House of the Dragon enfrenta o mesmo desafio que dividiu Game of Thrones: o destino de sua rainha

Muito se fala sobre as batalhas que estão por vir em House of the Dragon, as alianças instáveis e as inevitáveis traições da Dança dos Dragões. Tudo isso faz parte da experiência. Mas, para mim, o maior desafio da série nunca foi (apenas) escapar da sombra de Game of Thrones. O problema mais delicado é outro: levar Rhaenyra Targaryen até o destino que George R. R. Martin reservou para ela em Fogo & Sangue.

Quem leu o livro — como eu — provavelmente tinha outra rainha em mente. A Rhaenyra das páginas é descrita pelos vencedores da guerra como uma mulher vaidosa, ciumenta, egoísta e cada vez mais paranoica. Há algo de profundamente ambíguo nela, porque a narrativa é construída por diferentes versões dos fatos e sempre existe espaço para dúvida. A série, por outro lado, escolheu um caminho bastante diferente.

Desde Milly Alcock até Emma D’Arcy, conhecemos uma Rhaenyra mais vulnerável, doce e até idealista. Uma mulher que parece genuinamente acreditar que pode evitar a guerra e que carrega o peso de uma responsabilidade maior do que si mesma. É uma escolha interessante porque, sabendo que ela perderá tudo — a guerra, o apoio de aliados e, em última instância, a própria vida —, acabamos acompanhando uma versão muito mais humana do que aquela eternizada pelos relatos históricos.

Mas talvez estejamos assistindo novamente à mesma jornada que dividiu os fãs de Daenerys Targaryen.

Ainda hoje, muita gente rejeita o destino dado à Mãe dos Dragões em Game of Thrones. Emilia Clarke ainda fala sobre o choque que sentiu, e uma parcela significativa dos fãs continua argumentando que a transformação de Daenerys foi abrupta. Eu nunca achei que fosse. Queimar King’s Landing deliberadamente pode ter sido uma execução problemática, mas a tragédia da personagem já estava em construção havia muito tempo.

Na verdade, Daenerys acabou sendo vítima da mesma ilusão que criticava em Viserys III (outra curiosa coincidência entre ela e Rhaenyra, ambas ligadas a um Viserys). Seu irmão acreditava em um direito divino ao Trono de Ferro e em um destino grandioso reservado aos Targaryen. Ao longo dos anos, ela passou a acreditar exatamente na mesma coisa. A genialidade maligna de Cersei consistiu em destruir, um por um, os pilares emocionais que sustentavam a rainha, até deixá-la isolada, desconfiada e convencida de que apenas o medo garantiria a vitória.

Talvez o aspecto mais curioso seja que os fãs de Daenerys e os personagens de Westeros cometeram o mesmo erro: se apaixonaram pela lenda. Daenerys passou anos dizendo que nascera para governar e que tinha uma missão maior. As pessoas ouviram a libertadora, mas ignoraram a conquistadora. Até hoje, muitos se recusam a aceitar essa contradição porque, assim como Tyrion, Jon Snow e Varys, acreditam mais no símbolo do que na mulher.

No fim das contas, talvez o único homem que a amou pelo que ela realmente era tenha sido Daario Naharis. Todos os outros, Jon Snow incluído, compraram a imagem da Libertadora. Apaixonaram-se pela esperança, pela promessa e pela rainha que acreditavam destinada a mudar o mundo. No final, porém, o Trono continuava sendo o objetivo.

Daario, aliás, sempre foi mais honesto do que os demais. Foi ele quem percebeu que Daenerys amava a conquista mais do que o ato de governar e que, quando necessário, era capaz de recorrer à violência para preservar o poder. Por isso, embora a execução da reta final continue sendo motivo de debate, a ideia de que seu destino surgiu do nada sempre me pareceu estranha. A própria série acumulou sinais ao longo dos anos — inclusive na visão que Daenerys teve na Casa dos Imortais — de que a tragédia já estava escrita muito antes de King’s Landing.

E é justamente aí que House of the Dragon parece repetir deliberadamente a armadilha.

Ryan Condal acrescentou uma nova camada ao universo criado por George R. R. Martin ao introduzir a profecia de Aegon, a ameaça dos Caminhantes Brancos, a adaga e a ideia de que apenas os verdadeiros herdeiros conhecem o segredo capaz de salvar Westeros. Mais do que um detalhe, isso transforma a reivindicação dos Targaryen em algo próximo de um direito divino.

A série foi ainda além. O cervo branco, testemunhado por Criston Cole e poupado por Rhaenyra, praticamente elimina qualquer dúvida sobre quem seria a escolhida. Se no livro ainda existia espaço para questionar quem tinha razão, a televisão decidiu responder. Rhaenyra é a legítima. Rhaenyra é a merecedora. Rhaenyra é a esperança.

E talvez seja justamente aí que mora a armadilha.

Porque em Fogo & Sangue escolher entre verdes e pretos era uma tarefa desconfortável. Nenhum dos lados era completamente inocente. Motivações, decisões e até responsabilidades pelos acontecimentos permaneciam nebulosas. Era essa ambiguidade que tornava a Dança dos Dragões tão fascinante.

A série, embora tenha demonstrado mais empatia pelos verdes do que muitos esperavam, acabou reduzindo parte dessa zona cinzenta ao transformar Rhaenyra em uma figura quase messiânica. Algumas de suas decisões mais questionáveis são tratadas como resultado de sua integridade ou das circunstâncias, quando o livro sugere que ambição, vaidade e ciúmes também faziam parte de sua personalidade.

Ter filhos que se sabia serem bastardos foi apenas o começo. A insegurança da personagem nunca esteve ligada à incapacidade de governar, mas ao fato de compreender as consequências dos próprios atos. Faltou, até agora, a faceta mais desconfortável da rainha. Aquela que, aos poucos, seria corrompida pelo medo, pelas perdas, pela desconfiança e pelo desejo de vencer.

Por isso, acompanho as próximas temporadas com uma mistura de ansiedade e curiosidade. Os órfãos de Daenerys adotaram Rhaenyra com o mesmo fervor. A diferença é que, desta vez, todos conhecem o final da história.

Sabemos que ela será abandonada, traída e consumida pela própria guerra. Sabemos que a rainha destinada a salvar Westeros acabará isolada e rejeitada.

A pergunta é se o público aceitará essa transformação, porque talvez a verdadeira maldição dos Targaryen nunca tenha sido a loucura. Talvez seja a crença de que foram escolhidos pelos deuses. E, em Westeros, quase sempre é essa convicção que acaba destruindo aqueles que mais acreditam nela.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário