House of the Dragon volta grande, ambiciosa e irritante como só ela (crítica)

House of the Dragon sempre teve uma missão ingrata. A série precisava manter acesa a chama da franquia Game of Thrones, superar a memória amarga da conclusão equivocada da antecessora, conquistar novos espectadores e ainda transformar uma história extremamente complexa e fantasiosa em um produto capaz de alcançar um público global e amplo. Isso inevitavelmente exige escolhas, inclusive a de suavizar alguns dos momentos mais brutais e gráficos do livro para permanecer num patamar popular, muito além do nicho dos leitores. Tudo isso ajuda a explicar por que as duas primeiras temporadas foram tão divisivas.

Também é preciso lembrar que, como toda adaptação, House of the Dragon faz mudanças em relação ao material original. Algumas funcionam melhor do que outras. Eu mesma reclamo bastante delas, mas vou tentar deixar isso de lado o máximo possível, porque uma coisa ninguém pode questionar: House of the Dragon não é o fenômeno que Game of Thrones foi, mas é uma grande série por si só.

Sua trama, no fundo, é relativamente simples. Irmãos disputam um trono e acabam mergulhando o reino em uma guerra civil devastadora. Existem traições, mal-entendidos, ambições e profecias, mas a essência da história é profundamente humana. Ou deveria ser. Afinal, os dragões às vezes nos fazem esquecer que George R. R. Martin se inspirou em conflitos bastante reais da História para criar a Dança dos Dragões. E talvez seja justamente quando se lembra disso que House of the Dragon funciona melhor.

Por ser uma série cara, grandiosa e extremamente realista dentro de sua própria fantasia, as batalhas do livro foram escolhidas a dedo. A da Goela, descrita como uma das mais devastadoras e com impacto direto sobre Rhaenyra, nunca poderia ficar de fora. Toda a segunda temporada foi construída para esse momento, mas terminou minutos antes da tragédia. Era inevitável, portanto, que a terceira começasse no meio do conflito, o que talvez tenha confundido muitos não-leitores e fãs menos dedicados. Ainda assim, foi um grande início de temporada.

Da nova versão do tema de abertura, mais militar — embora eu insista que há ali uma batida que me lembra Olodum — aos impressionantes efeitos de CGI, é emocionante lembrar que estamos falando de uma série de TV, não de cinema. Porque, com 1h20 de duração, o que vimos foi praticamente um filme.

A música de Ramin Djawadi volta a ser um dos elementos diferenciais de House of the Dragon. É uma pena que não exista uma categoria específica de melhor trilha sonora no Emmy, porque ele a dominaria há mais de uma década. E sim, há momentos para quase todos os atores brilharem, e eles abraçam cada cena com gosto. A vantagem da série sobre o livro está justamente em mostrar outros aspectos de cada personagem. Podem ser escolhas conflitantes, mas também dão maior profundidade à história.

Dito isso, é preciso destacar Emma D’Arcy, que navega pela insegurança, pelo orgulho, pela frustração e pela indignação de Rhaenyra com uma transparência essencial para que sigamos com ela. Steve Toussaint e Abubakar Salim também tiveram momentos dramáticos importantes, e conseguimos ver por que Corlys é chamado de Serpente do Mar. Ação e drama em seu melhor estado.

Há meus poréns, obviamente. O “beijo” é um deles. A série claramente está preparando o terreno para a obsessão que Aemond desenvolverá por Alys Rivers. Dava para entender isso sem o incesto, mas causar é um mal moderno, e parecia necessário garantir que se falaria sobre a cena.

Aemond, que Ewan Mitchell acertou desde o primeiro segundo, sempre foi mais nebuloso nas telas do que nas páginas. Ora parece fixado na irmã, ora na Coroa, ora no tio que antagoniza. Ele também sempre foi mais “filhinho da mamãe” do que seus irmãos, e Alicent nunca foi particularmente ligada à própria prole. Seu mínimo de carinho por Helaena parece vir mais da identificação com sua trajetória do que de um sentimento maternal pleno.

Olivia Cooke é excepcional nessa versão de Alicent, tão oposta à do livro. A mudança funciona porque é mais suja do que George R. R. Martin imaginou: uma mulher forçada a um casamento e incapaz de se apegar aos filhos de um homem por quem sente aversão. Nesse cenário, fica dúbia a ação dela de “salvar” Aemond para que ele não quebre seu pacto com Rhaenyra. Ele precisa sair de King’s Landing a qualquer custo, e ela o seduz a concordar com ela.

Mas não ficou claro o suficiente o beijo que ele dá nela. Prolongado demais e mais romântico do que fraterno, o gesto a confunde e nos assusta. É uma cena que parece existir mais para gerar repercussão do que por necessidade dramática.

Alicent, a confusa, e Rhaenyra, a tola, seguem reféns da visão masculina da História. Quando se fala em lugar de fala, House of the Dragon é um bom exemplo de série que elegeu aproximar as idades das duas personagens para construir protagonistas femininas fortes, mas que frequentemente erra a mão. Sim, ambas são vítimas do patriarcado, e a série acerta ao mostrar isso. O problema é que parece acreditar que fortalecer suas personagens significa inocentá-las.

Enquanto os homens agem por ambição, cálculo político ou simples sede de poder, Alicent e Rhaenyra acabam constantemente empurradas para mal-entendidos, dúvidas, hesitações e erros de interpretação. Humanizá-las é importante, mas transformá-las em mulheres permanentemente confusas é outra coisa. Boa parte do conflito existe porque essas duas, em especial Alicent, ousam fazer mais do que lhes é permitido, mas a narrativa insiste em explicar suas ações por enganos ou indecisões. Dá para aceitar, mas é frustrante.

Por exemplo: Alicent está enrolando todo mundo porque está traindo os Verdes e precisa ser ágil. Ela escreve ao primo, Ormund Hightower, fingindo transmitir uma ordem de Aemond que será crucial para a vitória de Rhaenyra: os soldados não devem vir socorrer a capital. Você pescou isso? Pois é.

Além do beijo, House of the Dragon também teve sua escatologia à la A Knight of the Seven Kingdoms: vemos o detestável Ulf defecando. Por quê? Para quê? Sério?

Aqui há outra mudança do livro que não faz muito sentido. Rhaenyra sabia, ou deveria saber, que Daemon não voltaria a Harrenhal. Deixar não um, mas três dragões estacionados para o caso de Aemond aparecer é extremamente idiota. A menos que a intenção seja mostrar o despreparo da rainha, já que Daemon está lutando a quilômetros dali, é de uma estupidez atroz manter Addam, Ulf e Hugh em stand-by.

Ulf está certo, e me dá raiva admitir isso porque ele é um nojo. Incluir detalhes de sua infância e de sua vida abusada dá contexto ao horror que ele é, mas o interessante do livro está justamente na surpresa de Ulf e Hugh se virarem contra Rhaenyra. Na série, eles já são praticamente contra ela desde o início. Ali não há lealdade, integridade ou sequer objetivo. Ulf é uma espécie de Bronn menos carismático. Em termos de trama e narrativa, essa mudança me incomodou. Ao mesmo tempo, me aliviou, porque realmente detesto Ulf com todas as forças.

E Larys fugindo com Aegon? Perfeito. A arrogância de Aegon, sua dor e sua falta de perspicácia contrastam com tudo o que sobra em Larys. A crueldade de negar o remédio ao rei — um misto de tortura e decisão estratégica para mantê-lo acordado — só é menos assustadora do que o momento em que Larys testa o terreno e percebe que há homens corruptíveis em seu caminho.

Ele finge trair Aegon para descobrir se os soldados são gananciosos, e tudo é feito de uma maneira tão falsa quanto ele. Larys é um vilão espetacular. E, para quem conhece o final da história, é impossível não se arrepiar quando surge a ideia de levar Aegon para Dragonstone. Em tese, para entregá-lo a Rhaenyra. Mas sabemos o que vai acontecer. Excelente adaptação. A série acrescenta justamente o que faltava no livro: como Larys arquitetou seu plano e conseguiu executá-lo tão bem.

Rhaena atrapalhando e contribuindo indiretamente para a morte de Jacaerys também funciona dentro da mensagem que a série quer reforçar sobre o perigo e a ilusão de controle dos Targaryen sobre os dragões. A repetição dos animais fora de controle faz parte dessa lógica. Ok, então funciona.

E nos despedimos do primogênito de Rhaenyra, seu amigo e confidente. Mesmo conhecendo seu destino, foi uma cena fiel ao que se esperava: triste e bem House of the Dragon.

Faltou muita coisa. Cadê Otto? Como Ormund se tornou comandante? Por que Criston Cole fica pintando escudos enquanto espera por Aemond? Tudo isso deve ser explicado em breve.

Foi uma grande volta. House of the Dragon merece, mesmo com todas as minhas implicâncias, estar sendo vista de forma positiva. E talvez essa seja a melhor crítica possível ao episódio: depois de 1h20, eu queria mais.

Pena que sejam apenas seis semanas.


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