O que o título do episódio final de The Bear revela sobre o destino de Carmy

Depois de cinco temporadas acompanhando a jornada de Carmy Berzatto, The Bear chega ao fim olhando para o lugar onde tudo começou. O episódio final se chama The Original Beef of Chicagoland, nome do restaurante da família antes da reforma que transformou o velho balcão de sanduíches no sofisticado The Bear.

A escolha parece simples, mas dificilmente é acidental.

Desde a estreia, a série foi apresentada como a história de um chef premiado que abandona o mundo da alta gastronomia para assumir o restaurante deixado pelo irmão após sua morte. No entanto, por trás da trama sobre cozinhas, cardápios e críticas gastronômicas, Christopher Storer sempre esteve contando outra história: a de Chicago.

Mais especificamente, a história de três Chicagos muito diferentes que acabaram moldando Carmy Berzatto.

A primeira delas é a mais evidente. O fictício Original Beef of Chicagoland nasceu diretamente do Mr. Beef, lanchonete fundada por Joe Zucchero em 1979 e administrada hoje por seu filho, Chris. Amigo de infância de Storer, Zucchero abriu as portas do restaurante para a produção e ajudou a construir a atmosfera que tornou a série tão particular.

O balcão apertado, os clientes habituais, a cozinha permanentemente em ebulição e a sensação de que aquele lugar pertence ao bairro antes de pertencer aos donos vêm diretamente do Mr. Beef. O restaurante real continua servindo seu famoso Italian Beef Sandwich quase cinquenta anos depois da inauguração e, desde o sucesso da série, se transformou em um dos pontos turísticos mais disputados de Chicago.

Mas Carmy nunca foi apenas o herdeiro de um negócio familiar.

Sua personalidade parece ter sido construída a partir de outra figura fundamental da gastronomia da cidade: Charlie Trotter. O chef ajudou a colocar Chicago no mapa da alta gastronomia americana e se tornou famoso por uma busca obsessiva pela excelência que inspirava admiração e medo na mesma medida. A pressão constante, o perfeccionismo e a crença de que qualquer falha é inaceitável ecoam em praticamente todas as temporadas de The Bear.

É possível enxergar essa influência em cada decisão de Carmy. Mesmo quando tenta salvar o restaurante da família, ele continua encarando a cozinha como um campo de batalha. O problema nunca foi apenas o dinheiro ou a administração do negócio. Era a incapacidade de desligar a voz que dizia que tudo precisava ser perfeito.

Entre esses dois mundos — o balcão de sanduíches e o restaurante estrelado — existe ainda uma terceira influência menos óbvia, mas talvez essencial para compreender a série.

Doug Sohn, fundador do lendário Hot Doug’s, construiu sua reputação provando que comida popular e alta gastronomia não precisavam viver separadas. Enquanto muitos chefs escolhiam entre a tradição e a sofisticação, Sohn colocava foie gras, trufas e ingredientes sofisticados dentro de cachorros-quentes servidos em um ambiente informal e acessível.

Sua rebeldia ficou particularmente famosa durante a chamada Guerra do Foie Gras. Quando Chicago proibiu a venda do ingrediente em 2006, Sohn continuou servindo seu famoso Foie Dog e pagou multas como forma de protesto. Em vez de esconder as autuações, ele as emoldurou e as exibiu no restaurante.

Por trás da provocação existia uma filosofia bastante simples: não havia motivo para escolher entre comida popular e alta gastronomia.

Olhando para a trajetória de Carmy, é difícil não perceber como essa ideia atravessa a série inteira.

Ao transformar o Beef em The Bear, ele acreditava estar deixando um mundo para trás e abraçando outro. Mas talvez o verdadeiro desafio nunca tenha sido escolher entre o legado de Mikey e o prestígio da Michelin. Talvez fosse descobrir uma forma de unir os dois.

É por isso que o título do episódio final chama tanta atenção.

Depois de anos falando sobre inovação, ambição e excelência, a série termina evocando o nome do restaurante original. Não o restaurante transformado. Não é o sonho de alta gastronomia. Não o futuro, mas o passado. Ou, pelo menos, aquilo que merece ser preservado dele.

Se existe uma pista sobre o destino de Carmy, ela pode estar justamente nessa escolha. The Bear sempre foi uma série sobre luto, herança e identidade muito mais do que sobre comida. A cozinha funcionava como cenário para personagens tentando descobrir quem eram depois de perder alguém, de fracassar ou de perceber que o sonho que perseguiam talvez não fosse exatamente o seu.

O Mr. Beef representa a comunidade que Carmy deixou para trás. Charlie Trotter representa a excelência que ele passou a vida perseguindo. Doug Sohn representa a possibilidade de conciliar essas duas forças aparentemente incompatíveis.

Talvez seja cedo para saber qual caminho a série escolherá. Mas o título do último episódio sugere que a resposta pode estar menos nas estrelas Michelin e mais naquilo que existia antes delas.

No fim, a grande pergunta de The Bear nunca foi como administrar um restaurante. Foi descobrir o que vale a pena salvar quando tudo muda. E talvez a despedida da série esteja prestes a responder exatamente isso.


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