Mel Brooks aos 100: o homem que se recusou a parar de fazer rir

Como publicado no Blog do Amaury Jr./ Splash UOL

Há algo de extraordinário em Mel Brooks completar 100 anos ainda falando sobre seu próximo projeto. Em uma indústria obcecada pela juventude, pela novidade e pela substituição constante de seus próprios ícones, Brooks alcança o centenário ocupando uma posição raríssima: a de uma lenda que se recusa a se transformar apenas em memória. Enquanto Hollywood se dedica a celebrar seu legado, ele continua trabalhando.

O momento não poderia ser mais apropriado. Esse ano, a HBO antecipou a data com o documentário Mel Brooks: The 99 Year Old Man!, dirigido por Judd Apatow e Michael Bonfiglio, que funciona como uma espécie de homenagem que acabou se transformando em algo muito mais interessante: o retrato de um artista que, aos 99 anos, ainda não tinha qualquer intenção de encerrar sua história. Ao longo de mais de três horas, Brooks revisita uma carreira que praticamente se confunde com a própria história da comédia americana moderna. Imperdível.

Nascido Melvin Kaminsky, no Brooklyn de 1926, Brooks atravessou praticamente todas as transformações da indústria do entretenimento. Serviu durante a Segunda Guerra Mundial, tornou-se roteirista do lendário Your Show of Shows, de Sid Caesar, ao lado de nomes como Carl Reiner, Neil Simon e Woody Allen, ajudou a inventar a linguagem da televisão moderna e, depois, redefiniu o cinema de comédia.

Sua filmografia permanece uma das mais impressionantes da história do humor. The Producers transformou o nazismo em objeto de ridicularização quando poucos ousariam fazê-lo. Blazing Saddles usou o western para desmontar o racismo americano. Young Frankenstein reinventou os filmes clássicos de terror da Universal com uma elegância visual raramente vista em comédias. Spaceballs provou que nenhuma franquia cultural era grande demais para escapar de sua sátira. Brooks não fazia apenas paródias. Ele demonstrava um profundo amor pelos gêneros que desconstruía.

O documentário também dedica grande atenção ao aspecto mais melancólico de sua longevidade: as pessoas que ficaram para trás. A perda de Anne Bancroft, sua companheira por mais de quarenta anos, continua sendo descrita pela própria família como o maior golpe de sua vida. Seu filho, Max Brooks, afirma que, após a morte da atriz em 2005, “toda a luz se apagou” para o pai. Ainda assim, o humor acabou funcionando, mais uma vez, como mecanismo de sobrevivência.

Nos últimos anos, Brooks também viu partir alguns dos amigos que ajudaram a construir sua trajetória. O documentário da HBO acabou registrando as últimas entrevistas de David Lynch e de Rob Reiner antes de suas mortes, transformando uma celebração da carreira de Brooks em um inesperado testemunho sobre envelhecimento, amizade e permanência.

E talvez seja justamente essa a parte mais surpreendente da história. Aos 100 anos, Mel Brooks não está apenas sendo homenageado. Ele continua produzindo. Em 2026, tornou-se produtor executivo de Very Young Frankenstein, série derivada de um dos filmes mais amados de sua carreira, desenvolvida por Stefani Robinson e Taika Waititi, que está em desenvolvimento. A ideia de que, um século depois de seu nascimento, Brooks ainda esteja supervisionando uma nova geração de piadas sobre Frankenstein parece absurda. É absolutamente apropriada.

Talvez porque Mel Brooks nunca tenha acreditado que envelhecer significasse abandonar a curiosidade, a irreverência ou a capacidade de rir do absurdo da existência. Poucos artistas sobreviveram tempo suficiente para se tornarem instituições. Menos ainda conseguiram permanecer humanos depois disso.

Mel Brooks, aos 100 anos, continua fazendo exatamente aquilo que sempre fez: transformando o medo, a perda e a passagem do tempo em uma enorme e irresistível piada.


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