Durante muito tempo, parecia natural comparar Otto Hightower a Tywin Lannister. Os dois eram estrategistas brilhantes, patriarcas autoritários e arquitetos de dinastias construídas sobre ambição, controle e a convicção absoluta de que apenas eles compreendiam como o mundo realmente funcionava. House of the Dragon, porém, acabou revelando algo mais interessante: Otto nunca foi Tywin. Sua tragédia foi muito mais profunda.


Quando encontramos Otto pela primeira vez, ele já havia vencido. Antes mesmo do início da série, era a Mão do Rei Jaehaerys e, depois, de Viserys I. Sobreviveu a transições de poder, administrou crises dinásticas e consolidou uma influência sem precedentes para sua própria família. Nada disso aconteceu por acaso. Otto era inteligente, paciente, calculista e absolutamente implacável.
Pouco sabemos sobre sua esposa, mas tudo indica que Otto a amou. O mesmo não pode ser dito sobre a forma como tratou a própria filha. Alicent tornou-se um instrumento político antes mesmo de compreender que estava sendo usada. Otto aproveitou a amizade dela com Rhaenyra para aproximá-la de Viserys, transformando a companheira de infância da princesa em sua rival política e, depois, em sua madrasta. Foi talvez o movimento político mais eficiente de toda a Dança dos Dragões — e também aquele que acabaria destruindo sua própria família.
Otto desprezava Daemon Targaryen, desconfiava de Rhaenyra e acreditava sinceramente que ambos representavam uma ameaça à estabilidade do reino. Mas, como tantos homens poderosos de Westeros, confundiu seus próprios interesses com o bem comum. Otto dizia agir em nome da tradição, da religião e da ordem social. Na prática, estava construindo algo muito mais específico: uma dinastia Hightower-Targaryen destinada a ocupar permanentemente o Trono de Ferro.
Racional e pragmático, Otto cercou-se de informantes e agentes. Utilizou Mysaria como fonte de informações, manipulou Viserys, explorou as inseguranças de Rhaenyra e procurou manter Daemon permanentemente afastado do centro do poder. Ele entendia os mecanismos políticos melhor do que qualquer outro personagem de sua geração. Seu grande erro não foi subestimar Daemon ou Rhaenyra. Foi subestimar Alicent.

Na série, Alicent nunca se torna a operadora política que é nos livros. Ela é inteligente, mas emocional, contraditória e frequentemente incapaz de compreender o alcance das estratégias do pai. Quando finalmente percebe o que Otto construiu, já é tarde demais. E, no momento decisivo, disputa com ele a influência sobre Aegon II. A guerra civil que Otto planejou durante décadas deixa de lhe pertencer.
Primeiro, Ser Criston Cole ocupa o espaço político que antes era seu. Depois, é Larys Strong quem assume o verdadeiro controle dos bastidores. Enquanto Otto continua acreditando que participa do jogo, já se tornou apenas uma peça dele.
Existe uma ironia extraordinária nisso. Otto passou décadas manipulando reis, rainhas, príncipes e conselheiros. No final, caiu justamente para o único homem que nunca percebeu estar jogando um jogo ainda maior: Larys Strong.
A revelação de que Otto esteve preso durante todo esse tempo, escondido por Larys desde os acontecimentos de Rook’s Rest, reescreve completamente sua trajetória na série. O grande arquiteto da guerra passou seus últimos dias impotente, isolado e esquecido. Ninguém parecia procurá-lo. Ninguém parecia capaz de encontrá-lo. O homem que acreditava controlar Westeros descobriu, tarde demais, que havia perdido o controle da própria história.


Nada disso funcionaria sem Rhys Ifans. Curiosamente, o ator nunca escondeu seu desprezo por Otto Hightower. Em entrevistas, sempre foi bastante claro ao afirmar que não concordava com seus valores, sua visão de mundo ou seus métodos. Talvez por isso mesmo sua interpretação seja tão extraordinária. Ifans nunca tentou tornar Otto simpático ou justificável. Em vez disso, o interpretou com dignidade, inteligência, confiança e absoluta convicção.
Otto sempre acreditou estar certo. Essa era sua maior força e sua maior fraqueza.
Ifans compreendeu algo fundamental sobre o personagem: Otto não era um vilão de fantasia, mas um tipo histórico bastante reconhecível — o homem que governa sem usar a coroa. Ele pertence à tradição do que os observadores da monarquia britânica costumam chamar de “os homens de terno cinza”: os conselheiros, secretários e assessores que exercem o poder real enquanto os reis representam a instituição.
Viserys, preocupado com paz, afeto e estabilidade, frequentemente hesitava em agir com firmeza. Otto ocupava esse vazio. Sabia exatamente quando plantar uma dúvida, quando dizer uma verdade inconveniente e quando permanecer em silêncio. Manipulava sem levantar a voz. Convencia sem parecer estar convencendo.
Também não lhe faltava coragem. Otto foi o homem que enfrentou Daemon Targaryen diante de Caraxes em Dragonstone armado apenas com sua autoridade e sua convicção. Continua sendo uma das demonstrações mais claras do que o tornava tão perigoso: ele entendia que poder era, muitas vezes, uma questão de percepção.


Rhaenyra e Daemon, porém, enxergavam Otto de maneiras muito diferentes. Rhaenyra o subestimou durante grande parte da vida, tratando-o como um cortesão ambicioso e desagradável. Daemon o odiou desde o início. Não porque acreditasse que Otto era indispensável, mas porque compreendia exatamente o que ele representava: um homem que havia se infiltrado no coração da Casa Targaryen e pretendia governar através dela.
Viserys confiava em Otto. Rhaenyra o subestimou. Mas Daemon nunca o fez. Com todos os seus defeitos, Daemon foi o único membro de sua família que reconheceu Otto Hightower como a ameaça política que ele realmente era.
E talvez essa seja a ironia final de Otto Hightower: o homem que ele mais odiava foi também o único que o enxergou com absoluta clareza.
Quando Rhaenyra finalmente o encontra em King’s Landing, Otto continua sendo Otto: orgulhoso, arrogante e convencido de sua própria superioridade moral. Mesmo diante da execução, ainda tenta manipular a rainha, sugerindo que Viserys teria se decepcionado com ela.
Mas talvez seja justamente aí que esteja a maior revelação sobre Otto Hightower.
Na psicanálise, chamamos isso de projeção.
Porque Otto morre sabendo exatamente quem decepcionou Viserys. Morreu sabendo que sacrificou a filha, utilizou os netos, destruiu a amizade entre Alicent e Rhaenyra, provocou uma guerra civil e fracassou em construir a dinastia que imaginou. Morreu sabendo que perdeu.

Sua tragédia, porém, não termina com ele. Alicent havia prometido entregar Aegon em troca da paz e poupado Aemond. Talvez tenha até aceitado sacrificar o filho mais velho porque reconhece seu sofrimento e sua deformidade. Mas termina o episódio diante da cabeça do pai.
É possível que Otto Hightower, mesmo morto, consiga realizar pela última vez aquilo que fez durante toda a vida: separar Alicent e Rhaenyra.
Porque a Dança dos Dragões sempre foi, acima de tudo, uma guerra entre pais e filhos. E ninguém moldou mais tragédias do que Otto Hightower.

Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário Adicione o seu