Alva Vanderbilt, a inspiração atrás de Bertha Russell, de The Gilded Age

Em uma cena do primeiro episódio de The Gilded Age, Bertha Russell cita a rejeição da sociedade nova iorquina em relação à Alva Vanderbilt, e a referência é perfeita pois pelo que podemos ver, Bertha é a versão romantizada e editada da milionária e feminista de acordo com Julian Fellowes. E se for verdade, podemos esperar uma série (e temporada incríveis). Afinal, a história de Alva não é nada menos do que fascinante.

A referência da sociedade americana, espelhada nos Vanderbilts, já estava clara na personagem de Cora, em Downton Abbey. Assim como Consuelo, filha de Alva, Cora se casou com um Duque inglês, que estava falido e precisava da fortuna da jovem para recuperar suas finanças. Na versão romantizada de Fellowes, Cora vira a condessa de Grantham ao se unir a Robert Crawley, mas, embora o início do casamento tenha sido um acordo financeiro, o casal realmente se apaixona ao longo do tempo. Consuelo não teve a mesma sorte. O casamento com Duque de Marlborough foi infeliz do início ao fim, com o casamento sendo anulado anos depois, mesmo com filhos. Uma curiosidade extra, Consuelo é – por conta dessa união – parente distante de Winston Churchill e Princesa Diana, mas isso é outra história!

Ao pensar em fazer a prequel de Downton Abbey, o showrunner se aprofundou na pesquisa do período conhecido como The Gilded Age e abortou a idéia de unir as séries, criando uma nova que estreou essa semana na HBO Max. Mas a ligação – e em especial os Vanderbilts – permanecem como referência.

Em The Gilded Age, são os Russells que fizeram fortuna com ferrovias e construíram um palacete na 5ª avenida, com Bertha incorporando muitas das características de Alva, a matriarca Vanderbilt que merece um filme ou série sobre sua vida. Mesclando pessoas reais (os Astors, os McCallisters, entre outros), com os fictícios, a série vai recontar um importante momento histórico, onde grandes fortunas surgiram graças à industrialização.

Nascida de uma família sulista que perdeu toda fortuna na Guerra Civil, Alva. Sua infância e juventude foram marcadas por temporadas na Europa e férias em Newport, portanto era uma moça educada e culta. Sua melhor amiga, que se casou com um nobre inglês, a apresentou a William Vanderbilt, que já era milionário. Os dois se casaram e tiveram três filhos. Quando se mudaram para Nova York, Alva estava determinada a circular apenas na elite, mas foi rejeitada.

Assim como The Gilded Age vai mostrar, houve uma festa onde “apenas 400” pessoas foram convidadas. A “lista dos 400” que importavam, segundo os Astors, não incluía os Vanderbilts. Assim nasceu a rivalidade entre milionários.

A casa dos Vanderbilts, apelidada de “Petit Chateau”, ocupava os quarteirões entre West 51st e 52nd Street, na 5ª avenida (perto do que hoje é o Rockefeller Center). O chateau, também conhecido como “o palácio triplo dos Vanderbilt” (apenas uma das casas tinha 58 quartos), foi um projeto do mesmo arquiteto que fez o Metropolitan Art Museum, Richard Morris Hunt, e decorado com raras peças de arte vindas da Europa. Bem parecido com o que estamos vendo na série. O prédio serviu de residência da família por 64 anos, como um símbolo de prestígio e fortuna, mas foi demolido em 1945 (justamente por um Astor…)



Até onde vimos, Bertha Russell passou pela primeira humilhação e prometeu reverter a situação. Alva Vanderbilt fez assim: quando foi barrada na Academia de Música, cujos diretores rejeitavam os “emergentes”, Alva fundou o Metropolitan Opera House, que até hoje é o palco de grandes produções em Manhattan, mas em um endereço diferente. O original foi demolido em 1967.

Também mandou construir um palácio de mármore em Newport, onde os ricos passavam as férias de verão, ao lado da casa comparativamente muito mais simples dos Astors (ambas casas são abertas hoje para visitação, merece!). Depois, convidou todos os jornalistas da época para conhecerem sua casa. A visita renderam artigos elogiosos da suas maravilhas da coleção dos Vanderbilts, criando curiosidade de um público maior sobre eles. Alva então, anunciou um grande baile para “apenas” 700 pessoas, porém deliberadamente excluiu a jovem Carrie Astor (que é uma personagem na série da HBO Max), deixando a jovem chorosa e humilhada. A mãe da jovem se viu obrigada a visitar Alva para garantir o convite para o baile mais disputado e falado da cidade, aliás, creditado até hoje como “o baile do século”. A presença dos Astors na festa deu o crédito oficial de aceitação aos Vanderbilts. “Chegou a hora dos Vanderbilts”, teria declarado Carolina Astor.

A partir daí, foi um período de glória para Alva, mas a vida não era para ser simples. Quando descobriu a infidelidade do marido, William, e, em vez de seguir o modelo da época de se separar mas fingir não saber de nada, pediu o divórcio, a custódia dos filhos e boa parte da fortuna como pensão. Conseguiu tudo, mas voltou à estaca zero socialmente pois novamente passou a ser rejeitada nas grandes famílias por causa do “escândalo”. Conseguiu reverter novamente a situação quando forçou Consuelo se casar com o Duque. Toda sociedade de Nova York queria estar na cerimônia que transformava uma Vanderbilt em nobre, e mais uma vez se submeteram à força de vontade de Alva.

Porém, a decepção motivou uma mudança radical de pensamento e essa incrível e verdadeira Scarlett O’Hara iria entrar para a História como uma das mais importantes feministas do século 19. Um ano depois de seu divórcio, se casou com o banqueiro (e amigo do 1º marido), Oliver Beaumont. Com ele, seguiu ainda mais milionária e extravagante, mas Oliver morreu de repente, alguns anos depois. Desolada, Alva abraçou a política. Inspirada pela feministas Ida Husted Harper e Anna Shaw, Alva abraçou a causa do voto feminino e fundou o Partido Nacional Feminista (do qual foi presidente até sua morte), até fazendo piquete em frente à Casa Branca. Sua fortuna foi então dedicada à causa feminista e de igualdade. Alva também lutou contra a segregação racial, incluindo mulheres negras e imigrantes nos movimentos.

Seus últimos anos foram passados na França, para ficar perto de sua filha. Em 1932 sofreu um infarto e morreu no ano seguinte, em Paris, por problemas respiratórios. No seu enterro, em Nova York, apenas mulheres carregaram seu caixão.

Se Bertha Russel fizer pelo menos um terço que Alva Vanderbilt Beaumont fez, The Gilded Age promete ser incrível. Estou na torcida! E vamos falar de Consuelo, mas claro, em outro post.

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