Meu problema com Rhaenyra em House of the Dragon

Quem lê MiscelAna sabe que praticamente tenho uma categoria que é “meu problema com” personagens. De Billions, The Great e, claro, Game of Thrones e House of the Dragon, me permito mesclar opinião com crítica, argumentando meu ponto de vista. Hoje, meu problema é com a Rhaneyra da série House of the Dragon.

Há uma diferença importante entre discordar de uma interpretação e questionar uma atriz. No caso de Emma D’Arcy como Rhaenyra Targaryen, essa diferença precisa ser preservada. Não se trata de falta de talento, presença ou entrega. Pelo contrário. Emma consegue transmitir praticamente todas as emoções que a série pede a Rhaenyra: dor, luto, amor materno, culpa, exaustão, inteligência, medo, contenção e vulnerabilidade. O problema está justamente no que House of the Dragon raramente lhes permite mostrar: ódio, raiva, ressentimento, desejo de vingança e fome de poder.

E, para mim, essas ausências mudam profundamente a personagem.

Em Fogo & Sangue, Rhaenyra é descrita por narradores parciais, misóginos e frequentemente interessados em destruí-la. Isso precisa sempre ser lembrado. A história que chega até nós não é neutra. Ainda assim, mesmo filtrada por olhares hostis, a Rainha Dragão aparece como uma figura complexa, no mínimo: invejosa, ciumenta, ressentida, arrogante, despreparada em certos momentos, manipulada em outros, profundamente maternal com seus filhos, mas também ambiciosa e capaz de decisões duras. Aegon II tampouco é elogiado em quase nada, mas a Dança dos Dragões não é a história de uma santa contra um monstro. É a história de uma guerra dinástica conduzida por pessoas feridas, vaidosas, violentas e legitimamente convencidas de seus próprios direitos.

Na versão jovem da série, Milly Alcock parecia mais próxima dessa contradição, ainda que humanizada. Sua Rhaenyra era uma adolescente criada sob a sombra de ser sempre menos por ser mulher. Viu a mãe morrer para que um herdeiro homem pudesse nascer. Foi usada como peça política por Otto Hightower e pelo próprio Viserys, inclusive para barrar Daemon. Foi traída pela melhor amiga. Descobriu e explorou sua sexualidade em segredo, com ousadia e risco. Havia nela frustração, arrogância, desejo, orgulho e uma raiva que não precisava ser verbalizada para existir.

Quando reencontramos Rhaenyra adulta, agora vivida por Emma D’Arcy, a personagem parece outra. Mais doce, mais insegura, mais melancólica, mais vulnerável. Fãs amam essa escolha, e é fácil entender por quê. Emma compõe uma Rhaenyra profundamente humana, atravessada pelo peso da maternidade, da profecia e da responsabilidade histórica. Mas é justamente aí que nasce minha discordância. A Rhaenyra do livro também sofre e perde, também é atacada por uma estrutura misógina, mas sua vulnerabilidade nunca substitui sua ambição. E, na série, muitas vezes substitui.

Rhaenyra se derruba a cada morte de um filho, como seria natural. O problema é que sua recuperação dramática é frequentemente rápida demais por necessidade de roteiro e, paradoxalmente, nunca se transforma na fúria vingativa que o livro sugere. A morte de Lucerys deveria radicalizá-la.

A morte de Jacaerys deveria endurecê-la. Cada perda deveria aproximá-la de uma versão mais perigosa de si mesma. Em vez disso, a série insiste em uma Rhaenyra que hesita, pondera, tenta evitar a guerra e preservar alguma ideia moral de si mesma. Isso pode ser uma escolha interessante, mas também cria um problema: a protagonista da guerra parece, em vários momentos, menos agente dos acontecimentos do que alguém empurrada por eles.

Mais do que isso, já ouvimos nos trailers desta temporada uma Rhaenyra falar sobre evitar derramamento de sangue. A Rhaenyra de Fogo & Sangue, ao contrário, torna-se progressivamente sedenta por vingança ou, no mínimo, indiferente ao custo humano da guerra. Afinal, ela já pagou o seu próprio preço: perdeu três filhos (na série falta um, mas já foram dois) e uma filha.

É justamente aqui que encontro a maior incoerência da personagem na série. Ao tentar humanizá-la, House of the Dragon acaba retirando dela algo fundamental: a compreensão brutal de que poder e sobrevivência frequentemente exigem que se retire dos outros exatamente aquilo que se deseja preservar para si. Nesse sentido, sinto falta da praticidade quase desconfortável de personagens como Cersei Lannister — e, em outra chave, da própria Sansa Stark — mulheres que compreenderam que, em Westeros, manter poder e permanecer viva raramente são objetivos compatíveis com a hesitação.

A cena em que Rhaenyra hesita diante do Trono de Ferro me soou especialmente errada. Àquela altura, Rhaenyra quer muito aquele trono. Ela acredita que ele é seu por direito, por juramento, pela vontade de Viserys, pela profecia e também porque tem força para tomá-lo. Tirar dela esse desejo frontal enfraquece a personagem. E transformar a invasão de King’s Landing quase em um presente de Alicent enfraquece ainda mais. Mais uma vez, a série retira de Rhaenyra o protagonismo de sua própria conquista. Talvez essa seja justamente a grande diferença entre a Rhaenyra da série e a do livro: a segunda sabe que conquistou aquilo que acredita ser seu através de sangue, sacrifício e injustiça, e parece disposta a conviver com esse preço.

Talvez essa seja a diferença mais significativa entre a Rhaenyra da série e outras rainhas de Westeros. Cersei Lannister, apesar de ocupar claramente o papel de antagonista, também é uma mãe devastada pela perda dos filhos. Ela também sofre humilhações, injustiças e perdas irreparáveis. Mas Cersei jamais permite que o sofrimento substitua sua ambição ou seu desejo de poder. Pelo contrário: cada perda a torna mais determinada, mais perigosa e, paradoxalmente, mais régia. Seu luto não diminui sua autoridade; reforça sua convicção de que o mundo lhe deve reparação.

Rhaenyra, no livro, parece caminhar em direção semelhante. Não porque seja uma vilã ou porque George R. R. Martin pretenda colocá-la no mesmo lugar moral de Cersei, mas porque compreende algo fundamental sobre Westeros: depois de pagar um preço alto demais, torna-se impossível continuar tratando o poder como uma abstração moral. Ela perde uma filha e três filhos. É traída, usurpada e forçada a conquistar aquilo que acredita ser seu por nascimento, profecia e juramento. Seu sofrimento não a torna mais pacífica; torna-a mais consciente de que, em Westeros, o poder raramente é conquistado ou mantido sem que outros paguem o preço.

A série, no entanto, parece interessada em outra leitura. Uma Rhaenyra que permanece consciente do custo humano da guerra, que continua tentando evitar derramamento de sangue mesmo depois de ter pago o preço mais alto possível. É uma escolha legítima, mas que, para mim, cria uma contradição difícil de ignorar: a Rainha Dragão que conquistou o trono através do sangue e da dor parece ser, justamente, a personagem menos disposta a aceitar que o poder em Westeros sempre exigiu ambos.

Há ainda um detalhe visual que talvez sintetize minha dificuldade com a construção de Rhaenyra melhor do que qualquer comparação com Fogo & Sangue. Ao longo das temporadas, a série criou uma espécie de assinatura visual para a personagem: seus olhares diretos para a câmera. São momentos poderosos, pensados para aproximar o espectador de sua subjetividade. Mas, quando observados em conjunto, algo se torna evidente: praticamente todos mostram Rhaenyra chorando, prestes a chorar ou devastada pela dor.

Claro, existe uma explicação narrativa para isso. Quase todas as suas vitórias vêm acompanhadas de perdas profundas e imediatas. Ela perde a filha, perde o pai, perde filhos, perde aliados, perde partes de si mesma. O problema não é que Rhaenyra chore. O problema é que ela parece autorizada a expressar quase exclusivamente essa emoção.

Onde estão os olhares de fúria? De ressentimento? De ambição? De vingança? Onde está a mulher que, no imaginário construído por George R. R. Martin — ainda que filtrado por cronistas hostis e misóginos — também era capaz de desejar poder, sentir inveja, cultivar ódio e tomar decisões movidas pela própria raiva?

A repetição desses enquadramentos acaba revelando algo sobre a própria leitura que House of the Dragon faz de sua protagonista. Rhaenyra pode sofrer. Rhaenyra pode lamentar e pode ser vítima, mas raramente pode ser perigosa. E talvez seja justamente essa Rhaenyra que sinto falta de encontrar.

Em comparação, a construção de Alicent também é muito diferente da do livro, mas encontra em Olivia Cooke uma intérprete capaz de sustentar todas as contradições da personagem. A Alicent adulta tem uma firmeza que a jovem Alicent não possuía. Ela pode ser culpada e cruel, religiosa e hipócrita, amorosa e manipuladora, vítima e agente. Olivia Cooke entende que Alicent é feita de contradições, não de justificativas. Ela não precisa ser suavizada para ser compreendida.

Rhaenyra e Alicent sempre funcionaram como espelhos. As duas são moldadas pelo mesmo sistema, mas reagem de formas opostas. Alicent se agarra ao dever, à ordem, à religião, à aparência de correção. Rhaenyra deveria se agarrar ao direito, ao desejo, ao sangue Targaryen, à convicção de que nasceu para algo maior. Só que, na série, enquanto Alicent ganha camadas de dureza com Olivia Cooke, Rhaenyra frequentemente perde suas arestas com Emma D’Arcy.

E volto a dizer: isso não é culpa de Emma. É uma escolha de escrita.

Emma D’Arcy está carregando um protagonismo pesadíssimo. Matt Smith parece absolutamente à vontade como Daemon, tanto pela experiência quanto pelo tipo de personagem que interpreta. Daemon é caótico, carismático, perigoso, contraditório e a série permite que ele seja tudo isso. Emma, por outro lado, assumiu o papel central sem ser uma estrela global antes de House of the Dragon. Além disso, interpreta uma Targaryen sob a sombra inevitável de Daenerys, uma das personagens mais populares e lendárias da televisão recente. É um peso imenso.

Por isso, minha resistência nunca foi à escalação de Emma D’Arcy, o medo da série de permitir que Rhaenyra seja plenamente difícil. Como se, para que o público torcesse por ela, fosse necessário retirar parte de sua ambição, de sua arrogância, de seu ressentimento e de sua capacidade de crueldade. Mas era justamente essa mistura que tornava Rhaenyra fascinante.

Uma protagonista feminina não precisa ser moralmente superior para ser defendida. Rhaenyra pode ser vítima da misoginia e ainda assim ser ambiciosa. Pode ser mãe amorosa e ainda assim desejar vingança. Pode ter direito ao trono e ainda assim ser despreparada para governar. Pode ser traída e também trair. Pode ser injustiçada e cometer injustiças. Reduzir essa contradição em nome da empatia é empobrecer a personagem.

Daemon percebe isso dentro da própria narrativa. Suas discussões com Rhaenyra frequentemente apontam para a mesma questão: ela é uma líder questionada porque hesita em agir, porque tenta preservar uma ideia de paz quando a guerra já começou, porque parece se recusar a exercer a violência que sua posição exige. No livro, a tensão entre eles nasce de outra energia. Rhaenyra não é frágil demais para o poder. Ela é orgulhosa demais, ferida demais, cercada demais e, aos poucos, se torna mais dura, mais desconfiada e mais perigosa.

Essa diferença muda tudo.

Os fãs torcem por Emma D’Arcy nos Emmys, e uma indicação seria mais do que compreensível. A atuação é consistente, elegante, intensa e carregada de humanidade. Uma vitória dependeria muito do arco oferecido pela temporada e da forma como a indústria lerá essa contenção. O Emmy muitas vezes recompensa explosão, transformação, cenas de ruptura. Emma trabalha em outro registro: o do trauma internalizado, do olhar que segura mais do que diz, da vulnerabilidade como linguagem. É um trabalho sofisticado.

E talvez esta temporada ofereça justamente a oportunidade de mostrar outra faceta dessa Rhaenyra. Nos dois primeiros episódios, Emma D’Arcy já está excelente, navegando entre o luto, a exaustão e o peso político da guerra. Mas críticos e profissionais que tiveram acesso antecipado aos próximos capítulos têm apontado o mesmo momento como um divisor de águas: finalmente veremos uma Rhaenyra mais intensa, mais visceral e emocionalmente devastada. Se isso se confirmar, Emma poderá demonstrar algo que muitos de nós nunca duvidamos que existisse: sua capacidade de interpretar também a fúria da Rainha Dragão.

Porque, no fim, minha divergência sempre foi porque a Rhaenyra que eu imaginava a partir de Fogo & Sangue tinha mais sangue nos olhos. A herdeira que sabe que o trono é seu e não pede licença para ocupá-lo.

Talvez, finalmente, estejamos prestes a conhecer essa Rhaenyra.


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