Em 2019, quando chamou a atenção no Festival de Edimburgo ao transformar traumas profundamente pessoais em uma narrativa imprevisível sobre abuso e perseguição obsessiva, o comediante Richard Gadd fez mais do que uma espécie de “terapia pública”. Ali já se revelava um dos autores e atores de drama mais interessantes dos últimos tempos. Bebê Rena, adaptado para a televisão pela Netflix em 2024, não apenas surpreendeu globalmente, como se tornou um dos títulos mais premiados do período, consolidando uma forma de narrativa que recusa conforto e exige envolvimento. O caminho que o leva do stand-up a um dos nomes mais discutidos da televisão recente não passa por uma virada brusca, e sim por um aprofundamento contínuo, e agora ele retorna com uma nova série que promete provocar.
Antes de Bebê Rena, Gadd já orbitava o drama. Seu trabalho nos palcos britânicos sempre foi atravessado por experiências pessoais que, em vez de buscar identificação fácil, provocavam o público no ponto certo. Havia ali uma recusa em transformar trauma em catarse confortável. O que Bebê Rena fez foi ampliar essa lógica em escala global. A série não apenas acumulou prêmios, como também consolidou uma narrativa que desafia frontalmente a ideia de entretenimento como espaço de alívio. O desconforto não surge como efeito colateral, mas como o próprio motor da obra.

É justamente por isso que Half Man chega cercada de expectativa. Não apenas pelo sucesso anterior, mas porque há, em Gadd, uma coerência rara entre tema, forma e intenção. Se Bebê Rena partia de uma experiência profundamente pessoal para discutir obsessão, trauma e exposição, Half Man desloca o olhar para uma questão que tem dominado o debate contemporâneo: o que significa ser homem hoje, em um mundo que mudou mais rápido do que muitos conseguem acompanhar.
A premissa da nova série já indica o caminho. A relação entre Niall e Ruben, dois homens que não são irmãos de sangue, mas que se tornam inseparáveis ao longo da vida, funciona como eixo para uma narrativa que atravessa três décadas, dos anos 1980 ao presente. O encontro inicial, marcado por circunstâncias difíceis, estabelece uma dinâmica que nunca se resolve completamente. Há dependência, admiração, rivalidade e, sobretudo, uma incapacidade persistente de expressão emocional.
Ao estruturar a história ao longo de trinta anos, Gadd não apenas acompanha seus personagens, mas observa o mundo ao redor deles se transformar. Essa escolha não é apenas narrativa, é conceitual. A masculinidade, como ele próprio sugere, não pode ser compreendida sem esse deslocamento temporal. O que se espera de um homem nos anos 1980 não é o mesmo que se espera hoje, mas as marcas de formação permanecem, muitas vezes como ruínas que os personagens carregam sem conseguir nomear.

Nesse sentido, Half Man parece aprofundar um dos movimentos mais interessantes da obra de Gadd: a recusa em oferecer respostas fáceis. Em vez de construir personagens que representem posições claras dentro de um debate, ele prefere explorar contradições. Ruben é violento, imprevisível, quase ameaçador, mas também carrega uma forma distorcida de lealdade. Niall, mais contido e aparentemente sensato, revela fragilidades que se traduzem em passividade e autoapagamento. Nenhum dos dois é facilmente classificável como vítima ou algoz, e é exatamente nessa ambiguidade que a série encontra sua força.
Essa escolha narrativa dialoga diretamente com o momento atual, em que discussões sobre masculinidade frequentemente se tornam simplificadas demais para dar conta da complexidade real. O próprio Gadd aponta que, embora termos como “masculinidade tóxica” tenham ganhado visibilidade, ainda há aspectos pouco explorados, especialmente no que diz respeito à dificuldade masculina de expressar afeto, vulnerabilidade e intimidade.
Se há controvérsia em torno de Half Man, ela parece nascer justamente dessa disposição para mostrar o que muitas narrativas evitam. A violência, por exemplo, não aparece como espetáculo, mas como consequência. Para falar de repressão emocional, Gadd entende que é preciso mostrar seus extremos. Não como choque gratuito, mas como parte de um retrato que pretende ser honesto. Essa abordagem, que já provocava reações intensas em Bebê Rena, tende a se repetir aqui, talvez de forma ainda mais direta.


Outro elemento que reforça o interesse em torno da série é o próprio movimento de Gadd como intérprete. Mais uma vez, ele não se limita à escrita. Assume um dos papéis centrais e transforma seu corpo para isso, em um processo que evidencia o grau de comprometimento com a materialidade do personagem. Essa passagem do comediante para o ator dramático já não é mais uma surpresa, mas continua sendo um dos aspectos mais impressionantes de sua trajetória. Há uma precisão no modo como ele ocupa esses personagens que sugere algo além da técnica, quase como se cada papel fosse uma extensão de um processo de investigação pessoal.
Ao lado dele, Jamie Bell surge como contraponto essencial, trazendo para Niall uma complexidade que evita qualquer leitura simplista. A relação entre os dois, marcada por cenas longas, intensas e quase teatrais, indica uma aposta em um tipo de dramaturgia que privilegia o tempo, o silêncio e o confronto direto entre personagens. Em um cenário televisivo frequentemente acelerado, essa escolha também é, por si só, uma forma de distinção.


Talvez o ponto mais interessante, no entanto, seja perceber como Gadd vem construindo uma obra que insiste em olhar para zonas de desconforto sem transformá-las em espetáculo. Em um momento em que muitas narrativas parecem preocupadas em antecipar a reação do público, ele segue na direção oposta. Não suaviza, não explica demais, não oferece alívio imediato. E, justamente por isso, cria um tipo de envolvimento que é menos baseado em identificação e mais em reconhecimento, ainda que esse reconhecimento seja, muitas vezes, difícil de sustentar.
Half Man chega, portanto, não apenas como um novo projeto, mas como continuidade de uma investigação. Se Bebê Rena consolidou Richard Gadd como uma das vozes mais singulares da televisão recente, a nova série parece disposta a testar os limites desse lugar. A expectativa é alta, mas não por acaso. Há, em sua trajetória, uma consistência que raramente falha.
E talvez seja exatamente isso que explica a curiosidade em torno de Half Man. Não se trata apenas de saber o que Gadd fará em seguida, mas de acompanhar até onde ele está disposto a ir.
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