Depois de um hiato longo o suficiente para fazer muita gente questionar se a segunda temporada realmente aconteceria, Citadel finalmente voltou para continuar sua caótica missão dentro do atual universo das franquias de espionagem. O elenco original retorna exatamente do ponto em que a história havia parado, embora exista um problema considerável: lembrar o que aconteceu antes já exige um esforço maior do que a série provavelmente imagina. Como ninguém é confiável, identidades mudam o tempo inteiro e alianças são constantemente reconfiguradas, o envolvimento emocional acaba ficando sempre um passo atrás da sucessão de reviravoltas.
Há pitadas de 007, de Mission: Impossible, de Jason Bourne e agora até ecos de Ocean’s Eleven. Parece cansativo e confuso? Frequentemente é.

Na primeira temporada, conhecemos a Citadel, uma organização global de espionagem que se diferencia justamente por não responder diretamente a governos ou interesses nacionais. Em teoria, seus agentes existem para proteger o equilíbrio mundial acima de qualquer fronteira política. O rival é o sindicato criminoso Manticore, igualmente internacional, mas movido exclusivamente por dinheiro e poder. A trama acompanha os agentes Mason Kane, interpretado por Richard Madden, e Nadia Sinh, vivida por Priyanka Chopra Jonas, que acabam traídos, atacados e têm suas memórias apagadas enquanto escapam por pouco de uma emboscada.
Oito anos depois, Mason vive sob a identidade de Kyle Conroy, casado e completamente desconectado de seu passado como agente. Bernard Orlick, personagem de Stanley Tucci, precisa então reativá-lo para impedir que a Manticore tenha acesso a informações capazes de desestabilizar o mundo inteiro. Nadia também reaparece escondida sob outra identidade, obrigando a dupla a voltar à ativa enquanto tenta lidar não apenas com ameaças globais, mas também com segredos ligados ao próprio relacionamento.
Quando Citadel estreou em 2023, a sensação era de assistir menos a uma série e mais a uma demonstração de força industrial da Amazon. Desde o anúncio, a Prime Video tratava o projeto como sua resposta ao domínio cultural das grandes franquias cinematográficas, tentando combinar espionagem internacional, estética blockbuster, universo expandido e glamour cosmopolita com uma lógica muito próxima da Marvel, mas com perfume de Bond. A ideia nunca foi apenas lançar uma produção isolada, mas inaugurar uma franquia global interligada, com derivados produzidos em diferentes países compartilhando o mesmo universo narrativo.
A ambição era gigantesca. Produzida sob o selo de Joe e Anthony Russo, responsáveis por alguns dos maiores sucessos da Marvel, como Capitão América: O Soldado Invernal, Guerra Civil, Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato, Citadel nasceu carregando expectativas industriais enormes. Depois de ajudarem a consolidar o MCU como o principal modelo de entretenimento blockbuster do século 21, os irmãos Russo passaram a ser vistos como especialistas em administrar narrativas gigantescas, múltiplos personagens e projetos concebidos já pensando em expansão global. Citadel surge exatamente dessa lógica.


Só que os bastidores rapidamente passaram a chamar tanta atenção quanto a própria série. A primeira temporada enfrentou conflitos criativos, mudanças internas, refilmagens extensas, atrasos e um orçamento tão astronômico que transformou a produção em uma das séries mais caras da história do streaming. Em muitos momentos, parecia menos uma história de espionagem e mais um símbolo da guerra entre plataformas nos anos pós-pandemia, quando empresas despejavam cifras absurdas tentando fabricar a próxima franquia inevitável da cultura pop.
O problema é que dinheiro, escala e elenco nunca garantem coerência narrativa. Ainda mais quando a proposta parece funcionar como uma colagem das fórmulas que já deram certo em outras franquias. Tentar transformar Citadel em um universo global antes mesmo de consolidar sua própria identidade apenas deixou mais visíveis suas fragilidades.
A boa notícia é que a segunda temporada parece compreender isso melhor. Não porque Citadel finalmente tenha se transformado em uma grande série de espionagem, mas porque ela começa a aceitar aquilo que realmente é. Em vez de insistir numa sofisticação que nunca conseguiu sustentar completamente, a produção abraça o exagero, a artificialidade e até o lado quase cartunesco de sua ação. Curiosamente, essa honestidade acaba funcionando mais a favor da série do que toda a pompa da estreia.
Se a trama continua operando numa lógica de espionagem internacional hiperestilizada, onde distâncias praticamente deixam de existir, cidades explodem sem grandes consequências e conspirações globais parecem surgir a cada esquina, a decisão de incorporar mais humor foi uma mudança bem-vinda.
No meio desse caos, Stanley Tucci acaba assumindo naturalmente o centro gravitacional da temporada. Enquanto o trio principal continua relativamente insosso, Tucci transforma diálogos absurdos em momentos genuinamente divertidos apenas através da entonação e do timing irônico.
Para o público brasileiro, existe ainda a curiosidade de ver Gabriel Leone surgindo como o antagonista Paulo Braga logo depois do impacto de Senna. Seu personagem tenta desenvolver uma tecnologia capaz de controlar pessoas através de um chip cerebral, premissa tão delirante que a própria série parece admitir o absurdo da situação ao multiplicar reviravoltas desnecessárias em torno de uma ideia que, no fundo, remete diretamente a The Manchurian Candidate.

As cenas de ação continuam exageradas a ponto do ridículo. Facadas e tiros raramente parecem obstáculos reais, especialmente para Nadia Sinh. Priyanka Chopra Jonas atravessa perseguições, explosões e tiroteios intermináveis como se estivesse dentro de um videogame de luxo onde consequências físicas simplesmente não existem.
Já Richard Madden continua preso ao componente mais Bourne da série, equilibrando o agente Mason Kane e a identidade construída como Kyle Conroy. A temporada tenta inserir conflitos familiares, culpa, ressentimento e crises de identidade no meio da avalanche de perseguições e explosões. Nem sempre funciona, mas pelo menos existe um esforço mais evidente de criar algo além da sucessão de cenas de ação.
Talvez a mudança mais perceptível esteja justamente nos bastidores. Agora, Joe Russo assume a direção de toda a temporada e, mesmo que a série continue excessiva, existe uma identidade mais clara guiando o caos. Citadel permanece superficial, mas ao menos parece mais consciente do tipo de entretenimento que quer oferecer.
Curiosamente, muitos críticos consideram que os derivados Citadel: Diana e Citadel: Honey Bunny funcionaram melhor justamente porque tinham orçamentos menores e menos obsessão por escala. Ao priorizar personagens em vez de gigantismo visual, os spin-offs encontraram algo que faltava à série principal: ritmo emocional.
Infelizmente, para mim, Citadel continua fazendo parte de uma fadiga contemporânea das franquias de espionagem. Em poucos anos, Hollywood passou a reciclar praticamente a mesma estrutura narrativa em plataformas diferentes, mudando apenas os nomes das agências, dos agentes e dos países visitados. Organizações independentes, mercenários éticos, agentes sofisticados vivendo entre jatinhos, hotéis luxuosos e ameaças globais genéricas. Tudo começa a se misturar.
A segunda temporada não resolve todos os problemas da série, mas diverte mais justamente porque parece menos desesperada para provar sua grandiosidade. Talvez, ao parar de tentar ser a próxima franquia definitiva da espionagem, Citadel finalmente encontre alguma personalidade própria no caminho.
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