinha que domar a sociedade novamente e sabia que seria através de Consuelo, que tinha uma herança estimada em 20 milhões de dólares, algo na casa dos quatro bilhões de dólares em tempos atuais.

A essa altura, assim como acontece com Gladys em The Gilded Age, Consuelo estava apaixonada e comprometida de palavra com um jovem rico, Winthrop Rutherfurd. Porém ele não era nobre nem inglês, e Alva se opôs. Ela embarrera qualquer contato entre os namorados, fosse correspondência ou encontros. Embarca com a filha para uma viagem para Europa, com Winthrop no encalço. Para tentar desencorajar Consuelo de vez, Alva inventa uma história que ele não poderia ter filhos. Depois que a futura duquesa tentou fugir de casa sem sucesso, ela foi trancada em seu quarto.

O verdadeiro obstáculo estava no fato de que ela já tinha encontrado o genro ideal: um nobre inglês falido que tinha o pomposo título de duque de Marlborough. Charles Richard John Spencer-Churchill (isso mesmo, parente distante da Princesa Diana e Winston Churchill) podia ser era descrito como “ranzinza, crítico, desconfiado e sem qualidades intelectuais”, mas era perfeito para ela. Não necessariamente para Consuelo, mas ela não tinha voz sobre o assunto. E Alva mentiu que tinha doença terminal e seu último desejo era essa união. Venceu.

O casamento foi ainda mais suntuoso do que o “baile dos 400” que já tinha feito história. Todas as pessoas que tinham excluído Alva após o divórcio suplicaram por um convite, em uma cerimônia cercada de ostentação e histeria. Expectadores viraram a noite na calçada para ver os convidados da festa e principalmente, a noiva. Todos jornais falavam do enxoval: desde o espartilhos de renda rosa e ganchos de ouro, como meias de seda presas por ligas incrustadas de diamantes. Mas os convidados repararam que a noiva subiu ao altar em lágrimas e ainda teve que esperar pelo marido, que chegou atrasado para a cerimônia após negociações de última hora para espremer mais da fortuna de Vanderbilt, algo em torno de 2,5 milhões de dólares, mais de 25 milhões hoje.

Sem surpresa, a história descreve a união dos dois como “um dos casamentos mais infelizes da história”, mais um dos arranjos de “dólares para duques”, usual na época para americanos ricos. Consuelo foi uma das nove jovens que fizeram tal casamento em 1895 e mesmo sem amor ou controle sobre sua vida, construiu uma família como Duquesa de Malborough, com dois filhos que garantiram a continuidade da família.

Popularidade com a Realeza, infelicidade em casa

Consuelo precisou se adaptar a um casamento sem amor, uma nova casa – o palácio de Blenheim, que usou parte do dote para ser recuperado – e um novo país. Ainda assim, ela conseguiu brilhar. Rapidamente passou a ter jantares com a realeza, festas de caça e bailes, virando uma celebridade tão popular na Inglaterra que foi uma das quatro duquesas escolhidas para carregar o dossel da Rainha Alexandra na coroação de Eduardo VII.

Com um casamento de fachada e um marido mais ocupado em restaurar Blenheim e participar de caçadas ou jantares, Consuelo passa a viajar com frequência para Paris, onde se diverte e reencontra seu adorado pai. Na Inglaterra, o primo de seu marido, Winston, e seus filhos, são seu consolo. Depois de 11 anos tentando seu melhor, a separação oficial depois que o Duque se apaixona por outra.

Livre legalmente, ela não retorna imediatamente para os Estados Unidos e permanece em Londres, por causa dos filhos, na Inglaterra até que atingissem a maioridade. Foi assim que, como sua mãe, se envolve com a luta pelo voto feminino e outras causas sociais. Mas em breve seria plenamente feliz.

Antes de se apaixonar por Winthrop Rutherfurd, quando tinha apenas 17 anos, Consuelo tinha se envolvido com Jacques Balsan, um francês que viria a fazer história na aviação, mas era virtualmente “ninguém” naquele primeiro encontro. Quando Consuelo se mudou para a Europa, estavam de novo no mesmo círculo social e logo a paixão adolescente voltou com toda força. Vinte e sete anos depois, os dois finalmente se casaram. O amor venceu.

O amor sempre vence

Para confirmar perante Deus que sua união com Jacques, Consuelo foi ousada como sua mãe seria. Em 1927, pede a anulação de seu casamento por ele ter sido “contra sua vontade”, mas, para confirmar, precisava justamente do depoimento de Alva para confessar que forçou a filha a se casar com o Duque. A essa altura, Alva já tinha mudando completamente. Decepcionada com a superficialidade da sociedade capitalista, se dedicava à causas feministas e humanitárias. Sem nenhum constrangimento do papel que exerceu na infelicidade da filha. “Sempre tive poder absoluto sobre minha filha. Quando eu emitia uma ordem, ninguém a discutia. Portanto, não implorei, mas ordenei que ela se casasse com o duque”.

Consuelo e Jacques foram extremamente felizes em seu casamento. Primeiro viveram na França, mas, com a 2ª Guerra Mundial voltaram para os Estados Unidos. Após a morte de Jacques, Consuelo passa a dividir seu tempo entre Nova York e Southampton. Viveu até 1964 e morreu com 88 anos, ainda mantendo a majestade.

As versões de Consuelo no universo de Fellowes

Com essa trajetória fascinante, não é surpresa que Consuelo tenha inspirado personagens na ficção. Em Downton Abbey, Julian Fellowes coloca Cora se casando com Robert Crawley em circunstâncias parecidas (uma união negociada por dinheiro), mas criou uma história de amor genuino entre eles. Em The Gilded Age, Gladys já está vivendo a história de Consuelo Vanderbilt. A confirmação de que teremos um Duque de Buckingham (Ben Lamb), interessando em nela, demonstra que poderemos agora ter algo mais próximo da verdade.

A essa altura, mesmo com todo drama de Peggy Scott (Denée Benton) e Marian Brook (Louisa Jacobson), será Gladys uma das principais personagens… concordam?

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