Confesso que comecei Elle: Legalmente Loira desconfiada. Não porque considere Legalmente Loira um filme intocável, pelo contrário. Parte de seu charme sempre foi justamente a capacidade de brincar com seus próprios clichês. Mas a ideia de acompanhar a adolescência de Elle Woods, uma personagem cuja graça sempre esteve em sua aparente falta de profundidade, parecia desnecessária. Inclusive porque depois do fracasso de The Carrie Diaries, seria razoável imaginar que Hollywood tivesse aprendido a lição. Afinal, transformar personagens femininas já consolidadas em protagonistas de dramas adolescentes costuma revelar justamente aquilo que seus criadores nunca precisaram explicar.
Carrie Bradshaw adolescente não funcionou porque parte do fascínio da personagem estava na ilusão de que ela sempre havia sido Carrie Bradshaw. E, no entanto, Hollywood insiste. Elle: Legalmente Loira, que acaba de chegar ao Prime Video, prova exatamente isso. A diferença é que, ao contrário de The Carrie Diaries, a nova série parece compreender que não estamos ali para descobrir quem Elle Woods “realmente” era. Estamos ali para reencontrar a fantasia que sempre acreditamos conhecer. E, assim, a série me pegou.

Grande parte do mérito é de Lexi Minetree. A jovem atriz realiza uma tarefa quase impossível: interpretar Elle Woods sem tentar fazer uma imitação de Reese Witherspoon. Há gestos, expressões e entonações familiares, mas existe também algo próprio, uma vulnerabilidade e uma sinceridade que fazem com que continuemos assistindo mesmo quando a trama segue caminhos absolutamente previsíveis.
Talvez porque Lexi entenda algo que parte da crítica parece ter ignorado: Elle Woods nunca foi uma personagem realista. Ela é uma fantasia americana muito específica. Rica, bonita, branca, popular e absolutamente convencida de que o mundo funciona para ela.
O humor de Legalmente Loira nunca nasceu de uma crítica sofisticada aos privilégios da personagem. Pelo contrário: nascia justamente do fato de que ela jamais os reconhecia. A frase mais famosa da franquia — “What, like it’s hard?” — continua sendo engraçada mais de vinte anos depois porque Elle não percebe o que está revelando sobre si mesma. Sua empatia nunca foi social ou política. Era afetiva, pessoal, seletiva. E isso fazia parte da piada.
Por isso mesmo, achei fascinante a decisão de colocar essa personagem no universo cultural dos anos 1990. Porque existe algo profundamente desconcertante em assistir a uma jovem tão otimista, tão protegida e tão segura de seu lugar no mundo circulando por uma década cuja estética foi construída justamente sobre o desencanto, a ironia e a rejeição ao excesso.
A trilha sonora, aliás, talvez seja um dos maiores acertos da série. É praticamente uma playlist afetiva dos anos 1990. Como fã de Garbage, confesso que sorri quando ouvi Only Happy When It Rains nos créditos. Existe uma ironia deliciosa em associar Elle Woods a uma música cuja narradora parece representar exatamente tudo o que ela não é: cínica, melancólica, autodestrutiva e profundamente desconfiada da felicidade.
Ou talvez não.
Porque uma das leituras possíveis de Elle Woods sempre foi a de que sua positividade absoluta também é uma espécie de performance. Uma decisão consciente de ocupar o mundo de determinada maneira. A série flerta com essa ideia, embora nunca tenha coragem de explorá-la profundamente.

Há também outro elemento que torna Elle mais interessante do que parte da crítica parece reconhecer. A série marca o último trabalho de James Van Der Beek, um dos rostos mais emblemáticos da televisão adolescente dos anos 1990. E existe algo quase perfeito — ou cruelmente perfeito — no fato de que sua despedida da atuação aconteça justamente em uma série ambientada no ensino médio, no universo que ajudou a definir para toda uma geração.
Porque, para muitos espectadores, James Van Der Beek nunca deixou completamente de ser Dawson Leery. Dawson’s Creek ajudou a transformar o drama adolescente em um gênero próprio, no qual paixões, amizades e crises existenciais recebiam a gravidade de tragédias gregas. Ver Van Der Beek encerrar sua trajetória artística em Elle não funciona apenas como um easter egg nostálgico. Funciona como um círculo que se fecha.
Aliás, a série inteira parece funcionar assim: como uma coleção de referências afetivas cuidadosamente organizadas. Há pôsteres, músicas, figurinos e pequenas piscadelas para espectadores que viveram ou imaginam ter vivido aquela década.
Nem todas as tramas funcionam tão bem. A rebelião de Elle contra a mãe talvez seja o exemplo mais claro de como Elle às vezes cria conflitos porque acredita que séries adolescentes precisam, obrigatoriamente, ter conflitos. A dinâmica entre as duas frequentemente soa como um grande “vamos criar drama porque alguém precisa criar drama”. E, no entanto, funciona.

Funciona porque a mãe de Elle é interpretada por June Diane Raphael, eternamente Brianna Hanson, para quem, como eu, considera Grace and Frankie uma das grandes comédias americanas recentes. Há algo deliciosamente apropriado em vê-la interpretar uma mãe tão deslumbrada, privilegiada e, em muitos aspectos, tão perdida quanto a própria filha. Se Elle ainda não consegue enxergar o mundo além de sua bolha dourada, sua mãe tampouco parece particularmente interessada em fazê-lo e talvez essa seja a explicação mais convincente para a personagem que Elle Woods se tornaria.
No fim, acho que a principal crítica feita à série acaba sendo também sua maior qualidade. Sim, Elle é construída sobre clichês. Seus romances são previsíveis, seus conflitos são familiares e seus dramas adolescentes estão muito distantes dos problemas sociais e culturais que definem aquela geração. Mas talvez isso aconteça porque Elle não está interessada em reconstruir os anos 1990 reais, mas sim em reconstruir a memória afetiva daquela década.
Os hits, os pôsteres, as roupas, as referências pop, os romances adolescentes e a fantasia de uma juventude que nunca existiu exatamente daquela forma. É uma coleção de clichês cuidadosamente organizados para provocar conforto. E, honestamente, não tenho certeza se Elle Woods gostaria que fosse diferente.
Afinal, ignorar as complexidades do mundo para continuar acreditando no próprio brilho talvez sempre tenha sido seu maior talento.

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