Durante quase dois anos, uma das críticas mais frequentes dos leitores de Fire & Blood a House of the Dragon foi a ausência de Nettles. Eu mesma reclamei diversas vezes. Não era apenas uma questão de fidelidade ao livro, mas a importância que a personagem exerce na reta final da Dança dos Dragões. Nettles não era apenas mais uma montadora de dragão: sua presença muda completamente a trajetória de Daemon Targaryen, provoca uma crise irreversível em seu casamento com Rhaenyra e está diretamente ligada a um dos maiores mistérios deixados por George R. R. Martin.
Por isso, quando Ryan Condal entregou Sheepstealer para Rhaena, minha reação foi a mesma de muitos leitores: parecia que a adaptação estava simplesmente descartando uma das histórias mais fascinantes de Fire & Blood. Depois deste episódio, porém, talvez seja hora de dar a mão à palmatória. A série não eliminou Nettles, mas decidiu transformar sua função dramática e distribuí-la para outra personagem e, mais do que isso, fundiu duas trajetórias que, nos livros, jamais se cruzam e criou um conflito que pode ser ainda mais devastador do que o original.
Essa mudança é muito maior do que parece porque Rhaena e Nettles nunca tiveram papéis semelhantes na obra de George R. R. Martin. Pelo contrário. Enquanto Nettles representa a ruptura entre Daemon e Rhaenyra durante a guerra, Rhaena simboliza justamente aquilo que sobra quando toda a guerra termina. Entender essa diferença é fundamental para perceber por que a série talvez tenha mudado não apenas uma personagem, mas todo o significado do final da Dança dos Dragões.
Ryan Condal confirmou que a transferência da história de Nettles para Rhaena foi deliberada e nasceu, sobretudo, da decisão de não transformar novamente o casamento de Daemon e Rhaenyra em uma trama de infidelidade. Segundo o showrunner, depois de tudo o que os dois viveram, a equipe não considerou interessante repetir o conflito por meio de uma possível amante. O objetivo era encontrar outra maneira de preservar a crise provocada pela montadora de Sheepstealer sem recorrer ao mesmo tipo de ruptura conjugal. Eu, particularmente, adorei a solução.


Quem é Nettles em Fire & Blood?
Nettles aparece relativamente tarde na narrativa, durante a busca por novos cavaleiros capazes de montar os dragões sem cavaleiro que ainda permaneciam em Dragonstone. Ela é apresentada como uma jovem bastarda de origem humilde, sem qualquer confirmação de possuir sangue valiriano. Essa informação, aparentemente pequena, é uma das mais importantes de toda a sua história, porque desafia uma das crenças centrais dos próprios Targaryen: a de que apenas pessoas de sua linhagem seriam capazes de montar um dragão.
Enquanto vários candidatos tentam dominar Sheepstealer recorrendo à força ou apostando na suposta ligação de sangue entre os Targaryen e seus dragões, Nettles adota uma estratégia completamente diferente. Durante dias, aproxima-se do animal oferecendo carne fresca, repetindo o ritual pacientemente até conquistar sua confiança. Martin nunca esclarece se ela realmente possuía ascendência valiriana ou se havia encontrado uma maneira inteiramente nova de estabelecer essa relação. A dúvida permanece aberta e talvez seja exatamente essa a intenção do autor: colocar em xeque a arrogância de uma família que sempre acreditou monopolizar um poder que talvez nunca tenha compreendido totalmente.

Depois de conquistar Sheepstealer, Nettles passa a lutar ao lado de Daemon Targaryen. É nesse momento que nasce uma das relações mais ambíguas de Fire & Blood. Martin jamais confirma se Daemon via a jovem como uma filha, como uma protegida ou como uma amante. Os relatos disponíveis são contraditórios porque o livro é construído justamente a partir de diferentes cronistas. Alguns descrevem um relacionamento paternal. Outros enxergam um romance. O próprio autor nunca escolhe uma única versão. Essa ambiguidade, porém, torna-se suficiente para destruir o casamento de Daemon e Rhaenyra.
Durante a guerra, Mysaria percebe o crescente distanciamento entre os dois e alimenta deliberadamente os ciúmes da rainha. Convencida de que o marido se apaixonou por Nettles, Rhaenyra ordena que a jovem seja presa e executada por traição. Daemon se recusa a cumprir a ordem. Em vez de entregar sua companheira de batalha, manda que ela fuja durante a noite. Na manhã seguinte, parte sozinho para Harrenhal, onde enfrentará Aemond Targaryen naquele que se tornaria o duelo mais lendário de toda a Dança dos Dragões.
É justamente essa decisão de proteger Nettles que rompe definitivamente sua relação com Rhaenyra.

O que acontece com Rhaena no livro?
Enquanto Nettles ganha importância nos campos de batalha, Rhaena percorre um caminho completamente diferente. Na verdade, sua história parece construída justamente para representar o oposto da guerra.
Depois que o conflito se intensifica, Rhaenyra envia Rhaena para o Vale de Arryn junto com os filhos mais novos, Aegon e Viserys. A missão da princesa não é conquistar territórios nem lutar contra os verdes. Sua responsabilidade é proteger aqueles que representam o futuro da dinastia caso os negros sejam derrotados. Trata-se de uma das maiores demonstrações de confiança feitas pela rainha, já que Aegon e Viserys são, naquele momento, sua última esperança de continuidade.
Ao contrário do que acontece na série, Rhaena nunca abandona essa missão. Ela permanece no Vale durante praticamente toda a guerra e não participa dos acontecimentos que aproximam Daemon de Nettles. Também nunca reivindica Sheepstealer. Na realidade, Rhaena continua vivendo o mesmo drama que conhecemos desde sua primeira aparição: ela permanece sem um dragão enquanto praticamente todos os outros jovens Targaryen encontram seus próprios companheiros alados.
Essa ausência molda sua personalidade tanto quanto a falta de Vhagar moldou Aemond durante a infância. Os dois compartilham a mesma sensação de inadequação dentro da própria família. Crescem cercados por irmãos e primos que voam, entram para a história e conquistam reconhecimento, enquanto permanecem à margem desse universo. A diferença é que Aemond responde à humilhação reivindicando Vhagar e desencadeando uma tragédia que mudará Westeros para sempre. Rhaena, por outro lado, aprende a esperar.
George R. R. Martin reserva sua recompensa para depois da guerra.

Quando a Dança finalmente termina e quase todos os grandes dragões da Casa Targaryen já morreram, um dos ovos que estavam sob os cuidados de Rhaena finalmente choca. Nasce Morning, um pequeno dragão de escamas rosadas que rapidamente se transforma em um dos símbolos mais bonitos de Fire & Blood. Sua importância nunca esteve relacionada ao tamanho ou ao poder. Morning representa a possibilidade de reconstrução justamente quando a dinastia parece condenada ao declínio.
Esse detalhe muda completamente a função narrativa de Rhaena. Enquanto Nettles simboliza a ruptura do casamento de Daemon e Rhaenyra, Morning simboliza o renascimento da própria Casa Targaryen. Rhaena finalmente realiza o sonho que carregou durante toda a infância, mas não porque venceu uma batalha ou reivindicou um dragão selvagem. Sua recompensa chega pela paciência, pela sobrevivência e pela esperança.
Depois da guerra, Morning cresce ao seu lado e Rhaena passa a voar sobre King’s Landing, oferecendo aos sobreviventes uma imagem que parecia impossível poucos anos antes: um Targaryen novamente montado em um dragão. Mais tarde, muda-se para Dragonstone para criar Morning longe da capital. Martin nunca revela exatamente quando ou como o dragão morre. Sabemos apenas que Morning desaparece antes da extinção definitiva dos dragões, tornando-se mais um capítulo silencioso do lento fim daquela era.
A própria Rhaena continua desempenhando um papel importante no pós-guerra. Primeiro, casa-se com Sor Corwyn Corbray, um cavaleiro do Vale por quem desenvolve grande afeição durante os anos em que vive sob a proteção de Lady Jeyne Arryn. Quando Corwyn morre em batalha, Baela chega a temer que a irmã use Morning para buscar vingança, sinal de que o vínculo entre amazona e dragão permanecia fortíssimo. Anos depois, Rhaena volta a se casar, desta vez com Garmund Hightower, e tem seis filhas. Há uma ironia evidente nesse destino. A filha de Daemon, que passou a infância lutando contra o poder político dos Hightower, termina a vida unindo-se justamente à família que esteve do outro lado da guerra.
É exatamente esse futuro que a série parece disposta a reescrever.
Ao entregar Sheepstealer para Rhaena, Ryan Condal não apenas retira Nettles da adaptação. Ele transforma completamente a função narrativa da filha de Daemon. A personagem que, nos livros, representava a reconstrução depois da guerra passa agora a ocupar o centro de uma tragédia que, originalmente, pertencia a outra mulher.


Rhaena deixa de representar o futuro para viver a tragédia do presente
É justamente aqui que a decisão de Ryan Condal começa a fazer sentido. Durante muito tempo, a ausência de Nettles pareceu apenas um corte imposto pela adaptação. Depois deste episódio, porém, fica claro que o roteirista não pretendia eliminar sua função dramática. Ele decidiu transferi-la para uma personagem que já existia e cuja história, até então, caminhava em uma direção completamente diferente, com uma escolha que muda completamente a leitura de Rhaena.
Ryan Condal desenvolveu durante três temporadas um sentimento que Martin apenas sugere: desde suas primeiras aparições, Rhaena convive com a frustração de ser a única Targaryen sem dragão. Enquanto Baela participa dos conselhos de guerra, monta Moondancer e conquista o respeito dos adultos, Rhaena parece destinada a permanecer sempre em segundo plano. Nem mesmo a missão dada por Rhaenyra consegue diminuir essa sensação de inadequação. Embora a rainha enxergue nela alguém suficientemente confiável para proteger seus dois filhos mais novos, Rhaena interpreta essa responsabilidade de maneira completamente diferente. Em vez de sentir que recebeu a tarefa mais importante da guerra, acredita ter sido afastada dela. Aos seus olhos, enquanto todos escrevem a história, ela foi transformada em uma espécie de babá de luxo.

Essa mudança de perspectiva torna sua decisão muito mais compreensível. Ao abandonar a caravana para procurar Sheepstealer, Rhaena não está apenas buscando um dragão. Está tentando escapar da identidade que acredita ter recebido desde criança: a filha esquecida, a irmã menos importante, a princesa que nunca foi suficiente para ocupar o lugar dos outros Targaryen.
Isso não significa, porém, que sua escolha deixe de ser desastrosa.
Ao abandonar os príncipes, Rhaena rompe uma ordem direta de Rhaenyra e deixa justamente os herdeiros da rainha sem a pessoa em quem ela mais confiava. A série ainda precisará explicar como Aegon e Viserys chegarão em segurança aos acontecimentos futuros, mas, independentemente da resposta, o fato é que Rhaena falhou na única missão que lhe havia sido confiada. Esse detalhe muda completamente sua relação com Rhaenyra porque, diferentemente do livro, agora existe um motivo concreto para que a rainha se sinta traída. Há ainda outra consequência que talvez seja ainda mais dolorosa.
Ao montar Sheepstealer, Rhaena se envolve na Batalha da Goela e interfere diretamente na atenção e na estratégia de Jacaerys em um dos momentos decisivos da guerra. Como Sheepstealer estava atacando Baela, ele vai salvar a noiva. Identificando Rhaena, ele voa mais baixo para não atacá-la e acaba se tornando alvo mais fácil para os inimigos. De alguma forma, a culpa dificilmente deixará de perseguir Rhaena. A personagem que, no livro, atravessa a Dança praticamente preservada emocionalmente, passa a carregar um peso que George R. R. Martin nunca lhe atribuiu.


Daemon enfrenta um dilema muito mais cruel do que no livro
Essa mudança atinge também Daemon Targaryen. Em Fire & Blood, sua decisão de proteger Nettles destrói o casamento com Rhaenyra porque pode ser interpretada como a escolha de uma amante em vez da própria esposa. Martin nunca confirma se os dois realmente tiveram um relacionamento amoroso, mas o simples fato de Rhaenyra acreditar nisso basta para romper definitivamente a confiança entre eles.
Na série, Ryan Condal parece interessado em construir um conflito muito mais íntimo porque Daemon não precisará escolher entre a rainha e uma possível amante, mas entre a rainha e a própria filha. Essa diferença muda completamente o significado de sua decisão.
Desde o início de House of the Dragon, Daemon nunca demonstrou ser um pai presente. Baela e Rhaena cresceram muito mais próximas de Rhaenys e Corlys do que dele. Mesmo depois do casamento com Rhaenyra, praticamente nunca o vemos interagir com Aegon e Viserys, seus filhos mais novos. Daemon sempre foi excelente em conquistar cidades, vencer batalhas e negociar alianças. Construir uma família, porém, jamais esteve entre suas maiores virtudes.
É justamente por isso que o reencontro com Rhaena tem tanto peso emocional.

Quando a encontra montada em Sheepstealer, Daemon não vê apenas uma jovem que desobedeceu à rainha. Enxerga uma filha que passou a vida inteira tentando provar que era digna de fazer parte daquela família. Pela primeira vez, ele parece compreender a dimensão do abandono que ela experimentou durante todos aqueles anos. Sua reação deixa isso evidente.
Ao retornar para King’s Landing, Daemon apresenta a Rhaenyra uma cabeça carbonizada e afirma ter encontrado o responsável pela morte de Jacaerys. A mentira serve para muito mais do que oferecer uma falsa sensação de vingança. Ela cria uma distração, afasta qualquer suspeita imediata sobre Rhaena e lhe compra tempo para escapar. Mysaria percebe quase instantaneamente que a história não faz sentido, mas isso pouco importa. Naquele momento, Daemon já fez sua escolha.
Curiosamente, trata-se exatamente da mesma escolha que faz no livro.
Quando Rhaenyra ordena a morte de Nettles, Daemon a manda fugir. Agora, ao esconder Rhaena, ele volta a proteger alguém em vez de obedecer à rainha. A diferença é que, desta vez, não existe espaço para dúvidas sobre a natureza desse gesto. Não se trata de paixão. Trata-se da tentativa desesperada de reparar uma relação que talvez nunca tenha existido de verdade.


O que acontece com Daemon no livro?
Se a série realmente decidiu transferir para Rhaena a função dramática de Nettles, é inevitável perguntar se essa mudança também poderá alterar o destino de Daemon.
Nos livros, depois de mandar Nettles fugir, Daemon segue sozinho para Harrenhal, onde espera pela chegada de Aemond Targaryen. O confronto entre os dois acontece sobre o God’s Eye e se transforma em uma das passagens mais conhecidas de toda a mitologia de Westeros. Durante a batalha, Daemon salta de Caraxes para Vhagar e atravessa o olho de Aemond com Dark Sister. Os dois dragões caem nas águas do lago e desaparecem.
Algum tempo depois, os corpos de Vhagar e Aemond são encontrados. Caraxes consegue alcançar a margem antes de morrer em consequência dos ferimentos. O corpo de Daemon, porém, jamais é recuperado.
Esse detalhe alimenta uma das teorias mais antigas entre os leitores de George R. R. Martin. Como Nettles também desaparece da narrativa montada em Sheepstealer, muitos acreditam que Daemon teria sobrevivido ao duelo e fugido para viver com ela em algum lugar distante de Westeros. Nunca houve qualquer confirmação dessa hipótese, mas Martin também nunca fez questão de desmenti-la.
A série talvez esteja preparando uma versão diferente dessa mesma ideia.

O futuro de Rhaena pode substituir também o de Nettles?
A partir do momento em que Rhaena reivindica Sheepstealer, ela deixa de ocupar o espaço que tinha em Fire & Blood e passa a trilhar um caminho muito mais próximo do de Nettles. Isso não significa que todos os acontecimentos serão reproduzidos exatamente da mesma maneira, mas torna inevitável imaginar que ela possa herdar também parte do destino da antiga montadora do dragão.
Se isso acontecer, Morning talvez nunca exista na adaptação. Ou, se nascer, dificilmente terá a importância simbólica que possui nos livros, porque Rhaena já viveu seu grande momento de afirmação ao conquistar Sheepstealer. Também não seria surpreendente se ela acabasse desaparecendo ao lado do dragão, repetindo o mistério que envolve Nettles depois da guerra.
Nada disso pode ser afirmado neste momento, mas a direção da adaptação parece apontar justamente para esse caminho. Ao fundir duas personagens em uma só, Ryan Condal inevitavelmente precisará escolher qual dos dois finais sobreviverá.

Ryan Condal não eliminou Nettles. Ele mudou o significado de Rhaena.
Talvez essa seja a conclusão mais interessante de toda essa mudança.
Durante muito tempo, pareceu que House of the Dragon havia perdido uma das personagens mais fascinantes de Fire & Blood. Depois deste episódio, começo a acreditar que Ryan Condal nunca quis apagar Nettles. O que ele fez foi muito mais ambicioso. O preço dessa decisão, porém, é enorme.
Nos livros, Rhaena representa a reconstrução. É ela quem atravessa a guerra preservando a esperança, encontra Morning quando tudo parece perdido e ajuda a simbolizar o renascimento da Casa Targaryen. Nettles, por sua vez, representa a ruptura. Sua presença leva Daemon a desafiar Rhaenyra e precipita um dos momentos mais dolorosos da Dança. Na série, essas duas funções passam a coexistir dentro da mesma personagem.
Se essa leitura estiver correta, Ryan Condal não apenas alterou uma personagem. Ele transformou completamente o eixo emocional da reta final da Dança dos Dragões. Em vez de um casamento destruído pelo ciúme e pela suspeita de adultério, poderemos assistir à história de um pai que, depois de falhar durante toda a vida, finalmente escolhe proteger uma filha justamente no momento em que sua rainha mais precisa de sua lealdade.
Confesso que jamais imaginei escrever isso depois de reclamar tanto da ausência de Nettles. Mas, se essa for realmente a direção da série, talvez House of the Dragon tenha encontrado uma tragédia ainda mais humana do que aquela imaginada por George R. R. Martin.
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