House of the Dragon muda para sempre a mensagem sobre os dragões

Até hoje, uma das maiores discussões entre os fãs de Game of Thrones gira em torno de uma pergunta que nunca recebeu uma resposta plenamente satisfatória: por que Daenerys Targaryen decidiu destruir King’s Landing depois que a cidade já havia se rendido? A explicação mais comum sempre foi a de que ela sucumbiu à chamada “loucura Targaryen”, repetindo um padrão presente em sua linhagem.

Mas, observando a mensagem que House of the Dragon vem construindo desde a primeira temporada, outra interpretação surge naturalmente. E se Drogon, o mais indisciplinado dos três dragões, simplesmente tivesse feito aquilo que outros dragões fizeram antes dele? E se, assim como Vhagar em Storm’s End, ele tivesse ultrapassado os limites impostos por seu cavaleiro e agido de acordo com seus próprios instintos?

A ideia parece menos absurda quando lembramos que Drogon sempre foi diferente. Desde cedo, mostrou-se mais agressivo, mais imprevisível e muito menos disposto a obedecer do que Rhaegal e Viserion. Foi ele quem desapareceu por meses, quem matou uma criança em Meereen e quem jamais aceitou completamente as tentativas de Daenerys de controlá-lo.

Sob essa perspectiva, a tragédia de King’s Landing deixa de ser apenas a história de uma rainha enlouquecida e passa a ser também a história de uma mulher convencida de que comandava uma criatura que nunca pertenceu verdadeiramente a ninguém.

Curiosamente, House of the Dragon parece ter sido construída em torno exatamente dessa ideia. Ainda na primeira temporada, Viserys Targaryen faz uma observação que não existe em Fire & Blood, mas que se transformou em uma das declarações mais importantes da série. Ao conversar com Rhaenyra, ele afirma que a crença de que os Targaryen controlam os dragões é uma ilusão e que aquele é um poder que nenhum homem deveria ter manipulado. A frase não é apenas uma reflexão melancólica de um rei envelhecido. Ela funciona como uma espécie de manifesto filosófico para tudo o que a série mostraria em seguida.

“A ideia de que controlamos os dragões é uma ilusão. Eles são um poder com o qual o homem jamais deveria ter brincado.”
Viserys I, House of the Dragon

Existe uma ironia especial em quem faz essa afirmação. Diferentemente de Daemon, Rhaenyra, Aemond ou Baela, Viserys não construiu sua identidade em torno de um dragão. Balerion, a criatura que cavalgou quando jovem, já estava velha e próxima da morte quando os dois se uniram. Depois disso, Viserys jamais reivindicou outro animal. Aos olhos de muitos membros de sua família, isso o tornava menos impressionante. Mas essa distância acabou lhe permitindo enxergar algo que os demais se recusavam a admitir. Enquanto seus parentes se fascinavam pelo poder dos dragões, Viserys compreendia que eles eram algo mais próximo de uma força da natureza do que de uma arma.

Essa percepção contrasta com a própria cultura da Casa Targaryen. Embora os dragões fossem vistos como uma característica inerente da linhagem, a conexão entre cavaleiro e criatura nunca foi garantida.

Em Fire & Blood e na própria série, o vínculo é tratado como algo esperado, mas jamais assegurado. Ovos eram colocados nos berços das crianças, jovens príncipes e princesas aguardavam ansiosamente a oportunidade de reivindicar um dragão e, em muitos casos, a ausência dessa ligação se transformava em motivo de vergonha ou inferioridade.

Aemond é o melhor exemplo disso. Durante anos, foi ridicularizado por não possuir um dragão. Sua decisão de reivindicar Vhagar nasce tanto da coragem quanto do desejo de provar seu valor diante do irmão e dos sobrinhos. Daemon construiu parte de sua imagem em torno de Caraxes. Rhaenyra sempre foi associada a Syrax.

A própria ausência de um dragão carregava um peso emocional e político. Entre os Targaryen, a ligação com essas criaturas não era certa, mas era esperada, desejada e transformada em uma espécie de competição silenciosa.

O que House of the Dragon vem mostrando, porém, é que possuir um dragão nunca significou controlá-lo. A tragédia de Storm’s End ilustra isso de maneira devastadora. Nos livros, a morte de Lucerys é descrita de forma ambígua. Na série, porém, a escolha é clara. Aemond não pretende matar o sobrinho. O que começa como uma perseguição se transforma em tragédia quando Arrax reage por instinto e Vhagar responde com uma violência que seu cavaleiro já não é capaz de conter. O episódio mostra um jovem descobrindo, horrorizado, que está montando uma criatura mais antiga, mais poderosa e mais imprevisível do que ele próprio.

Mais do que uma mudança em relação ao livro, essa sequência estabelece um padrão narrativo. House of the Dragon parece menos interessada em retratar homens utilizando dragões como armas e mais interessada em mostrar a arrogância daqueles que acreditaram ser capazes de domesticar forças que jamais poderiam ser verdadeiramente dominadas. A guerra entre negros e verdes nasce, em parte, de uma ilusão compartilhada por ambos os lados.

A segunda temporada reforça ainda mais essa mensagem. Os Dragonkeepers praticamente acusam os Targaryen de terem esquecido a verdadeira natureza dos dragões. Seasmoke escolhe Addam de Hull, invertendo a lógica tradicional de que seriam os homens a reivindicarem essas criaturas. Em vez de simples instrumentos de guerra, os dragões passam a ser apresentados como seres inteligentes, temperamentais e imprevisíveis, capazes de tomar decisões próprias.

Com a chegada da terceira temporada, essa leitura ganha uma nova dimensão. Ao transferir para Rhaena parte da trajetória de Nettles, House of the Dragon promove uma alteração significativa no material original. Nos livros, Nettles já representava um desafio à ideia de que apenas o sangue valiriano seria capaz de criar laços com um dragão. Na série, a mudança parece ir além disso. Sheepstealer continua sendo uma criatura selvagem, e a ligação entre os dois está longe de representar obediência absoluta.

Tudo sobre House of the Dragon

Se os vazamentos se confirmarem, a participação de Sheepstealer na Batalha da Goela transformará mais uma tragédia humana em uma demonstração da imprevisibilidade dos dragões. Enquanto Jacaerys tenta defender a frota dos negros montando Vermax, o caos provocado por Sheepstealer acabará atingindo os próprios homens de Corlys Velaryon. O fogo vindo do dragão montado por sua irmã contribuirá para a desorganização das forças aliadas e para a cadeia de eventos que culminará na morte do príncipe.

A ironia é devastadora. Os dois filhos mais velhos de Rhaenyra acabarão perdendo a vida não apenas por causa da guerra civil, mas também em consequência da mesma crença equivocada que sustentou o poder dos Targaryen durante séculos. Lucerys morre porque Aemond descobre tarde demais que não controla Vhagar. Jacaerys morreu em uma batalha agravada pela incapacidade de Rhaena de controlar plenamente Sheepstealer. Ambos são vítimas da convicção compartilhada por sua família de que os dragon riders estão sempre no comando.

Em Fire & Blood, muitas das tragédias da Dança dos Dragões nascem diretamente da ambição, da brutalidade e das escolhas humanas. House of the Dragon não elimina esses elementos, mas acrescenta algo novo à equação. Ao transformar a morte de Lucerys em um acidente provocado por Vhagar e, aparentemente, fazer o mesmo com a Batalha da Goela, a série sugere que os Targaryen cometeram um erro ainda mais profundo do que a simples sede por poder. Eles passaram gerações acreditando que eram senhores dos dragões, quando, na verdade, conviviam com criaturas inteligentes, temperamentais e imprevisíveis.

Tudo sobre Game of Thrones

Essa mudança de perspectiva aproxima a história muito mais das tragédias gregas do que da ideia da “loucura Targaryen”. O problema nunca foi a insanidade, mas a hubris: a arrogância de homens e mulheres convencidos de que podiam dominar forças maiores do que eles próprios. O que os Targaryen chamavam de controle era, muitas vezes, apenas coexistência.

A própria equipe criativa da série nunca escondeu essa visão. Ryan Condal descreveu os dragões como o equivalente às armas nucleares em Westeros e, mais recentemente, voltou a comparar a Dança dos Dragões ao conceito de “destruição mútua assegurada”, uma das bases do equilíbrio de poder da Guerra Fria. Os Targaryen acreditavam possuir a arma definitiva. O problema é que armas nucleares não têm vontade própria, mas dragões, sim.

Existe uma ironia extraordinária nisso tudo. O personagem que percebeu essa verdade não foi Daemon, nem Rhaenyra, nem Aemond. Foi Viserys, um rei frequentemente visto como fraco e distante da imagem tradicional dos conquistadores Targaryen. Enquanto seus descendentes construíram suas identidades em torno dos dragões, ele foi o único a reconhecer que aquelas criaturas não eram armas ou símbolos de status, mas forças da natureza.

É justamente aí que House of the Dragon se afasta da leitura mais comum de Fire & Blood. A série não está apenas narrando a queda de uma dinastia. Está contando a história de uma família que confundiu convivência com domínio e vínculo com posse.

No fim, Viserys estava certo sobre os dragões.

E existe uma bela ironia nisso. Décadas depois, Daenerys libertaria povos inteiros repetindo que homens não nasceram para viver acorrentados. Mas, olhando para toda a saga, a grande verdade parece ser outra.

Dragões nunca foram escravos.


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