O documentário sobre os assassinatos de Idaho chegou à Netflix justamente quando o caso começa uma inesperada tentativa de reviravolta judicial. Apenas dois dias antes da estreia da produção, Bryan Kohberger apresentou um pedido para retirar a confissão que o livrou da pena de morte e voltar a ser julgado. Depois de admitir formalmente que matou quatro estudantes da Universidade de Idaho, ele agora afirma que foi pressionado e enganado por seus próprios advogados e tenta retomar a posição de inocente que sustentava antes do acordo judicial.
Dirigido por Skye Borgman e produzido por Joe Berlinger, indicado ao Oscar e um dos nomes mais conhecidos dos documentários de crimes reais, Os Assassinatos de Idaho: Pesadelo Universitário tem um diferencial importante em relação às outras produções sobre o caso: o acesso amplo à investigação oficial. A série reúne imagens das câmeras corporais dos policiais, vídeos de segurança, mensagens, documentos, registros da investigação e, principalmente, depoimentos dos agentes que trabalharam diretamente no caso. Berlinger define a produção como a primeira a apresentar uma reconstrução completa com a cooperação das autoridades, numa tentativa evidente de substituir os boatos, as teorias conspiratórias e os julgamentos feitos pela internet por uma cronologia baseada nas evidências reunidas pela polícia.
Para quem, como eu, acompanhou de perto pelo YouTube praticamente toda a investigação e o processo desse crime, não há exatamente uma grande novidade, nem mesmo uma imagem que provoque a sensação de que finalmente estamos vendo algo capaz de mudar nossa compreensão do caso. Muito do material já havia circulado de forma fragmentada em canais especializados, transmissões de audiências, reportagens, documentos judiciais e longas análises conduzidas por advogados, jornalistas e antigos investigadores.

O mérito do documentário, portanto, não está em revelar uma peça secreta do quebra-cabeça, mas em recolher tudo o que conhecemos e organizar a história de maneira compreensível. Quase quatro anos depois de Kaylee Goncalves, Madison Mogen, Xana Kernodle e Ethan Chapin terem sido brutalmente assassinados dentro da casa em que três deles moravam, ainda não temos as respostas mais básicas. Não sabemos por que aquela residência foi escolhida, se uma das vítimas era o alvo principal, como Kohberger conhecia a rotina dos jovens ou o que poderia justificar tamanha violência. Ele confessou os assassinatos, mas nunca explicou o motivo, e a promotoria também não precisou apresentar uma motivação para que o acordo fosse aceito.
É justamente essa ausência que torna o documentário tão inquietante. A polícia encontrou uma bainha de faca com DNA, rastreou um carro semelhante ao de Kohberger, analisou seus deslocamentos e seu telefone e chegou até a casa de seus pais na Pensilvânia, onde ele foi preso pouco mais de um mês depois dos assassinatos. A série consegue explicar com clareza como as diferentes peças foram reunidas e como uma investigação inicialmente criticada por sua aparente lentidão estava, na verdade, sendo conduzida em silêncio por autoridades locais, pela polícia estadual de Idaho e pelo FBI.
Ainda assim, explicar como Kohberger foi identificado não é o mesmo que explicar o crime. O documentário apresenta antigos relatos sobre seu isolamento, seu interesse pela mente de criminosos e problemas em sua vida acadêmica, mas evita transformar características desconfortáveis de sua personalidade em uma resposta psicológica pronta. Essa cautela é positiva porque o gênero true crime frequentemente confunde comportamento estranho com motivação criminal e apresenta especulações como se fossem diagnósticos.
Outro acerto está na tentativa de recuperar as vítimas como pessoas, e não apenas como os quatro nomes repetidos antes de cada nova revelação sobre Kohberger. Kaylee estava prestes a começar uma nova vida profissional, Madison era sua melhor amiga desde a infância, Xana e Ethan viviam um relacionamento cercado de planos, amigos e expectativas. A participação de Alivea Gonçalves, irmã de Kaylee, oferece à série seu eixo emocional e conduz a narrativa até o depoimento que ela fez diante de Kohberger na audiência de sentença. A intenção declarada de Borgman era fazer com que o público terminasse os três episódios conhecendo Ethan, Xana, Kaylee e Maddie para além das circunstâncias de suas mortes.
É uma escolha necessária porque, durante meses, a internet transformou o caso em um jogo coletivo de investigação. As duas sobreviventes foram acusadas, o ex-namorado de Kaylee foi tratado como suspeito e vizinhos, amigos e conhecidos tiveram suas vidas examinadas por pessoas que confundiam curiosidade com direito à acusação. A série usa a investigação oficial justamente para desmontar parte dessas teorias, embora seja difícil apagar completamente uma narrativa que já ganhou vida própria nas redes sociais.

A ironia é que o documentário foi lançado apresentando um encerramento que já deixou de ser definitivo. Kohberger havia sido condenado, em julho de 2025, a quatro penas consecutivas de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional, além de dez anos pela invasão da residência. Agora ele afirma que seus defensores omitiram evidências, exageraram as condições que enfrentaria no corredor da morte e o convenceram a confessar falsamente. Entre os elementos citados está um suposto cabelo encontrado na mão de Ethan Chapin, embora documentos indiquem que uma amostra analisada por uma especialista contratada pela própria defesa era compatível com o cabelo de Ethan.
Retirar uma confissão depois da sentença exige que Kohberger demonstre uma injustiça grave, como uma admissão involuntária ou uma violação constitucional relevante. Não será simples, especialmente porque ele assinou um documento reconhecendo a responsabilidade pelos crimes e respondeu afirmativamente quando o juiz perguntou se estava se declarando culpado porque realmente era culpado. Mesmo assim, o tribunal já autorizou a nomeação de um novo advogado para analisar o pedido, garantindo que o caso continue produzindo capítulos depois de todos imaginarem que havia chegado ao fim.
O diferencial de Os Assassinatos de Idaho: Pesadelo Universitário, portanto, não é mudar aquilo que sabemos, mas mudar quem organiza a narrativa. Saem do centro os detetives virtuais, as teorias e as suspeitas lançadas sem responsabilidade, e entram os investigadores, os documentos e as famílias que viveram a tragédia. A Netflix não resolve o mistério mais profundo dos assassinatos de Idaho, mas mostra com clareza como Kohberger foi encontrado, preso e condenado.
O que permanece é um vazio que nenhuma quantidade de imagens policiais consegue preencher. Temos um acusado que confessou e agora volta a se declarar inocente, uma condenação sem julgamento e quatro vidas interrompidas sem que ninguém tenha conseguido explicar por quê. Talvez seja justamente essa ausência de uma resposta minimamente racional que faça com que o caso continue nos perseguindo. A investigação pode estar encerrada, a sentença pode ter sido determinada e Kohberger pode passar o restante de sua vida na prisão, mas a história dos quatro estudantes de Idaho ainda não encontrou um verdadeiro fim.
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