Bryan Kohberger agora se diz inocente e quer desfazer confissão

Um dos crimes mais absurdos da década é justamente o que ficou conhecido como o caso dos Quatro de Idaho: quatro estudantes brutalmente assassinados no meio da noite, dentro da casa onde dormiam, sem que até hoje tenha sido esclarecida qualquer razão para tamanha violência. Segundo a investigação e a confissão que ele próprio faria depois, o responsável era Bryan Kohberger, justamente um doutorando em criminologia.

As mortes de Kaylee Goncalves, Madison Mogen, Xana Kernodle e Ethan Chapin mobilizaram pessoas ao redor do mundo. A investigação foi acompanhada praticamente em tempo real, gerou documentários, podcasts e uma quantidade incontável de canais no YouTube dedicados a analisar cada minuto, cada depoimento e cada milímetro da casa em Moscow, no estado de Idaho.

Kohberger foi identificado, preso em dezembro de 2022 e, a princípio, dizia que seria inocentado. Depois, em uma reviravolta que surpreendeu até quem acompanhava obsessivamente o caso, desistiu do julgamento e admitiu a culpa pelos quatro assassinatos. Fez isso com a mesma frieza que marcou todas as suas aparições públicas, respondendo “sim” quando o juiz perguntou diretamente se havia matado cada uma das vítimas, mas sem explicar o motivo, sem revelar se conhecia os estudantes e sem preencher qualquer uma das enormes lacunas deixadas pelo crime.

Agora, pouco mais de um ano depois de confessar, Kohberger voltou a se declarar inocente e quer desfazer o acordo que o condenou a quatro penas consecutivas de prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, além de dez anos pela invasão da casa. Como quase nada nessa história faz sentido, talvez não seja um twist completamente inesperado. Ainda assim, é um twist.

O que Bryan Kohberger está alegando?

Em uma petição escrita à mão de dentro da penitenciária de segurança máxima de Idaho, Kohberger afirma que foi convencido por seus próprios advogados a confessar um crime que não cometeu. Segundo ele, a equipe de defesa teria usado “falsas promessas” e informações enganosas para pressioná-lo a aceitar o acordo que retirou a pena de morte.

Kohberger alega que os advogados exageraram ou inventaram detalhes sobre as condições do corredor da morte, além de prometer que, cumprindo prisão perpétua, teria melhores condições de vida, mais liberdade de circulação dentro da penitenciária, trabalho e visitas. Também diz ter sido informado de que sua culpa verdadeira não seria relevante para a negociação: bastaria assumir os crimes para escapar de uma possível execução.

Ele acusa ainda a defesa de esconder ou minimizar possíveis provas favoráveis. A principal delas seriam fios ou tufos de cabelo não identificados encontrados junto a Ethan Chapin. Kohberger argumenta que esse material poderia indicar a presença de outra pessoa e sustentar sua inocência. Por enquanto, porém, essa é apenas a interpretação dele. A existência de cabelo não identificado não apaga automaticamente o DNA de Kohberger encontrado no fecho da bainha de uma faca deixada ao lado de uma das vítimas, nem as imagens de um carro semelhante ao seu circulando nas proximidades e os demais elementos reunidos pela acusação.

A nova petição tampouco apresenta uma explicação completa sobre como ele seria inocente. Kohberger não identifica outro assassino, não descreve onde estava naquela madrugada e não explica por que admitiu pessoalmente, diante do juiz, ter matado as quatro vítimas. Ele sustenta apenas que a versão da promotoria nunca foi devidamente testada diante de um júri e que agora deseja o julgamento do qual abriu mão.

E a teoria de que ele não agiu sozinho?

Desde o início, muitas pessoas acreditam que Kohberger não poderia ter cometido tudo sozinho. A brutalidade do ataque, o curto espaço de tempo, a presença de várias pessoas na casa e alguns materiais genéticos não identificados alimentaram incontáveis teorias sobre um possível cúmplice.

Mas nenhuma investigação oficial concluiu que houve uma segunda pessoa envolvida, e a nova petição também não apresenta provas concretas de um comparsa. A ausência de um julgamento ajudou a preservar essas dúvidas: quando Kohberger confessou, a promotoria deixou de precisar expor publicamente toda a sua reconstrução do crime, e a defesa perdeu a oportunidade de contestá-la diante dos jurados.

Foi precisamente isso que tornou o acordo tão frustrante para parte das famílias e para quem acompanhou o caso. Ele garantiu que Kohberger morreria na prisão, mas também permitiu que o motivo e vários detalhes daquela madrugada permanecessem sem resposta.

Ele pode simplesmente mudar de ideia?

Não. Mas a lei permite que tente.

Kohberger não está apenas “voltando atrás” como alguém que se arrependeu de um acordo. Depois de uma sentença, a legislação de Idaho permite retirar uma declaração de culpa somente para corrigir uma chamada “injustiça manifesta”. Isso significa que ele terá de demonstrar algo grave: que a confissão não foi consciente ou voluntária, que sofreu uma coação real ou que recebeu uma defesa tão deficiente que seus direitos constitucionais foram violados. É um padrão jurídico muito difícil de alcançar.

O maior obstáculo é o próprio Kohberger. No acordo assinado em 2 de julho de 2025, ele declarou compreender as acusações, reconheceu que não estava sendo coagido e admitiu responsabilidade pelos cinco crimes “por sua própria vontade”. Durante a audiência, o juiz fez as perguntas necessárias justamente para impedir que ele alegasse depois não saber o que estava fazendo. Kohberger confirmou que entendia as consequências e respondeu afirmativamente quando perguntado se havia assassinado cada estudante.

Agora, para anular a condenação, precisará convencer a Justiça de que aquelas declarações eram falsas porque seus advogados o haviam manipulado. Em outras palavras, terá de explicar por que mentiu sob juramento para provar que não deveria continuar preso por ter confessado quatro assassinatos.

E ele não está pedindo simplesmente para sair da prisão. O primeiro objetivo é anular a confissão e recuperar o direito a um julgamento. Mesmo que consiga — algo considerado bastante improvável —, continuaria preso enquanto o processo fosse retomado. Para alcançar a liberdade, ainda teria de ser absolvido ou conseguir que as acusações fossem retiradas.

Além disso, ao desfazer o acordo, Kohberger também poderia perder aquilo que recebeu em troca. A retirada da pena de morte fazia parte da negociação. Caso a confissão seja anulada e o processo volte ao início, a promotoria poderá, em tese, voltar a buscar a execução.

Por enquanto, portanto, as portas da prisão não estão prestes a se abrir. Kohberger iniciou uma nova batalha jurídica, colocou novamente sua suposta inocência em discussão e devolveu ao caso a possibilidade remota de um julgamento. Mas ainda não explicou o principal: por que alguém que sempre afirmou ser inocente admitiu, de maneira tão direta e consciente, que entrou naquela casa e matou quatro jovens que aparentemente nem conhecia.


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