A musa de Vivaldi existiu e sua história é ainda mais fascinante

Como publicado em CLAUDIA

Há algumas décadas, livros, séries e filmes vêm explorando um território fascinante: o da reimaginação de personagens históricos para contar histórias que, em essência, são menos biográficas do que emocionais, criativas e, frequentemente, anacrônicas. Algumas dessas obras funcionam justamente porque assumem seu caráter de fantasia — Shakespeare Apaixonado, The Great ou Hamnet transformam figuras e períodos históricos em matéria-prima para reflexões contemporâneas. Outras acabam adquirindo, curiosamente, o status de verdade cultural: para muitos espectadores, Salieri continuará sendo o grande antagonista de Mozart em Amadeus, assim como Catarina de Médici permanecerá associada à versão apresentada em A Rainha Serpente. E, claro, existem aquelas que desafiam qualquer compromisso com a plausibilidade histórica. Em uma época em que consumimos narrativas inspiradas em fatos reais com a mesma avidez — ou até maior — do que a própria ficção, as possibilidades parecem infinitas.

Talvez um dos impulsos mais persistentes dessa tradição seja a tentativa de responder às perguntas que a história nunca conseguiu responder: o que levou Shakespeare a escrever Hamlet ou Romeu e Julieta? Salieri realmente invejava Mozart a ponto de desejar sua morte? O que transforma uma experiência humana em uma obra-prima? Primavera, o novo filme do diretor italiano Damiano Michieletto, que estreou no Festival de Toronto, percorreu o circuito internacional de festivais e conquistou quatro prêmios David di Donatello, chega finalmente aos cinemas brasileiros propondo sua própria resposta a uma dessas grandes perguntas. E ela é particularmente ambiciosa: quem — ou o quê — inspirou Antonio Vivaldi a compor As Quatro Estações?

A resposta oferecida pelo filme é, naturalmente, ficcional. Mas, como acontece nas melhores reimaginações históricas, ela se sustenta sobre uma realidade tão extraordinária que faz a invenção parecer plausível. Porque Vivaldi, que era padre e cuja vida amorosa permanece mais objeto de especulação do que de documentação, talvez não tenha vivido um grande amor. Mas teve, ao menos artisticamente, uma musa: Anna Maria della Pietà. Ou, mais precisamente, teve uma geração inteira delas.

A história de Anna Maria começa com um dos gestos mais dolorosos e comuns da Europa pré-moderna: o abandono. Nascida provavelmente em 1696, ela foi deixada ainda bebê no Ospedale della Pietà, em Veneza. Como milhares de crianças antes e depois dela, provavelmente chegou à instituição através da scaffetta, uma pequena abertura construída na parede que permitia abandonar recém-nascidos anonimamente. Seu sobrenome não indicava uma família. Indicava o lugar que a criou.

O Ospedale della Pietà não era exatamente um orfanato, pelo menos não no sentido que damos à palavra hoje. Fundado no século 14 e herdeiro de instituições de acolhimento surgidas ainda durante o período das Cruzadas, ele se transformou, ao lado dos hospitais dos Mendicanti, dos Incurabili e do Ospedaletto, em um dos experimentos educacionais mais extraordinários da história europeia. Na Veneza dos séculos 17 e 18, esses espaços passaram a funcionar como verdadeiros conservatórios femininos. As meninas mais talentosas, conhecidas como figlie di coro, recebiam uma formação musical que rivalizava — e frequentemente superava — a oferecida aos homens nos conservatórios da época. Estudavam violino, viola, violoncelo, oboé, flauta, órgão, tiorba, canto e, em alguns casos, até composição. Era uma das raras situações na Europa do século 18 em que mulheres podiam receber uma educação artística de elite, desde que aceitassem permanecer invisíveis.

O paradoxo é que essas jovens podiam se tornar as melhores musicistas da Europa sem jamais serem plenamente vistas. Os concertos da Pietà atraíam aristocratas, diplomatas, escritores e viajantes de todo o continente, mas as apresentações aconteciam atrás de grades e cortinas. O público ouvia algumas das intérpretes mais extraordinárias do século 18 sem conhecer seus rostos. O mistério, criado inicialmente por razões morais e sociais — muitas dessas meninas eram, acredita-se, filhas ilegítimas da aristocracia veneziana —, acabou se tornando parte do fascínio. Rousseau, Burney e inúmeros viajantes descreveram a experiência de ouvir aquelas mulheres invisíveis como algo próximo do sobrenatural.

Foi nesse ambiente que Anna Maria revelou um talento excepcional. Ainda criança, chamou a atenção de Antonio Vivaldi, que havia começado a trabalhar na Pietà em 1703. A relação entre os dois duraria décadas. Anna Maria não era apenas violinista: tocava também violoncelo, oboé, alaúde, mandolina, cravo e viola d’amore. Vivaldi escreveu para ela pelo menos vinte e oito concertos — alguns pesquisadores acreditam que o número real seja ainda maior — e muitos historiadores da música defendem que parte do extraordinário virtuosismo associado ao compositor só foi possível porque existia uma intérprete capaz de levá-lo a seus próprios limites criativos.

Durante sua vida, Anna Maria foi uma celebridade. Em 1720, tornou-se maestra; em 1737, alcançou simultaneamente os cargos de maestra di violino e maestra di coro, os mais altos da instituição. Viajantes cruzavam a Europa para ouvi-la tocar. Um poeta anônimo escreveu que, quando Anna Maria se apresentava, “incontáveis anjos ousavam aproximar-se”. E, ainda assim, ela nunca deixou a Pietà. Viveu, trabalhou, ensinou e morreu, em 1782, dentro da instituição onde havia sido deixada ainda bebê. A menina abandonada tornou-se uma das maiores musicistas de sua geração sem jamais abandonar o lugar que a salvou e, de certa forma, também a confinou.

É justamente dessa ausência histórica que nasce Primavera.

Dirigido por Damiano Michieletto — um dos mais importantes diretores de ópera da atualidade, com trabalhos na Scala de Milão, na Royal Opera House e na Ópera de Paris —, o filme adapta livremente Stabat Mater, romance de Tiziano Scarpa, vencedor do Prêmio Strega em 2009. A protagonista já não é Anna Maria, mas Cecília, interpretada por Tecla Insolia, vencedora do David di Donatello por A Arte da Alegria e indicada novamente por sua atuação aqui. Cecilia nunca existiu. Mas talvez seja justamente por isso que ela funcione tão bem: ela é, ao mesmo tempo, Anna Maria e todas as outras mulheres que a história da música transformou em notas de rodapé.

Confesso que, durante boa parte de Primavera, pensei menos em Amadeus e mais em O Mestre da Música, de Gérard Corbiau, de 1988. Talvez porque ambos compreendam algo que o cinema raramente entende quando decide filmar artistas: a história mais interessante nunca é exatamente a do gênio. É a das pessoas que o cercam, o desafiam, o inspiram e, frequentemente, desaparecem para que a narrativa da genialidade individual possa sobreviver.

Visualmente, Primavera é deslumbrante. A fotografia de Daria D’Antonio, colaboradora habitual de Paolo Sorrentino, transforma Veneza em uma pintura barroca iluminada por velas. A cidade, porém, está longe dos cartões-postais: é úmida, escura, melancólica e, por vezes, ameaçadora. A reconstrução do próprio Ospedale della Pietà exigiu uma operação quase arqueológica, já que o edifício original desapareceu e precisou ser recriado a partir de estudos de outros complexos venezianos da época. O resultado é um filme cuja beleza nunca é apenas decorativa: ela faz parte da própria ideia de aprisionamento e transcendência que atravessa a narrativa.

Michieletto já afirmou que não queria realizar uma cinebiografia de Vivaldi. E talvez essa seja a decisão mais inteligente de Primavera. O filme não está realmente interessado em explicar como Antonio Vivaldi compôs As Quatro Estações. Está interessado em algo muito mais perturbador: quantas mulheres extraordinárias foram necessárias para que pudéssemos acreditar, durante quase trezentos anos, que estávamos ouvindo apenas um homem.

Talvez a maior ironia da história de Antonio Vivaldi seja que parte da música que associamos ao seu gênio só tenha sido possível porque uma órfã veneziana, abandonada ainda bebê, era talentosa o suficiente para obrigá-lo a ser ainda melhor.

Ao final, saí do cinema querendo ouvir Vivaldi novamente, mas, pela primeira vez, imaginando quem estava tocando junto com ele.

O filme Primavera entra em cartaz dia 09 de julho. Vale muito a pena conferir.


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